quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Revolução e Classe Operária


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi escrito por Samir Amin (em árabe, سمير أمين) (Cairo3 de setembro de 1931) é um economista egípcio neo-marxista, um dos mais importantes de sua geração. Realizou seus estudos sobre políticaestatística e economia em Paris. Atualmente reside em Dakar (Senegal), e foi publicado no livro “História do Marxismo – O Marxismo Hoje”, de Eric Hobsbawn.
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A vocação revolucionária da classe operária constitui indubitavelmente o tema de partida essencial do marxismo. O próprio Marx definiu sua contribuição dizendo que ela reside não na descoberta das classes sociais, mas na demonstração de que, na era do capitalismo, a luta entre as classes deve levar à abolição delas, ao comunismo. Isso implica que se reconheça: a) o caráter essencial da relação capital-trabalho, como relação determinante da sociedade moderna; b) o caráter expansionista dessa relação, que envolve inexoravelmente o mundo inteiro; c) a impossibilidade de uma conciliação entre os dois pólos – burgueses e proletários – e o caráter ilusório e temporário de qualquer compromisso entre eles; d) a consciência necessária e crescente do desfecho comunista por parte do proletariado; e) a expansão mundial dessa consciência, que está na base do apelo de Marx: “proletários de todo o mundo, uni-vos”. A convicção otimista de Marx não implica a certeza “religiosa” do desfecho comunista: se as condições que aqui enumeramos sumariamente não se verificarem, o capitalismo levará a humanidade à autodestruição. A opção é entre comunismo e barbárie.

O materialismo histórico não pode ser reduzido a um “economicismo”, mais ou menos vulgar, mecanicista, nem à visão de uma única realidade social, a das classes, com a conseqüente negação de qualquer outra realidade. A primeira dessas reduções é muito antiga, quase contemporânea aos escritos de Marx. Inserindo-se na tradição do pensamento iluminista, ela assimila a sociedade à natureza, e identifica o caráter objetivo das leis sociais com o das leis naturais.

Os condicionamentos econômicos, por conseguinte, operariam do mesmo modo que os natur, desde a Dialética da Natureza, de Engels, passando pelo economicismo de Kaustky e até o diamat (Obs: materialismo dialético) soviético. Essa linha leva – como Berstein havia compreendido – ao reformismo, na medida em que o socialismo se apresenta como o desfecho inevitável, ao qual se chegaria até mesmo sem se saber. No limite, portanto, a condição indicada, relativa à consciência, perde sua significação específica própria: ou não é mais realmente indispensável, ou – e as coisas não mudam – desenvolve-se de modo fatal. Do mesmo modo, o socialismo - nessa perspectiva – é impossível antes que o capitalismo tenha completado sua própria obra, desenvolvendo as forças produtivas e proletarizando a sociedade.

A segunda redução é não menos antiga; constitui, aliás, uma tendência profunda do sistema marxista. A expansão das relações capitalistas em escala mundial deveria cancelar progressivamente todas as outras realidades sociais: nações, comunidades religiosas e culturais, tribos, etnias, castas, perderam sua identidade, para dar lugar a uma única contradição, a que opõe burgueses e proletários. Com efeito, precisamente a história da expansão mundial do capitalismo mostrou como essa formação econômico-social, em vez de tornar homogêneas todas as sociedades e reduzir o mundo inteiro à dicotomia fundamental entre burgueses e proletários, na verdade reproduziu e acentuou – ao desenvolver-se com base numa divisão internacional do trabalho – a heterogeneidade e a hierarquia das nações.

Já Lenin, ao tomar conhecimento da cumplicidade dos partidos socialistas na ação de pilhagem do mundo colonial, destacava no Imperialismo os efeitos políticos desse tipo de expansão. Decerto, seria de perguntar se o capitalismo – desde a origem de sua formação e expansão – não foi sempre um sistema mundial fundado em posições assimétricas entre as regiões centrais e as regiões integradas para serem transformados em periferia do sistema.

O breve momento da hegemonia britânica – dos anos 20 aos anos 70 do Século XIX – industrialista e livre-cambista, no curso da qual se formaram novos centros nacionais europeus à imagem da Inglaterra, pôde levar a supor que existisse que existisse essa potencialidade homogeneizadora na expansão da relação social capitalista. E não se deve esquecer que Marx viveu precisamente em tal época. De qualquer modo, a análise leniniana do imperialismo não se revelou capaz de cancelar os efeitos políticos denunciados: o reformismo e a atitude pró-imperialista não podiam ser facilmente removidos da consciência operária das metrópoles. Aliás, os próprios partidos da Terceira Internacional terminaram por se revelar progressivamente condicionados pelas realidades sociais predominantes.

