sábado, 28 de janeiro de 2017

Os crimes políticos na RDA


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Não se pode explicar a violência conspiradora e particularmente agressiva da Stasi como uma simples atividade dos serviços secretos. A violência suplementava a política.
    
Não se pode explicar a violência conspiradora e particularmente agressiva da Stasi como uma simples atividade dos serviços secretos. A violência suplementava a política. Suas principais atividades eram dirigidas, direta ou indiretamente, contra a população do país, contra os dissidentes, ou contra os fugitivos e seus cúmplices.

O mais notável a esse respeito, era a absoluta desproporção dos meios utilizados. O espírito inventivo de que dava provas a Stasi, na escolha dos meios e dos métodos, era inesgotável. Tentava-se identificar os opositores graças a materiais radioativos; eram retiradas amostras do odor das pessoas, recorria-se, incessantemente, a todas as formas de pressão e até mesmo do seqüestro de familiares.
    
A espinha dorsal dessa conspiração era o “exército na sombra” da RDA, os “colaboradores oficiais” que, no decorrer da história do país, chegaram a ser de meio milhão. O recrutamento desses “colaboradores oficiais” já era em si um ato de violência. Grande parte deles, de fato, se deixou ir contra seus compatriotas por convicção. Outros sucumbiram à sedução material e um número considerável deles cedeu a todo o tipo de chantagens.

Foram utilizadas, para isso, situações de infortúnios ou relações de dependência, como foi, por exemplo, o caso dos informantes presos ou os ”colaboradore soficiais” que eram apenas crianças ou adolescentes. A quase totalidade deles sabia exatamente para quem ou contra quem estava trabalhando e, para apreciar corretamente as responsabilidades de cada um, não se deve perder de vista o fato de que inúmeros recusaram a convocação. A Stasi aceitou deliberadamente que fossem infringidas normas éticas fundamentais. Ela própria, conscientemente, organizou esses desvios. Assim, pais denunciavam filhos e pessoas casadas entregavam seus cônjuges.
    
A violência também foi empregada além das fronteiras da RDA. A Stasi mantinha contacto permanente com os terroristas da Fração do Exército Vermelho (RAF) e os ajudava (1). No lado ocidental, grupos de combate comunistas eram constituídos para todos os fins. A Stasi ampliava seu campo de alcance até a “região operacional”, como era denominada a RFA, perseguindo os ex-cidadãos da RDA, principalmente os opositores.

Do mesmo modo como a oposição interior – inclusive a que não implicava mais do que pequenos desvios ideológicos – era definida como uma influência hostil exercida a partir do exterior pelo inimigo, o Departamento de “Espionagem” da Stasi, o HVA, dedicou boa parte de suas atividades ao combate aos “inimigos” internos.

Os “colaboradores oficiais” eram, também, nesse caso, os principais executantes das operações violentas do lado ocidental. Foram utilizados até mesmo criminosos comuns para efetuar assassinatos sob encomenda. Eles eram encarregados de eliminar, mediante atentados a bomba, o uso de veneno ou de armas de fogo, pessoas que se tornassem cúmplices de tentativas de fuga, soldados do exército popular que haviam desertado ou qualquer outra pessoa cuja hostilidade crítica se tornasse indesejável. Ainda que os documentos a esse respeito tenham sido destruídos, em grande parte dos casos já foi possível levar à Justiça alguns dos autores desses atos criminosos, embora poucos. Muito poucos.

Com freqüência, os “colaboradores oficiais” representavam também um papel-chave nas operações de seqüestro na RFA. No total, estima-se que 500 pessoas tenham sido vítimas desses atos. Muitas delas morreram ou passaram longos anos nas prisões da RDA. Ninguém sabe exatamente quantos sucumbiram dessa maneira no país e no exterior, mas não será surpreendente que, por trás dos números das mortes inexplicáveis e, muitas vezes misteriosas, exista uma tendência a ver a mão da Stasi.
    
A violência “silenciosa” do “trabalho de sapa” figura entre os piores métodos e meios utilizados pela Stasi. A partir do fim dos anos 60 ocorreu, na RDA, um processo de retorno à legalidade que, de fato, só aparentemente garantia o direito. O que mantinha a prioridade era uma luta ilegal contra os adversários políticos e essa luta seguia as regras estritas da conspiração. A Diretiva Secreta nº 1/76 acerca da “preparação e da implementação de processos operacionais”, ilustra essa metodologia.

Essa Diretiva era definitivamente um “guia do usuário” que descreve os métodos aperfeiçoados para a destruição da personalidade. Foi aplicada milhares de vezes e, quase sempre, as pessoas encarregadas desse “trabalho de sapa” foram além do que preconizava a Diretiva, tamanha era a energia utilizada para cumprir suas tarefas.

