segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A Grande Incógnita


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “A Kleptocracia – A Corrupção da União Soviética”, escrito por Patrick Meney, que foi correspondente permanente da Agência France Press em Moscou.
   
A Kleptocracia é uma verdadeira sociedade paralela, sem a qual a vida cotidiana seria intolerável na União Soviética. Uma sociedade em que se combinam a desfaçatez, a artimanha, a trapaça. Onde se encontram os tipos de crimes comuns no Ocidente, como a prostituição e o banditismo, mas, sobretudo, e em grande escala, a especulação, a pilhagem, o desvio de toneladas de mercadorias, o suborno no ensino e na medicina.
    
“O furto é uma das maiores concomitâncias do capitalismo”, proclama a Grande Enciclopédia Soviética.
    
Nessas condições, por que 100 penas capitais são aplicadas todos os anos na URSS, unicamente por crimes econômicos? Após mais de 80 anos de socialismo, a corrupção e o mercado negro estão em franco desenvolvimento. É o que denunciam diariamente o Pravda e milhares de jornais nos quatro cantos do império soviético. Até o próprio Izvestia, órgão do governo, revela que  a Polícia e os juízes manipulam os dados divulgados sobre a delinqüência.
    
Os soviéticos aprenderam a conviver com a penúria e procuram remediá-la submetendo-se às regras do mercado negro e aos rituais da corrupção. Por necessidade ou por interesse. Na maioria das vezes não há alternativa.
    
O livro A KLEPTOCRACIA o dinamismo dessa contra-sociedade edificada diariamente por 280 milhões de cidadãos soviéticos (ou, agora, russos).
    
Essa é a epopéia que pesará sobre o futuro da segunda maior potência do Planeta.                   
           
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NEP (Nova Política Econômica) ou comunismo de caserna: o futuro da Rússia parece se resumir nessas alternativas. Mas é impossível prever a escolha final. Essa foi uma das grandes interrogações do fim do século XX, pois a questão ainda nos afeta a todos.
    
NPE ou comunismo de caserna: um ou outro pode ganhar. São demais os elementos imprevisíveis, especialmente internacionais; demais as incógnitas no plano interno – tais como o peso, a sensibilidade e a mudança dos chefes chamados a atuar – para que se possa ousar responder em forma definitiva, até porque a discussão se encontra em pleno curso. Dela, só nos chegam alguns sons abafados. Os projetos ainda precisam ser definidos com clareza. Para alguns, as duas tentações e confundem e coexistem: pode-se fazer funcionar uma nova NEP sem antes voltar à disciplina e ao rigor? Pode-se realmente militarizar o conjunto da sociedade – as fábricas, mas também o pequeno comércio, os restaurantes – ou os conservadores, à margem da volta à ordem indispensável, deverão aceitar os bolsões privados?
    
À espera da resposta só há duas certezas com relação a Moscou. A atual gerontocracia se acha profundamente engajada na luta que levará a colossal máquina soviética a seguir um ou outro caminho. E nesse país, “onde todo o poder pertence ao povo”, a decisão fundamental escapa ao povo. Seja NEP ou comunismo de caserna, o povo terá que aderir unanimemente.

Mais que isso: ele corre o risco de ir sabendo por acaso, pouco a pouco qual o socialismo que lhe destinam, lendo as entrelinhas de um editorial doPravda, ou por meio de um decreto que autorize a expansão do artesanato privado ou, ao contrário, a generalização da pena de morte por crime econômico grave. Pois não foi preciso esperar tantos anos para que se acreditasse na estabilidade do brejnevismo e para ter a medida do seu imobilismo?
    
NEP ou comunismo de caserna? Há muita movimentação em Moscou. Para se colocar, para esperar ou tremer. A imprensa já acusa as autoridades que acumulam alguns tesouros ilícitos para “os dias difíceis”. A luta sucessória não é sem perigos. Exige a infiltração de protegidos em postos-chave da Nomenklatura, dos sindicatos, das diversas máfias de província e da capital. Quando se vive em Moscou essas coisas se sentem. E, significativamente, constata-se que, nesse fervilhar, apenas uma classe mantém a serenidade, como se tivesse certeza do seufuturo radioso: a classe dos aprendizes de capitalista, a classe subterrânea.
    
NEP ou comunismo de caserna, tanto faz , os bons tempos estão garantidos! Seja qual for o caminho escolhido, o Estado terá que se conformar, ainda por muito tempo, com a presença da economia paralela: nenhum golpe de  mágica tirará a Rússia de sua rotina, ou encherá suas lojas, ou transformará suas empresas. Será preciso tempo, e bastante tempo. NEP? Esses capitalistas clandestinos, esses fora-da-lei do socialismo real passarão a ter existência legal. Saberão se reconverter. Comunismo de caserna? A guerra nunca matou o mercado negro!
    
A kremlinologia é, sem dúvida, uma ciência inexata. Durante dez anos, os analistas ocidentais anunciaram a morte de Brejnev e ele invariavelmente reaparecia, como um joão-teimoso irreverente. Portanto, a tentativa de perceber a  Rússia pela base, pela rua, no seu cotidiano, pode sofrer da mesma inexatidão. De qualquer forma, é repleta de ensinamentos. Na multidão de “rostos abatidos”, quando um olhar se ilumina é porque percebeu uma dessas frestas pelas quais o homem sempre consegue penetrar. Aqui, a esperança não está no oficial. Está no paralelo. É o que dizem, à sua maneira, os discos do mercado negro: “Melhor ter nascido em Moscou, do que não ter nascido!”

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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