sábado, 14 de janeiro de 2017

Reforma ou Morte!


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “A Kleptocracia – A Corrupção da União Soviética”, escrito por Patrick Meney, que foi correspondente permanente da Agência France Press em Moscou.
    
A Kleptocracia é uma verdadeira sociedade paralela, sem a qual a vida cotidiana seria intolerável na União Soviética. Uma sociedade em que se combinam a desfaçatez, a artimanha, a trapaça. Onde se encontram os tipos de crimes comuns no Ocidente, como a prostituição e o banditismo, mas, sobretudo, e em grande escala, a especulação, a pilhagem, o desvio de toneladas de mercadorias, o suborno no ensino e na medicina.
    
“O furto é uma das maiores concomitâncias do capitalismo”, proclama a Grande Enciclopédia Soviética.
    
Nessas condições, por que 100 penas capitais são aplicadas todos os anos na URSS, unicamente por crimes econômicos? Após mais de 80 anos de socialismo, a corrupção e o mercado negro estão em franco desenvolvimento. É o que denunciam diariamente o Pravda e milhares de jornais nos quatro cantos do império soviético. Até o próprio Izvestia, órgão do governo, revela que  a Polícia e os juízes manipulam os dados divulgados sobre a delinqüência.
    
Os soviéticos aprenderam a conviver com a penúria e procuram remediá-la submetendo-se às regras do mercado negro e aos rituais da corrupção. Por necessidade ou por interesse. Na maioria das vezes não há alternativa.
    
O livro A KLEPTOCRACIA mostra o dinamismo dessa contra-sociedade edificada diariamente por 280 milhões de cidadãos soviéticos (ou, agora, russos).
    
Essa é a epopéia que pesará sobre o futuro da segunda maior potência do Planeta.
                      
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​Diante do acirramento das contradições, diante da nova crise dos anos 80, a maioria dos dirigentes soviéticos se viu obrigada a uma reflexão mais profunda. Mas a discussão, sem dúvida, não é nova. Já em 9 de setembro de 1962, o Pravda publicava um diagnóstico relativo às doenças do sistema. Em 1965, Kossiguin deslanchava uma reforma econômica cuja ambição era conceder alguma autonomia às empresas. Mas as tentativas foram, ou limitadas ou boicotadas. Basicamente, os fatos não se alteraram.
    
Na discussão em curso atualmente, já levada à praça pública, um sinal: a experiência húngara é freqüentemente citada. E uma admissão: no GOSPLAN calcula-se quais os efeitos do crescimento zero na economia soviética.
    
É evidente que a sucessão de Leonid Brejnev – 18 anios no Poder! – é algo que se decide em torno de opções econômicas. A batalha começou depois da morte de Mikhail Suslov, em janeiro de 1982, um golpe que permitiu a Yuri Andropov garantir a transição.
    
As perguntas que se colocam são de três tipos: por quem, quando e como serão efetuadas as reformas?
    
Andrei Sakharov observou que “é sempre difícil fazer prognósticos em relação a um país tão gigantesco e contraditório quanto a URSS, no qual estão totalmente ausentes os mecanismos necessários à vida de uma sociedade sadia: a expressão da opinião pública”. Daí o perigo de se responder à indagação tríplice. Mais do que a uma conclusão, tenderíamos a constatações ou a hipóteses.
     
Quem? A questão pode apaixonar os kremlinólogos. Seria possível dissertar sobre a doutrina de Andropov, que, depois de Lenin, Stalin, Kruschev e Brejnev, será convocado a deixar sua marca no mundo soviético. Infelizmente esse jogo é, ao mesmo tempo, ilusório e irrisório. Primeiro, porque os kremlinólogos – eles, principalmente -, com freqüência, erraram suas profecias na hora da sucessão. Não esperavam nem Stalin, nem Kruschev e nem Brejnev. No caso deste último, viram apenas um personagem de transição fadado a ceder rapidamente seu lugar a alguma personalidade mais marcante. Depois, porque a situação do país exigia decisões, que o sucessor, seja qual for, terá que tomar.
    
A equipe ainda no Poder (média de idade: 71 anos) omitiu-se e perdeu o bonde das mudanças. Muito mais do que examinar o futuro, limitou-se a administrar o cotidiano. Em 18 anos de poder absoluto, essa gerontocracia não detectou a tempo a petrificação. Apesar do discurso no final do seu reinado, Brejnev, fiador da idéia de segurança, tornou-se um obstáculo à evolução.
    
Daí, podemos ter alguns indícios com relação ao “Quando?” Em virtude da idade o núcleo central da direção soviética desaparecerá nos próximos anos. Será, então, o momento propício para a ascensão de homens liberados dos hábitos e imposições dessa classe ainda marcada pelo stalinismo. Homens mais ligados à realidade, mais receptivos aos conselhos e idéias de especialistas mais bem preparados e, freqüentemente, esclarecidos; abraçando os novos tempos, esses homens poderão ter acesso às alavancas do Poder. Se a ocasião for aproveitada, uma nova etapa do verdadeiro socialismo poderá se abrir.
    
Caso esse rumo seja adotado, o eleito das reformas só seria perceptível a médio ou longo prazo, devido apropria natureza do regime, das tradições, hábitos e mentalidades.
    
Uma mudança radical da forma de pensamento está fora de questão. O mesmo se pode di\er de uma reviravolta no plano econômico. Mas uma mudança de curso, de audaciosas conseqüências, é concebível. Só poderá ser levada a cabo pouco a pouco, através de concessões. Ainda mais, porque é preciso ter sempre presente que o que é espetacular não tem futuro na URSS.
    
A colocação desse princípio é necessária, antes de se passar à última pergunta: “Como?”
    
Como poderá a URSS superar os anos negros? Como evoluirá de hoje até o ano 2000 e além? Como conseguirá vencer os seus atrasos e eliminar a kleptocracia, se é que isso é possível? Como sanear os costumes políticos econômicos, “civilizar-se”, como atender às aspirações mais profundas do homem – liberdade, iniciativa, movimento, pensamento -, mas também às mais elementares – vestir-se, alimentar-se, consumir sem cometer delitos? -. Como?
    
Duas opções se abrem à União Soviética. Por comodidade elas seriam resumidas em duas fórmulas: uma nova NEP ou um comunismo de caserna.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Ronald disse...

A Rússia e os russos são escória do planeta incontestavelmente !
Seria ótimo poder extermina-los todos assim como seus imundos e canalhas simpatizantes.
Russo bom e russo morto !