Era a “modernização da tortura”, que pode ser observada em todo o mundo e que, dentro de vários sistemas ditatoriais, possibilitou a passagem da violência física às formas psíquicas, objeto de elaboração científica. O método causa perda de interesse, depressão, angústia, abatimento, pânico, sentimento de inquietude e de isolamento. Para a Stasi, era preciso tirar proveito das falhas morais e de caráter e, quando elas não existiam, tornava-se necessário fazer crer que existiam, espalhando rumores.
    
A Stasi tinha acesso a todos os níveis do aparelho de Estado e, assim, estava apta a coordenar as ações dos “colaboradores oficiais”. Podia, ao mesmo tempo, intervir tanto junto a um benévolo confessor espiritual quanto a um professor conselheiro, a um colega amistoso, a um superior severo, a um vizinho precavido, a um advogado cheio de solicitude, ao melhor amigo, enfim, junto a todos os “colaboradores” que aplicavam, cada um por sua vez, o “plano de sapa”, imaginado e controlado pela Stasi. A utilização sistemática desses meios causou, com muita freqüência, danos bem mais graves do que teria proporcionado um processo judicial regular. Muitos ficaram marcados para toda a vida, passando a necessitar ajuda terapêutica.
    
Nas semanas de tensão que precederam a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, o desenlace era incerto. No final, o Muro foi derrubado pelo povo e os comunistas perderam o poder num movimento pacífico. A exigência de ver a Stasi dissolvida foi uma das motivações centrais da revolução. O próprio movimento possibilitou o início do trabalho necessário para superar o socialismo. Antes de 1989, vários grupos de oposição já haviam iniciado esse processo relativamente ao stalinismo. Esse processo remontava ao trabalho dos comitês de cidadãos e das comissões de investigação, e os representantes dos movimentos cívicos reclamaram uma solução jurídica, a fim de que o trabalho de análise dos documentos pudesse ser feito de forma durável.

Um dos principais resultados dessa influência coletiva foi a criação, pelo Bundestag (Parlamento da RFA), de uma autoridade, nomeando um “responsável federal pelos documentos dos Serviços de Segurança da ex-RDA”. Essa administração, sem precedentes até aquele momento, deu acesso aos dossiês que provam a intolerância praticada contra centenas de milhares de pessoas, e permitiu também a verificação das acusações, sendo que a reabilitação das vítimas e a reparação dos danos sofridos foi iniciada de acordo com os procedimentos legais, embora de forma lenta, encaminhando os processos judiciários referentes aos crimes políticos.
    
Participaram das discussões públicas vários “grupos de iniciativas sociais”, clubes, associações de vítimas, organizações que sucederam os movimentos cívicos, assim como os comitês de cidadãos ainda existentes. As ciências redescobriram a RDA, e milhares de livros descreveram a ascensão e a queda da ditadura. No que diz respeito à contenda dos historiadores, uma coisa é certa: os que não cessam de pedir que seja posto um ponto final fracassaram.

Questões controversas escondem problemas lancinantes. Quem quisesse organizar uma nova fuga da História se chocaria, agora, com a riqueza do material que o comunismo deixou atrás de si. A maioria da geração de culpados ainda vive e se mantém ativa. Quando os filhos e netos dessas pessoas tomarem conhecimento desses registros infames, perguntarão como a atual geração pôde ter tanta dificuldade e ser tão lerda para reabilitar as vítimas e punir os culpados.

É atribuída a um norte-americano a observação: “A administração militar soviética e o Partido Socialista Unificado da Alemanha mudaram a tal ponto a face da Alemanha Oriental, que um retorno ao que era levará bastante tempo” (2).

Notas:

O texto é um resumo das páginas 443 a 511 do capítulo Os Crimes Políticos na RDA, escrito por Ehrhart Neubert, do livro Cortar o Mal pela Raiz! (2) História e Memória do Comunismo na Europa, diversos autores sob a direção de Stéphane Courtois, editora Bertrand do Brasil, 2006.        


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso mostra claramente quem são esses monstros comunistas, eles não tinham nenhuma liberdade, viviam sob tortura contante, queriam a liberdade, morriam por isso...
Na américa latrina os nativos, querem o padrão de vida dos EUA, e votam em comunistas...
construindo um padrão de vida igual ao de cuba, venezuela...
Não é a toa que chamam os universitários de idiotizados, a população de "idiotas úteis", os politícos de ladrões, juízes de traidores e conspiradores...
Apenas um pequeno detalhe nessa história, o povo mencionado no texto, lutaram e morreram bravamente pela liberdade, pela justiça...
Enquanto os nativos da américa latrina, esperam em berço esplêndido, alguém que lute e morra por eles...