domingo, 18 de dezembro de 2016

Oficial de Justiça


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Antonio Tabet

Fazia mais de três horas que Fernando, o oficial de Justiça, esperava para entregar uma notificação em frente a uma luxuosa mansão em Brasília. Num dia como outro qualquer, o servidor já teria desistido, mas o envelope que repousava no banco do carona ao lado ostentava o nome do Superior Tribunal Federal. E mais: dentro dele havia a interpelação mais importante que entregaria em todos os anos de vida profissional. Aquela que afastaria da presidência do Senado o político mais poderoso da República, Ralf Carvalho. Uma guinada no jogo de xadrez de Brasília, que mudaria para sempre o curso da História, as manchetes de todos os jornais e, claro, a autoestima de Fernando, que é um ser humano como todos nós.

Tanto que, depois de tanto tempo esperando no calor seco da capital federal, quando até a bateria do celular do servidor já pedia arrego, Fernando cogitou desistir. Era sexta-feira e ele só queria um chope. O rapaz só não foi embora porque foi graciosamente surpreendido pelo inconfundível carrão do senador entrando pelo portão aos 45 do segundo tempo. “É agora!”, pensou.

Fernando ajeitou a gravata — normalmente ele não usava, mas a ocasião pedia — saiu do carro, caminhou até a enorme porta da mansão e tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Pensou ter ouvido um barulho. Nada. Insistiu. Depois de intermináveis 6 minutos para quem já tinha esperado horas, a porta abriu. Era Guiomar, com idade para ser tia dele, vestindo um uniforme daqueles clássicos de doméstica de novela.

— Pois não?

— Bom dia, senhora. Eu sou oficial de Justiça e vim entregar uma notificação para o senador Ralf Carvalho.

— Ih, moço... O senador Ralf não está. É... É só com ele? — gaguejou Guiomar, como quem mente mal.

— A senhora pode checar de novo? É que eu estou parado aqui na frente já faz três horas e eu vi que ele acabou de entrar.

— Ih é, é?

— É. Inclusive o carro dele tá parado na garagem.

— Engraçado que eu não vi ele chegar...

— A senhora tá segurando o paletó dele na mão.

— Nossa Senhora! Esse aqui? — Guiomar entrou em pânico.

— Não... Isso aqui é... É... Do filho dele!

— O filho dele tem só 9 anos.

— Filha! Eu disse filha.

— A senhora disse “filho.”

— O senhor ouviu errado. Filha.

— É que o senador nem tem filha... Olha só, me ajuda, vai, dona. Eu só quero entregar esse envelope pra ele e ir beber meu chopinho em paz.

De repente, a porta da mansão abriu-se mais e, para surpresa de Fernando, uma voz esganiçada o interrompeu.

— Que que tá acontecendo aí, Guiomar?!?

Fernando estava boquiaberto. Era o senador Ralf, vestido de mulher, com uma peruca loura mal ajambrada, óculos escuros, alguma maquiagem e simulando o que julgava — equivocadamente — ser uma voz feminina.

— Ah! Meu paletó que eu tava procurando. Obrigado... Obrigada! — disse o senador para Guiomar.

— Senador? — perguntou o ainda incrédulo Fernando.

— Não. Sou a Pâmela. Filha dele.

— Mas o senador não tem filha.

— Tenho sim, né, Guiomar? A Pâmela! Eu.

— Tem sim senhor. A... Pâmela... — Guiomar não tirava os olhos do chão.

Os três ficaram em silêncio alguns segundos, e Fernando disse:

— Entendi. Bom... Desculpa o incômodo, dona “Pâmela”... Eu... Eu vou embora então e... se por um acaso o seu pai chegar... será que a senhorita pode me fazer a gentileza de...

De repente, como um gato, Fernando deu um bote e puxou a peruca do senador. Guiomar chegou a dar um gritinho, e o senador ainda tentou se esquivar, mas era tarde demais.

— Ahá!!! Pronto. Acabou a palhaçada, senador. Pode pegar a notificação aqui.

Fernando esticou a mão e pressionou o envelope contra aqueles seios (mal) improvisados. Uma bolinha de tênis chegou até a escapulir de dentro do top rosa.

— Pra quê? — respondeu um surpreendentemente tranquilo senador.

— Pra afastar o senhor do cargo.

— Querido... Você já tá trabalhando à toa.

— Como assim?

— Deixa eu te explicar: você tá me entregando essa notificação para eu perder o cargo, certo?

— Certo.

— E eu perderia meu cargo porque eu teria... Veja bem... Teriiiiiiiia desviado dinheiro público, certo?

— Certo.

— E eu teria desviado esse dinheiro público para, entre outras coisas, construir esta mansão incrível aqui, certo?

— Certo?

— Então... Aí eu perco o cargo, vou preso semana que vem e, no primeiro feriado, consigo um juiz qualquer de plantão pra transferir pra onde?

— Prisão domiciliar?

— Exatamente. Prisão domiciliar. Pra quê? Para eu viver nesta mansão incrível que eu teriiiiiia construído com dinheiro público. Ou seja, ciclos.

— Mas pelo menos o senhor não vai poder sair de casa.

— E você acha que eu consigo sair de casa, rapaz?

— Não consegue?

— Pffff... Se eu vou jantar fora, sou xingado... Piso num estádio, sou vaiado... Se ando na rua, apanho... Já aqui... Pô... Aqui tem piscina térmica, sauna a vapor, pay-per-view e o cacete. Tem até um campo de golfe com chopeira italiana ali atrás!

— Chopeira italiana, é?

— É! Tira o chope a um grau pra chegar na mesa com três e meio. Desce na garganta com seis no máximo. Nesse calorão é uma beleza. Quer dar uma olhada?

— É que... Como oficial de Justiça eu não sei se posso...

— Oficial de Justiça? Que oficial de Justiça? Não tô vendo nenhum oficial de Justiça aqui. Você tá vendo algum oficial de Justiça aqui, Guiomar?

— Não senhor! — prontamente respondeu Guiomar.

— Viu só? Ninguém tá vendo um oficial de Justiça aqui. Nós só estamos vendo o... Qual o seu nome?

— Fernando.

— A gente só tá vendo o Fernando, esse cara bacana que vai beber um chope gelado agora na pressão. Aliás, Guiomar, faz um petisquinho para a gente?

— Sim, senhor!

Guiomar saiu animada para a cozinha. Rendido, Fernando afrouxou a gravata enquanto via a senhora indo apressada preparar os petiscos e, como quem já tem intimidade para amenidades, comentou.

— Prestativa a sua empregada, hein, senador?

— Muito. Mas ela não é minha empregada, não. É ministra do STF.


Antônio Tabet é colunista de O Globo, onde o conto foi originalmente publicado em 17 de dezembro de 2016.

Um comentário:

Anônimo disse...


Cleonice I Ferreira disse:

Senhor colunista de O Globo Antônio Tabet, seu conto vale por mil contos. Excelente!