sábado, 7 de janeiro de 2017

Projeções para a luta revolucionária na América Latina


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Enquanto as elites acomodadas são indiferentes e a opinião pública em geral é desinformada por uma mídia conivente ou incapaz de concatenar fatos, a extrema esquerda latino-americana se reúne e traça metas, que amanhã poderão se tornar realidade.

O comunismo morreu como sistema, mas os homens que o fizeram funcionar estão vivos. Alguns, muitos vivos, estão no Poder.
    
Na matéria intitulada Poder Militar e Luta contra o Imperialismo na América Latina Contemporânea, publicada em 22 de novembro de 2006, em espanhol, no site de extrema esquerda http://www.rebelion.org/noticia.php?id=41737), Nestor Kohan entrevista um membro não identificado da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), organização chilena de luta armada. Segundo o site de busca Google, Nestor Kohan é um jovem docente e investigador em Filosofía da UBA (Universidade de Buenos Aires).
     Nesse texto, o anônimo entrevistado após referir-se ao surgimento da FPMR em 14 de dezembro de 1983, constituída por militantes do PC Chileno, e à luta contra a ditadura militar, à pergunta de “Quais são hoje as linhas diretrizes e principais do projeto político da FPMR?”, respondeu que “Em termos estratégicos, é um projeto revolucionário, em função de resolver a contradição fundamental que limita o progresso e o desenvolvimento do nosso país, mediante um processo de luta destinado a erradicar o capitalismo e a construir o socialismo no Chile. Um processo com expressão continental que só é possível conceber em meio de uma constante e crescente confrontação entre as forças que defendem os interesses do capital e do império com as de um povo que aspira a sua libertação”.
     Perguntado se a FPMR tem atualmente uma estratégia político-militar, o anônimo militante respondeu que “sobre esse ponto traçamos que a denominada ‘saída revolucionária’ será fruto de uma acumulação de forças de tipo social, ideológica, política e militar, que permita a derrota do governo e Estado opressor. As formas concretas de enfrentamento sejam insurrecionais ou de guerra prolongada, irão sendo delineadas e combinadas na medida em que o conflito se intensifique e, por isso, é necessário estarmos preparados para qualquer variante que a própria dinâmica e o povo escolham. Em definitivo, nossa estratégia efetivamente é de caráter político-militar”(Observação: alguém entendeu alguma coisa?).
     Finalmente, Nestor Kohan aborda um tema realmente importante, perguntando: “Desde a época da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada em Havana em 1967, que agrupou a maioria e o mais avançado das organizações revolucionárias do continente, e os tempos da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR), coordenação internacional de distintos destacamentos revolucionários do Cone Sul, integrada pelo MIR chileno, o PRT-ERP argentino, o ELN boliviano e o MLN Tupamaros do Uruguai, não mais existiu um âmbito comum de estratégias revolucionárias e radicais na América Latina e no Cone Sul. Existe, na atualidade, alguma possibilidade de globalizar concretamente e coordenar as diversas experiências antiimperialistas e anticapitalistas?”
     Resposta do entrevistado: “Recentemente realizamos no Chile um Encontro de Organizações Revolucionárias do Cone Sul, ocasião em que debatemos e trocamos idéias sobre os conteúdos dessa pergunta. Chegamos à conclusão de que nas atuais condições não apenas é possível, mas é necessário e urgente iniciarmos um caminho de coordenação das lutas antiimperialistas. Como assinala a Declaração Final do Encontro, hoje a dominação imperialista é altamente instável em todos os pontos do globo, e como na história de todos os grandes impérios, em seu momento de maior decadência é quando se tornam mais bestiais. A solução militar de toda a política é um claro sintoma de decomposição dos imperialistas. Por isso é que para nós e para as organizações que participaram do Encontro, não apenas por princípio e sim fundamentalmente por estratégia, nós, os revolucionários organizados em nossa Pátria Grande, estamos obrigados a coordenar nossas lutas e construir uma estratégia de derrota continental do imperialismo (...) Consideramos um dever buscar vias de coordenação para materializar a solidariedade com as lutas dos povos em nossa América, intercambiando experiências e lutadores, assim como de defesa e apoio àqueles que enfrentam a prisão política e a perseguição dos Estados e seus aparatos repressivos”.
     Esse Encontro realizado no Chile, mencionado pelo militante da FPMR, foi realizado em Santiago, nos dias 27, 28 e 29 de outubro de 2006, sob a denominação de “Projeções da Luta Revolucionária na América Latina”. Não foi, todavia, a primeira reunião a abordar o tema da necessidade de cooperação e unidade das organizações de luta armada  da Pátria Grande para a luta contra o que eles denominam de inimigo comum: o imperialismo, como veremos a seguir.
     Ao Encontro realizado no Chile, convocado pela FPMR, estiveram presentes representantes das FARC, da organização peruana Tupac Amaru e de grupos indigenistas do Equador, Argentina, Uruguai e Paraguai.
     A Resolução Final do Encontro elogiou as “forças populares que resistem à invasão” no Afeganistão e Iraque, as “heróicas milícias do Hezbollah”, e as repúblicas do Irã e Coréia do Norte, “que continuam com seus planos de desenvolvimento nuclear apesar das ameaças norte-americanas”. Na América Latina, “os ianques tentam derrotar as iniciativas bolivarianas e abortar o despertar dos Povos. Por isso, é que não apenas por princípio, mas por questões de estratégia, os revolucionários organizados em nossa Pátria Grande estão obrigados a coordenar suas lutas e construir uma estratégia de derrota continental do imperialismo”.
     E prossegue a Resolução Final: “Nesse cenário é que as organizações reunidas no Encontro chegaram a um acordo geral para materializar um processo de solidariedade, intercâmbio e cooperação entre os setores revolucionários do Cone Sul do nosso continente (...) O internacionalismo exige fatos concretos, e não apenas declarações, eventos pontuais e atitudes festivas, por isso decidimos iniciar e fortalecer práticas de trabalho conjunto de curto, médio e longo prazo para contribuir ao fortalecimento e desenvolvimento da organização e luta popular no continente”.
     Segundo a Resolução, outros Encontros serão realizados no hemisfério sul do continente, de acordo com as condições locais de cada país e, de acordo com essa dinâmica, outras organizações que compartilhem com o caráter e o conteúdo, poderão ir se somando a esta iniciativa.
   Um detalhe interessante: Nestor Kohan foi um dos chamados intelectuais revolucionários que pronunciaram conferência no Encontro.
      Esse, todavia, não foi o primeiro esforço realizado no sentido de reeditar uma OLAS ou uma JCR na América Latina. Outros já haviam sido realizados, o último dos quais em 22/24 de janeiro de 2005, em Porto Alegre/RS, quando foi realizado um Seminário de Partidos Comunistas, com o 
objetivo de reforçar a cooperação e a unidade contra o neoliberalismo, do qual participaram dirigentes de 16 partidos comunistas da Europa e América Latina, dentre os quais Ricardo Alarcon de Quesada, membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano e presidente da Assembléia Nacional de Cuba.
    
