sábado, 17 de dezembro de 2016

Plano de Ataque


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Plano de Ataque é o relato definitivo de como e porque o presidente George W. Bush, seu conselho de Guerra e os aliados, lançaram um ataque preventivo para derrubar Saddan Hussein e ocupar o Iraque. O jornalista investigativo Bob Woodward, autor do livro, já consagrado, Todos os Homens do Presidente, apresenta uma narrativa detalhada e surpreendente dos bastidores de Washington, examinando as causas e conseqüências da mais controvertida guerra desde o Vietnã.
    
O livro Plano de Ataque foi editado no Brasil em 2004 pela Editora Globo SA.            

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​ No fim de novembro, o Secret Intelligence Service(SIS), o Serviço de Inteligência britânico, MI6, encaminhou a Washington o resultado de uma sofisticada operação de Inteligência que estava em andamento, nos termos de uma “falsa bandeira”, no Paquistão. Para a falsa bandeira, parte de uma campanha secreta para impedir a disseminação de tecnologia e armamento nucleares, agentes britânicos simulavam estar vinculados com extremistas ou a um país islâmico radical, para obter contatos com envolvidos na proliferação de armas nucleares. O Paquistão, que possuía armas nucleares e um programa relativamente sofisticado, era um foco de preocupações quanto a proliferação dessas armas para outras nações muçulmanas, ou, talvez pior, para a rede de Osama Bin Laden.
    
Um projetista paquistanês de armas nucleares se oferecera para vender o projeto de uma bomba para a falsa bandeira do SIS. Usando a capa fictícia para deixar o cientista à vontade, os ingleses conseguiram desentocar mais informações. Em certo momento o cientista sacou um desenho muito mais sofisticado de uma arma nuclear e, de acordo com os ingleses, o desenho era em escala. Refletia um entendimento profundo das complexidades da tecnologia das armas nucleares. Havia ainda informações para a construção de uma arma radiológica rudimentar, ou “bomba suja”. 

Arma assustadora, mas relativamente simples, a tal bomba suja podia ser fabricada utilizando-se material altamente radioativo, como tubos de combustível usados, de reatores, enrolados em volta de explosivos convencionais. Se detonado, o dispositivo pode espalhar radioatividade por vários quarteirões em áreas maiores de uma cidade e produzir um impacto psicológico calamitoso.
    
Para culminar, outro informe de Inteligência dizia que bin Laden estivera presente em uma reunião em que um de seus companheiros apresentou uma lata que supostamente continha material radioativo e a brandiu no ar,  ameaçadoramente, para provar que a Al-Qaeda falava sério sobre obter um dispositivo nuclear. Quando as equipes para-militares da CIA estavam vasculhando o Afeganistão,esconderijo de bin Laden, haviam encontrado o diagrama de uma bomba suja e outros documentos sobre armas nucleares. Embora toscos e insuficientemente detalhados para uma arma, os documentos sugeriam uma intenção. O próprio bin Laden falara recentemente a um jornalista paquistanês que possuía armas químicas e nucleares “como meio de retaliação”.
    
Foi um momento eletrizante quando tudo isso chegou ao presidente.
    
“George”, disse Bush a Tenet, “quero que você vá até lá e consiga o que precisa, Pegue o avião e vá imediatamente para o Paquistão. Use todos os meios à sua disposição”.
    
Horas depois, Tenet tinha dado meia volta ao mundo. Grande e corpulento, com uma voz carregada, rouca e contagiosa, ele tende a assumir o controle de todo espaço que estiver ocupando. Iria ver o chefe de Inteligência paquistanês com a intenção de fazer um grande estardalhaço. Depois de 16 horas de vôo, Tenet estava extremamente tenso. sem nenhuma inclinação para meias palavras ele lisonjeou e ameaçou.
    
Tenet se encontrou com o presidente paquistanês, o general Pervez Musharraf a mensagem de seu presidente, empenhando-se, ao máximo, para fazer saltar das órbitas os olhos do recatado e ocidentalizado general, de fala inglesa. As autoridades paquistanesas haviam reunido vários de seus cientistas e, sob interrogatório, extraíram informações de que, pelo menos um, havia se encontrado com membros da Al Qaeda.
    
Tenet insistiu para que os paquistaneses trabalhassem no caso 24 horas por dia durante sete dias da semana, e examinassem cada ângulo e revirassem cada pedra.
    
Na noite de 1 de dezembro, Tenet estava voando de volta a Washington. Cinco serviços de Inteligência estrangeiros, incluindo o saudita, foram alertados de que algum tipo de dispositivo nuclear, desde uma bomba suja até uma ogiva de combate, plenamente desenvolvida, poderia ser acionado. Os sauditas tomaram precauções extremas em suas fronteiras, e incrementaram o uso de instrumentos de detecção de radioatividade.
    
As informações produziam um impacto dramático em Bush. Ele não queria deixar por menos. Um novo alerta nacional antiterrorista estava planejado para a segunda-feira, com a advertência vaga de que “a quantidade e o nível das ameaças estão acima da norma” e um ataque poderia acontecer “nas próximas semanas”.O vice-presidente Cheney partiu para um local seguro, fora de Washington e teve que fazer conexões com altos funcionários estrangeiros por uma videoconferência segura.
    
Dois repórteres do Washington Posto tinham aventado uma possível ameaça de bomba nuclear ou bomba suja, e uma matéria estava prestes a ser publicada na edição de domingo, 2 de dezembro, com alguns detalhes. Com Tenet fora do país, um funcionário muito antigo da CIA ligou para a minha casa horas antes da matéria ser impressa e insistiu para que ela fosse adiada.

Sobre Musharraf, o funcionário disse que “nós recorremos muito ao apoio dele”, e que estavam “apertando os parafusos”. E continuou: “Estamos chegando ao ponto em que eles – os paquistaneses – trabalharão conosco. Uma matéria dessas os levaria a interromper as conversações, e eles a veriam como uma tentativa de pressioná-los” com a mídia. As informações eram incompletas, disse ele. “O que temos é mais sugestivo do que conclusivo”.
    
Len Downie, editor executivo do Post, falou com o funcionário da CIA e decidiu segurar a matéria.
    
Vários dias depois o Posto publicou-a sem fazer nenhuma referência à viagem de Tenet. Era o artigo de fundo de terça-feira, 4 de dezembro, sob um título de duas colunas, “EUA receiam avanços nucleares de bin Laden; preocupação com ‘bomba suja’ afeta a segurança”. Quatro meses depois, o funcionário da CIA disse: “A Agência não encontrou o que temíamos no Afeganistão, mas estará em algum outro lugar? Acho que ainda não chegamos ao fundo da questão!”
   
OBSERVAÇÃO FINAL: Esse foi o início da operação que, em 2004, descobriu a venda de tecnologia nuclear, pelo chefe do programa nuclear paquistanês, Abdul Qadeer Khan, que mais tarde confessou ter ajudado o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia em seus programas nucleares.   


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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