segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Organizando o Comunismo

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Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro CAMARADAS – uma História do Comunismo Mundial -, escrito por Robert Service, um dos maiores especialistas em história moderna da Rússia - historiador, acadêmico e escritor britânico; leciona História Russa na Oxford University -. A importante mensagem transmitida por esse livro, tanto para os contemporâneos quanto para as gerações vindouras do Século XXI, é que, embora o comunismo, em seu formato original, esteja morto ou em estado terminal, a pobreza e a injustiça que possibilitaram seu surgimento ainda vivem perigosamente, vulneráveis à exploração de extremistas.
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Os Estados comunistas, com exceção da renegada Iugoslávia, sempre professaram fidelidade ao Movimento Comunista Internacional, chefiado pela Rússia.
    
Isso não quer dizer que o modelo soviético fosse copiado em todos os detalhes ou que não havia diferenças nacionais entre os Estados Comunistas. Circunstâncias e tradições específicas haviam levado os comunistas ao Poder na Rússia. Contudo, em outros países, a situação foi diferente. Além do mais, após 1917 ocorreram grandes mudanças na Rússia. Comunistas estrangeiros nem sempre aprendiam com os erros dos soviéticos; muitos deles sofriam de amnésia histórica e cometiam os mesmos equívocos. Às vezes, viam claramente a necessidade de evitar os erros cometidos na Rússia, e, no entanto, impunham a seus povos políticas ainda mais repressivas. 
    
E, embora alguns líderes no Leste Europeu entendessem que certa moderação fazia-se necessária, ficavam inibidos de agir por recear a reação do Kremlin. Assim, o regime governamental nos países comunistas tinha pouca flexibilidade em seu campo de ação. Logo que os partidos marxistas-leninistas firmaram as mãos nas alavancas do Poder, suas escolhas de estruturas, práticas e políticas governamentais foram notavelmente uniformes.
    
Mas houve uma exceção na forma de tratamento da “questão das nacionalidades”. Roosevelt e Churchil aceitaram os argumentos dos soviéticos de que as fronteiras dos Estados tinham que ser redesenhadas e que era necessário realizar “transferências” étnicas e de povos. Os Três Grandes haviam deslocado as linhas de fronteiras sem esperar os tratados de paz.

A URSS obteve concordância dos aliados ocidentais para expandir seu território, em detrimento da configuração territorial da Polônia anterior à guerra. Contudo, selaram um acordo pelo qual a Polônia deveria ser recompensada com o acréscimo ao seu território das terras orientais da Alemanha. Os iugoslavos criaram muitos problemas nessa disputa. Quase nenhum país fronteiriço ao seu território ficou livre da sua cobiça: Albânia, Bulgária, Hungria, Áustria e Itália.
    
Os regimes comunistas bombardeavam seus povos com a promessa de uma vida gloriosa... no futuro. As autoridades não se cansavam de anunciar o advento, não muito distante, da grande Utopia e punham a culpa dos problemas de então nas iniqüidades do capitalismo do passado. Porta-vozes oficiais conclamavam os cidadãos bem-intencionados a trabalhar com afinco e contribuir para a melhoria das condições de vida. Fecharam associações da sociedade civil ou as puseram sob rigoroso controle, e a religião foi tratada com grande desconfiança. A Igreja Católica, com sua sede global no Vaticano passou a ser considerada bastante suspeita.

Os comunistas passaram a recrutar informantes entre os membros da hierarquia eclesiástica e a influenciar indicações para postos clericais. Na Romênia, a Igreja Ortodoxa mostrou-se de uma covardia extrema, tanto que seu patriarca declarou: ”Cristo é um novo homem. E esse novo homem é soviético. Portanto, Cristo é soviético”. Intelectuais eram pressionados a criar obras de “realismo socialista”, e passaram a fazer isso, mesmo que, no íntimo, detestassem o marxismo. Sua hipocrisia era justificada pelo pretexto de que precisavam sobreviver.
    
As editoras do Estado demonstravam seu compromisso patriótico e cultural, com a publicação de milhões de exemplares de clássicos nacionais aprovados pelas autoridades. Essa prática era de alta prioridade em todo o Leste Europeu.
    
