sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Putsch Chileno – Um Capítulo Secreto

Salvador Allende 

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi transcrito da segunda edição do livro ”Democracia e Secretismo” - impresso em Lisboa, em 2002, pela Editora Publicações Europa-América - de autoria de Oswald Le Winter. Ele nasceu em Viena, Áustria, e foi para os EUA em 1939, como parte de um esforço para resgatar crianças judaicas das condições perigosas de Viena após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista. O dr OSWALD LE WINTER faleceu em 2013. Na Introdução, ele escreveu: “Este livro contém uma quantidade enorme de informações provocadoras. Se está dependente da visão do mundo que tem atualmente, não continue a ler. Se sente que não pode suportar emocionalmente o que está a acontecer na realidade deste mundo, não continue a ler. Porém, se decidir continuar, tenha a certeza de que não há nada a temer. A liberdade depende do conhecimento. O secretismo é inimigo do conhecimento e, portanto, é inimigo da liberdade”.  
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Não percebo porque é que temos de ficar de lado a ver um país transformar-se em comunista devido à irresponsabilidade do seu próprio povo” (Henry Kissinger, 27 de junho de 1970).
    
Salvador Allende, médico de profissão, chamou a atenção mundial pela primeira quando esteve a três por cento de vencer as eleições presidenciais de 1958, no Chile. Seis anos mais tarde, os EUA decidiram não deixar ao acaso. Era altura de apresentarem o povo chileno à democracia ao estilo americano.
    
O Governo dos EUA, principalmente através dos esforços clandestinos da CIA, gastou mais dinheiro per capita para apoiar o adversário de Allende, Eduardo Frei, do que Lyndon Johnson e Barry Goldwater combinaram gastar, nesse mesmo ano, nas eleições presidenciais americanas.
    
Com uma quantia estimada em 20 milhões de dólares de dinheiro dos contribuintes americanos para trabalhar, a CIA encetou um programa de propaganda anticomunista e de desinformação, destinado a assustar os cidadãos chilenos, especificamente as mães, para que acreditassem que uma vitória de Allende resultaria num controle direto da Rússia no seu país e nas suas vidas. “Não seria possível qualquer atividade religiosa’, disseram-lhes. Os seus filhos com a foice o martelo estampados na testa, seriam enviados para a URSS para serem usados como escravos, alertavam diretamente a rádio e os jornais.
    
As táticas de medo funcionaram. Embora Allende tenha conquista os votos masculinos por uma pequena margem.469.000 mais mulheres chilenas escolheram Frei. Inteligentemente manipuladas para temerem “o sangue e a dor do comunismo, sem Deus, ateu”, as mães do Chile votaram contra o homem que prometia “redistribuir rendimentos e reformular a economia” através da nacionalização de algumas indústrias importantes, como as minas de cobre, e a expansão da reforma agrária. Um grito longínquo do Leninismo, da política de Eurocomunismo de Allende, isto , comunistas ligando-se a partidos social-democratas, numa frente unida, como foi, mais tarde,planejada por Aldo Moro – que teve um destino semelhante por ordem de Kissinger -, era, na grande maioria, tão inaceitável para o Kremlin como para a Casa Branca.
    
Quando as eleições chilenas de a970 se desenrolaram, Allende ainda era um jogador de peso, Porém tinha um inimigo novo e poderoso: Henry Kissinger.
    
Apesar de outra onda de propaganda com base nos EUA, Salvador Allende foi eleito presidente da democracia mais antiga da América do Sul, no dia 4 de setembro de 1970. Pressionado pela ITT e por outros interesses financeiros que tinham financiado a campanha presidencial de Nixon, Henry Kissinger (HK) e seu bando tiveram de agir. A Comissão dos 40 foi formada com HK como presidente.O objetivo era não apenas salvar o Chile de sua população irresponsável, mas afastar, cada vez mais, a prevista maré vermelha. 
    
O Chile é um lugar bastante grande, com muitos recursos naturais”, diz Noam Chomsky, “mas os EUA não iam entrar em colapso se o Chile se tornasse independente. Porque é que estávamos tão preocupados com isso? De acordo com Kissinger, o Chile era um vírus que infectaria a região, com efeitos até na Itália”.
    
Numa reunião, no dia 15 de setembro, convocada para impedir a disseminação da infecção, Kissinger e o presidente Nixon disseram ao diretor da CIA, Richard Helms, que seria necessário “fazer a economia chilena gritar”. Enquanto canalizavam pelo menos 10 milhões de dólares para ajudar a sabotar a presidência de Allende, o assassinato imediato também foi considerado uma opção séria e bem acolhida.
    
O respeito que as FF AA chilenas tinham pelo processo democrático, levou Kissinger a escolher como primeiro alvo de assassinato não o próprio Allende, mas o general Renê Schneider, chefe das FF AA chilenas. Parece que Schneider acreditava, há muito tempo, que a política e os militares deveriam manter-se discretos. Apesar dos avisos de Helms de que um golpe de Estado poderia não ser possível numa democracia tão estável, HK ordenou o prosseguimento do plano.
    
Kissinger tinha conhecimento pessoal direto do plano da CIA para raptar e assassinar Schneider”, declarou o jornalista Christopher Hitchens. “Foi uma das relativamente poucas vezes que Kissinger se envolveu no assassinato de um único indivíduo concreto ao invés de na carnificina de milhares de anônimos”.
    