Este foi o 4º Seminário de Partidos Políticos da América Latina e Europa – os anteriores foram realizados em 2002 (Montevidéu, Uruguai), 2003 (Buenos Aires, Argentina) e 2004 (Santiago, Chile).
    
Os trabalhos foram presididos por José Reinaldo de Carvalho, Secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil.
    
Foi considerado que ocorre na América Latina “um processo complexo de formação de mecanismos sub-regionais que objetivamente podem representar um contraponto aos intentos hegemonistas e à política unilateral do imperialismo norte-americano”.
    
No dia do encerramento do Encontro, o Secretário de Relações Internacionais do PT, Paulo Ferreira, fez uma saudação, lembrando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a tarefa de “governar o país numa situação muito complexa, mas buscamos a integração solidária da América Latina, a partir das vocações regionais de cada país. O governo Lula já promoveu avanços importantes neste sentido, buscando a cooperação e o desenvolvimento conjunto de obras de infraestrutura”. O dirigente petista convidou os participantes do Seminário a assistirem o pronunciamento de Lula, dia 27, noFórum Social Mundial.
    
Ricardo Alarcón de Quesada, que chefiou a delegação do PC Cubano, considerou o encontro “muito útil e necessário. Permitiu o intercâmbio de informações da situação de cada país e a análise da situação internacional. Isso abre a possibilidade de buscar posições comuns fundamentais para a luta e reforçar a nossa unidade. Constatamos que há, de uma parte, uma conduta mais opressiva do capitalismo transnacional e do governo que o representa, que são os Estados Unidos, mas de outro lado ocorre o crescimento da resistência popular à política neoliberal. Além das posturas avançadas dos governos brasileiro e venezuelano, há também a formação do novo governo uruguaio (a Secretária-Geral do PC Uruguaio, Marina Arismendi, não pôde comparecer porque iria assumir o Ministério do Desenvolvimento Social, em seu país). Além disso, ocorre um crescimento das lutas populares na Bolívia, Nicarágua, Equador, Chile, Peru etc. O neoliberalismo vem sendo derrotado na América Latina – onde ocorrem eleições, e o vencedor é o candidato que se opõe ou critica o neoliberalismo, nos mais diferentes graus. Nenhum candidato se apresenta ao eleitorado defendendo o FMI ou o Banco Mundial...”.
    
Para o Secretário-Geral do PC da Espanha, Francisco Frutos, o encontro “foi muito positivo, pois nos permite conhecer mais diretamente a realidade de cada país, sem eufemismos e triunfalismos, mas analisando os avanços e retrocessos ocorridos. Possibilita construirmos uma linguagem mais comum sobre os problemas, realizar análises para avançar na construção de alternativas democráticas e trabalharmos com plataformas mais amplas, que envolvam forças e correntes políticas além dos comunistas”. O comunista espanhol considera que “a América Latina é o laboratório mais avançado das lutas sociais e políticas que ocorrem no mundo de políticas mais avançadas, de resistência ao neoliberalismo”.
    
As delegações foram chefiadas pelos seguintes comunistas: PC Argentino, Patrício Echegarray; da Bolívia, Ignacio Pizarro; PCB, Zuleide Faria de Melo; do Chile, Jorge Insunza; PC Colombiano, Jaime Caycedo Turriago; PC Cubano, Ricardo Alarcón de Quesada; do Equador, Gustavo Iturralde Nuñez; da Espanha, Francisco Frutos; PC Francês, Fabienne Pourre; PC da Grécia, Nikos Seretakis; Partido da Refundação Comunista da Itália, Alfio Nicotra; PC do Paraguai, Ananias Maidana; do Peru, Julio Renan Raffo Muñoz; PC Português, Pedro Guerreiro; PC da Venezuela, Oscar Figuera.
    
A delegação do Partido Comunista do Brasil, chefiada por Renato Rabelo, foi integrada por José Reinaldo Carvalho, Pedro de Oliveira, Ana Rocha, Inácio Arruda, Adalberto Frasson, Socorro Gomes e Ronaldo Carmona.
    
Conclusão: Parece que os kamaradas não aprenderam nada com o que aconteceu no mundo nos últimos 30 anos.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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