Lenin, contudo, deixara claro como a transição pra o socialismo não deveria mais ser concebida como uma série de revoluções socialistas nos centros metropolitanos, mas como uma série de rupturas dos “elos mais fracos da cadeia”. Isso implicava uma série de questões: a) sobre a função dos camponeses, que constituíam a maioria nas periferias dominadas; b) sobre as possibilidades de “a classe operária”, numericamente fraca em tais países, dirigir essa revolução; c) sobre o modo de combater as aspirações das novas burguesias em formação nas áreas periféricas; d) sobre a possível integração das realidades nacionais e de suas reivindicações específicas no esquema revolucionário. Não eram, decerto, questões novas: as classes camponesas tinham colocado não poucos problemas, já no âmbito da Europa oitocentista, da França e da Alemanha à Itália e aquelas nacionalidades oprimidas pelas “prisões dos povos”, que eram os impérios russo, austríaco e otomano. Mas via de regra, havia uma inclinação no sentido de minimizar o problema:os camponeses – reserva da hegemonia burguesa anti-operária – estavam destinados ao desaparecimento precisamente em função do desenvolvimento das relações capitalistas no campo. 

Mas, em seguida, surgiram novas dissensões: a questão já não era mais européia. Os camponeses e as nações oprimidas se apresentam se apresentam como um problema essencial do mundo colonial e semicolonial; não mais se trata de esperar seu desaparecimento em conseqüência do desenvolvimento capitalista: o marxismo tem que se tornar uma força de transformação das sociedades coloniais. O problema está longe de ter sido resolvido, tanto em termos teóricos como na prática política. Em que medida a vocação revolucionária da classe  operária subsiste no coração do sistema?

E em que medida pode ser estabelecida nas áreas periféricas? De que modo se articula com as aspirações dos camponeses e das  burguesias daqueles países? O debate sobre a expansão do capitalismo, naturalmente está implícito: que capitalismo se desenvolve naqueles países, que depois da Segunda Guerra Mundial são chamados de “Terceiro Mundo”? Por outro lado, no momento em que o marxismo deixa de ser europeu para se tornar um fenômeno mundial, toda uma série de outros problemas termina por se colocar, na medida em que o próprio marxismo não pode deixar de ser profundamente marcado pela sociedade na qual surgiu.

Desse modo, a discussão, embora tenha como base as firmas de organização econômica da exploração capitalista em escala mundial, deve abordar também os modos de exploração pré-capitalistas não-europeus, as culturas e as grandes religiões não-européias, etc. Trata-se de uma discussão que mesmo tendo atrás de si uma base cultural que vai do Marx dos Grundrisse aos debates sobre o modo de produção asiático, coloca-se, contudo, em termos essencialmente novos, dado o confronto direto e imediato com realidades novas.

O desenvolvimento do capitalismo na Ásia e na África, no último século, apresenta características específicas, que fazem dele algo diverso de uma repetição retardada do desenvolvimento ocorrido no Ocidente. A indústria que é introduzida nesses continentes, numa época agora dominada pelos monopólios, é, desde o início, moderna; ela utiliza tecnologias que criam pouco emprego e, sobretudo, que não apresentam analogias com a força de trabalho com a Europa industrial do século passado.

A classe operária é constituída, naqueles países por trabalhadores não qualificados, ligados a cadeias de montagem de elevada produtividade. É, portanto, pouco numerosa, recrutada numa enorme massa de camponeses pobres, sem terra, amontoados nas miseráveis periferias urbanas. A alta produtividade do trabalho permite, com freqüência, a garantia de um nível de vida que, se é miserável em relação aos dos operários dos países desenvolvidos, oferece vantagens bastante sensíveis (antes de mais nada, uma relativa segurança no emprego) em nível local.

A formação de uma classe operária, nesses países, está sempre em atraso com relação à de outras classes criadas também pelo desenvolvimento do capitalismo moderno; por um lado, a pequena burguesia de técnicos e empregados e a burguesia rural de médios e pequenos proprietários, e, por outro lado, as massas pobres, mas não proletarizadas, dos camponeses sem terra e dos desempregados. A burguesia local, ao contrário – não menos do que a classe operária – ressente-se negativamente do domínio dos monopólios em escala mundial.

Essa peculiar situação dos países afro-asiáticos se revela indubitavelmente como algo explosivo. A contradição que a caracteriza é, por outro lado, evidente: pior um lado, a classe operária não pode desenvolver sua própria consciência socialista, a não ser sob a condição de criar sua organização de classe autônoma, com o objetivo de travar até o fim sua luta anticapitalista; por outro, a revolução não pode certamente ser obra apenas da classe operária.

Mas, no âmbito de uma ampla aliança com os camponeses, e até mesmo com a burguesia, será que a classe operária é capaz e dirigir a “frente única” e de desenvolver um projeto comunista próprio? O leninismo – assim como o maoísmo, que pretende ser seu desenvolvimento – afirma que isso é possível, e até mesmo, que constitui o fenômeno peculiar da transição ao socialismo em nosso tempo.

Assim, a antiga palavra de ordem do Manifesto é substituída por uma nova: “Proletários e povos oprimidos de todos os países, unam-se!”. A expansão mundial do marxismo, a convicção de que seu centro de gravidade transferiu-se para o mundo revolucionário do subdesenvolvimento, transparecem por trás dessa teoria da vocação socialista da  classe operária em escala mundial em nosso tempo. Resta ver de que modo o marxismo respondeu, nos planos teóricos e práticos, aos problemas levantados pelo leninismo.     

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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