Quando o assassinato de Schneider serviu apenas para solidificar o apoio a Allende, começou um ataque dos Órgãos de Informações, semelhante ao de 1964, patrocinado pela CIA. Os cidadãos foram confrontados com relatos diários de atrocidades marxistas e de bases soviéticas que supostamente estariam sendo construídas no Chile. Eu fazia parte da equipe da CIA naquele país. A minha tarefa era certificar-me de que as histórias certas, que induziam medo, eram publicadas pelo maior jornal, oEl Mercurio. Ameaças dos EUA, de corte do auxílio econômico e militar foram também utilizadas para ajudar a fomentar um “clima de golpe” no seio das FF AA. Estas duas abordagens representaram as linhas dura e suave traçadas por Nixon e HK.
    
Até que ponto suave era suave? Edward Korry, embaixador dos EUA no Chile naquela época, articulou o plano suave ao declarar que a tarefa dos EUA era “fazer tudo que estivesse ao nosso alcance para condenar o Chile e os chilenos à privação e pobreza extremas”. Korry avisou: “Nem uma noz ou parafuso poderão entrar no Chile sob a presidência de Allende”.  
    
Do lado duro, HK começou a reunir apoios para um possível golpe militar. O historiador HowardZinn escreveu: “Em 1970, um administrador da ITT, John McCone, que também tinha sido diretor da CIA, disse a Kissinger e a Helms que a ITT estava disposta a dar um milhão de dólares para ajudar o Governo dos EUA nos serus planos para derrubar o Governo Allende”.   
    
Estava montado o palco para um choque de duas experiências. O socialismo de Allende opunha-se ao que, mais tarde, foi chamado um “protótipo ou experiência de laboratório para testar as técnicas de forte investimento financeiro num esforço para desacreditar e derrubar um governo”. Este choque atingiria o climax no dia 11 de setembro de 1973. 
    
A experiência socialista terminou em violência naquele dia e diz-se que o próprio Allende se suicidou... com uma metralhadora. Claro que, na época, os EUA afirmaram que não estavam envolvidos no golpe, do qual nem sequer tinham conhecimento. Porém, quando o Departamento de Estado desclassificou cinco mil documentos, em 1999, emergiu uma história diferente. Por exemplo: um documento da CIA no dia anterior ao golpe, declarava abertamente: “A tentativa de golpe começará no dia 11 de setembro”. Dez dias depois, a Agência anunciava: “Está planejada uma grande repressão”. Com milhares de opositores do novo regime reunidos em estádios de futebol, um documento do Departamento de Estado, de 28 de setembro, pormenorizava um pedido do novo Ministro da Defesa chileno a Washington, para que lhe mandassem um conselheiro especializado em centros de detenção.
    
Allende estava morto. No seu lugar, o povo do Chile conheceu uma repressão brutal e violações dos direitos humanos, queima de livros, cães treinados para molestar sexualmente as mulheres, uma poderosa Polícia secreta, e mais de três mil execuções. Dezenas de milhares mais foram torturados e/;ou desapareceram. Pouco depois do golpe, o auxílio econômico e militar recomeçou a ser canalizado para o Chile.
    
O homem à frente de tudo isso foi o general Augusto Pinochet, um homem que HK podia realmente controlar. “Nos EUA, como sabe,apoiamos o que está tentando fazer”, disse HK ao ditador chileno em 1975. “Desejamos sorte ao seu governo. A minha avaliação”, continuou HK para Pinochet, “é que o senhor é vítima de todos os grupos de esquerda em todo o mundo e que o seu maior pecado for ter derrubado um governo que ia ser comunista”. 
    
Mais tarde, nesse mesmo ano, quando enfrentou uma sala cheia de diplomatas chilenos preocupados com os efeitos que as violações dos direitos humanos pudessem ter na opinião mundial, HK estava na sua melhor forma: “Bom, eu li o documento preparatório para esta reunião e não tinha nada a não ser direitos humanos. O Departamento de Estado é composto por pessoas que têm vocação para o sacerdócio. Como não havia igrejas suficientes para todos, entraram para o Departamento de Estado”. 
    
HK estaria realmente preocupado com a pequena nacionalização da indústria, proposta por Salvador Allende ou havia outras forças em movimento aqui?
    
Eis como a CIA viu o assunto três dias depois de Allende ter vencido as eleições: “Os EUA não têm nenhum interesse vital no Chile. O equilíbrio vital do poderio militar não poderia ser significativamente alterado por um governo de Allende. Mas uma vitória de Allende representaria uma vantagem psicológica definitiva para  a idéia marxista”.  
    
Até Kissinger, por muito louco que seja, não acreditou que os exércitos chilenos iam invadir Roma”, explica um professor do MIT, e comentador liberal, Noam Chomsky. “Não ia ser esse tipo de influência. Ele estava preocupado com a possibilidade que um desenvolvimento econômico bem sucedido, em que a economia traz benefícios à população em geral - não apenas lucros para empresas privadas -, tivesse um efeito contagioso. Nesses comentários, Kissinger revelou a história básica da política externa dos EUA durante décadas”.   
   
Em conseqüência, em a974, quando o novo embaixador dos EUA no Chile, David Popper, se queixou das violações dos direitos humanos, Kissinger enviou imediatamente a seguinte ordem: “Digam a Popper que deixe de prédicas sobre ciências políticas”.   

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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