segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O Surgimento do Novo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Se Você conta com alguém que tem menos qualidades que Você, isso levará à sua degeneração.
     
Se Você conta com alguém com qualidades iguais às suas, Você permanecerá onde está.
     
Somente quando Você contar com alguém cujas qualidades sejam superiores às suas é que Você atingirá uma condição sublime.
         
(DALAI-LAMA –“Palavras de Sabedoria”)

​O antagonismo entre as classes ao desaparecer, fará com que essas formas de consciência desapareçam também. A religião, a moral e a individualidade não mais terão razão de existir e dissolver-se-ão. Era esse o resumo da cartilha, porém, na prática, como comprova o socialismo realmente existente, também a liberdade e o Direito desaparecem e a cultura e o lazer passam a ser definidos pelo Partido da classe operária.

Nesse sentido, as últimas linhas do Manifesto Comunista constituem uma franca e brutal declaração de guerra à nossa sociedade, tachada de “velha sociedade”, condenada pela dialética da História: “Os comunistas não se dignam dissimular suas idéias e projetos. Declaram abertamente que não podem atingir seus objetivos senão destruindo pela violência a antiga ordem social. Que as classes dirigentes estremeçam à idéia de uma revolução comunista, pois os proletários nada têm a perder com ela, a não ser suas próprias cadeias. E têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos” (observação do autor deste texto: Marx, que redigiu o Manifesto, não era um proletário, senão teria escrito ”Proletários de todos os países, Unamo-nos!”).
    
A todas essas agressivas e vibrantes predições, a História, cerca de 150 anos depois do Manifesto, deu um desmentido com o desmantelamento do comunismo nos países do Leste-Europeu, onde ele foi implantado pela força das armas.
    
A ditadura do proletariado seria, portanto, apenas um instrumento para alcançar a sociedade sem classes, ou seja, a utopia.
    
Lenin, que implantou a ditadura do proletariado na Rússia, assinalou, em seu texto “O Estado e a Revolução”, escrito pouco antes da Revolução Bolchevique, que o novo Estado seria um Estado sem polícia e sem burocracia. Ironicamente, o Estado por ele criado foi a antítese do que ele formulara. O Exército Vermelho encontrou argumentos justificadores diante da ameaça da invasão estrangeira e da guerra civil. A formação da Cheka – a polícia política – foi justificada como necessária para acabar com os inimigos da revolução. O revigoramento da estrutura burocrática deixada pela estrutura czarista foi justificada pela complexidade da administração do país. E, finalmente o fechamento da Assembléia Nacional Constituinte – que funcionou por apenas um dia – e o sistema de partido único, foram, na mesma linha de justificação, atos necessários para consolidar os operários na liderança do novo Estado.
     
O Estado autocrático czarista, derrubado por Lenin, sobreviveu, assim, sob formas mais marcantes, no governo dito dos trabalhadores.
    
Hoje, a grande diferença entre o Leste da Europa é que aqui – onde o povo nunca viveu sob o comunismo, com exceção de Cuba – ainda existem partidos comunistas. O comunismo não acabou. Ele permanecerá, embora apenas como uma utopia, voltando às origens, graças à sua extraordinária de transformar, aos olhos da opinião pública, fracassos em sucessos, como ocorreu no início da década de 90, com a “reestruturação” comandada por Gorbachev. Para não morrer, o comunismo apenas se reestrutura.
    
Agora, uma palavra sobre Gorbachev: durante mais de 80 anos seus antecessores transformaram aquário em sopa de peixe. Ele tentou transformar sopa de peixe em aquário. Ou seja, como assinalou o Manifesto comunista, tentou “reverter a roda História”.
     
Ele conseguiu implantar uma competição política limitada nas eleições, com a formação de grupos exteriores ao partido único. E manifestou seu desejo em favor da revogação do artigo sexto da Constituição, abrindo mão da fórmula medieval de partido único “dirigente de toda a sociedade” e de estabelecer o Soviete Supremo como um Poder efetivo. Isso conduziria a um sistema político radicalmente diferente. O preço a ser pago para voltar atrás em tudo isso aumentou a cada dia, embora o preço da perestroika já seja conhecido: o fim da União Soviética.
    
Seria imprudência afirmar, na época, que essas mudanças seriam irreversíveis, malgrado a capacidade e o talento de Gorbachev.
    
O certo é que, onde quer que tenha sido instalado, sempre através da força, da União Soviética até Cuba, e agora a Venezuela, o socialismo falhou. O socialismo é a fábula que promete igualdade e abundância para trazer tirania e fome.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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