Protestos em massa eram fatos excepcionais, pois os comunistas eram conhecidos como mestres implacáveis nas técnicas de repressão a manifestações de insatisfação. Além do mais, campos de trabalho forçado desenvolvidos na URSS foram introduzidos em todo o mundo comunista. Foram mais fáceis de implantar nos países do Leste Europeu, onde os Estados herdaram as estruturas de tortura e opressão do Terceiro Reich.
    
Apesar de tudo, continuavam a existir os grandes infratores que, quando conseguiam se livrar da execução eram forçados a se retratar com autocríticas, que não passavam de um ritual de humilhação já arraigado nas práticas comunistas. Afinal, cumpria mostrar ao povo que nada, exceto o endosso das políticas governamentais correntes, era aceitável no discurso político. A oposição tinha que ser vista como reacionária e fútil. Com isso, a sociedade inteira seria levada a achar que oi comunismo fazia parte da ordem natural do processo de desenvolvimento histórico.
    
No entanto, os padrões de inconformismo eram fortes, e baixa a qualidade das práticas trabalhistas e dos hábitos no trabalho. Talvez a única exceção tenha sido a Alemanha Oriental. Os alemães foram o único povo que conseguiu fazer o comunismo funcionar. Já, na Alemanha Ocidental,  em toda a parte predominava a embromação e a negligência para com as próprias obrigações, bem como a apresentação de relatórios falsificados. Trabalhadores flagrados em atos dessa natureza punham a culpa em seus diretores, aos quais acusavam de fraude grosseira. Ferroviários poloneses calavam desafiadoramente, aos gritos, militantes sindicalistas da Polônia: “Nós vamos roubar!”. O cinismo em ralação às autoridades se alastrou rapidamente. Uma carta anônima enviada a Hilary Minc, ministro da Indústria e Comércio polonês, começava assim:
   
“Excelentíssimo Senhor Ministro! O senhor acha que seu        jogo não é transparente para nós, trabalhadores de saco cheio de sua democracia baseada em demagogia e sua via charlatã para o socialismo? Acha que nós, o povo trabalhador, não vemos suas limousines, seus apartamentos ricamente mobiliados e, de forma geral, sua vida pessoa cheia de podridão?”
    
A instituição de regimes comunistas nos países do Leste Europeu levou à formação de partidos de massas. Essa foi a parte fácil do processo. Veteranos retornados do exílio em Moscou ou pertencentes a grupos clandestinos locais, souberam que o crescimento do numero de filiados trouxe consigo o vírus do carreirismo. Os comunas estabeleceram escalas para iniciar jovens promissores na doutrina e nas práticas comunistas, com a finalidade de criar um grupo de funcionários públicos qualificados e confiáveis.
    
Nem todos, porém, sucumbiam à tentação. Devotos católicos da Polônia, Hungria e Checoslováquia, sentiam-se enojados com a militância ateísta dos marxistas.
    
Se entre tantos outros, apenas um Estado tivesse enfrentado as necessidades básicas da sociedade soviética, esse poderia ser considerado uma excentricidade. De fato, todos os novos Estados foram afetados por problemas que afligiam a União Soviética desde o início. As estruturas, práticas e idéias dos regimes comunistas eram de uma semelhança impressionante. A reação das pessoas em relação a elas, inclusive as próprias autoridades partidárias, foi também de notável similitude.

A Checoslováquia era uma sociedade urbana e industrializada, integrada à economia européia, antes da II Guerra Mundial, ao passo que a Albânia, um país extremamente agrário. No entanto, o padrão de reações ao comunismo foi parecido nesses dois países, nos quais as particularidades nacionais eram importantes, mas apenas em nível secundário. Realmente, o comunismo existiu. Até a criação dos novos Estados comunistas, após a II Guerra Mundial, isso não era fácil de prever, e o fato de que todos, na época, concentravam a atenção no poder do Estado, desviava-lhes a atenção dos aspectos ineficientes das autoridades comunistas. As conseqüências disso levariam anos para serem perfeitamente compreendidas.
   
Em 1917, Lenin anunciara: “O Partido existe”. Seus seguidores fora da União Soviética poderiam proclamar agora: “O sistema existe’.     

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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