domingo, 29 de janeiro de 2017

Reminescências – Meu Adeus


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Cada um de nós nasce com o destino já traçado. O destino decidiu ter chegado o momento de ter que abandonar esta Casa que, em julho de 1967, como Segundo Tenente, ajudei a fundar – o Núcleo do Serviço de Informações de Segurança da Aeronáutica, como ela foi, então denominada. -. Através dos anos, o NSISA assumiu outras denominações: SISA (Serviço de Informações de Segurança da Aeronáutica), CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica) e SECINT (Secretaria de Inteligência da Aeronáutica).

Em 1967, os fundadores, um Brigadeiro e um jovem Segundo Tenente, partiram da estaca zero.

Nestes 28 anos que, para mim, passaram rapidamente, participei ativamente de sua estruturação, estive presente em todas as grandes missões, e ajudei a edificar o que ele foi e o que ele é agora: um Órgão de Inteligência, respeitado pelos demais Órgãos da Comunidade e temido pelos inimigos da Pátria.

Tudo o que sei, aprendi aqui, com o estudo e a leitura continuada, a observação constante e, fundamentalmente, com o exemplo dos companheiros que por aqui passaram. Vi, ouvi e falei. Sou testemunha de um período importante da História do Brasil. Um período em que um punhado de companheiros – entre os quais orgulhosamente me incluo – que nada reivindicam, nem mesmo compreensão, tiraram o país da anarquia, ajudaram a erradicar o terrorismo, os seqüestros de diplomatas e de aviões, e as guerrilhas urbana e rural. Tudo isso aconteceu não sem sangue, suor e lágrimas, e não sem que reputações fossem manchadas e carreiras abreviadas.

Não considero, 28 anos depois, saber tudo aquilo a que me dedico. Sinto, todos os dias, a necessidade de atualizar-me. Ao que parece, é essa a saga do homem de Inteligência.

Durante estes 28 anos, diversos Oficiais Generais passaram pela chefia desta Casa. A todos servi com lealdade sem, no entanto, violentar meus princípios. Tive como lema a VERDADE.

Essa VERDADE por algumas vezes trouxe-me problemas, mas assumir riscos é inerente à essência da vida. A vivência e o trabalho continuado me ensinaram uma grande sutileza que um homem de Inteligência deve ter sempre presente: um documento de Inteligência não deve limitar-se a informar, mas a produzir efeitos.

O estudo continuado, a reflexão, a combatividade, a insistência, a leitura e a indagação em busca do que desejamos, é o recado que transmito aos companheiros que aqui ficam.

O estado de quase permanente frustração por não ver transformados em atos e medidas efetivas o resultado de todo esse trabalho anônimo, não deve conduzir à descrença ou ao desânimo. O importante é a paz interior resultante desse trabalho, pois o trabalho é o que de real existe durante todo o tempo.

A VERDADE, transmitida mansa e calmamente, ouvindo a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes (termo aqui empregado para designar as pessoas que não têm conhecimento sobre determinado assunto), pois eles também têm suas verdades. Não devemos comparar-nos com os outros, pois nos tornaremos presunçosos ou magoados, pois sempre haverá alguém superior ou inferior a nós.

O trabalho de um homem de Inteligência é semelhante a um casamento feliz. Não devemos esperar lances extraordinários, como alguns poderão desejar ou imaginar. Tudo é rotina. Foi isso que aprendi na Inteligência da Força Aérea.

No órgão no qual, agora, prestarei meus serviços, espero prosseguir meu aprendizado, aceitando os conselhos dos mais experientes e aberto aos impulsos inovadores dos mais jovens. Nesse Órgão, a todos atenderei com prazer.

Muito obrigado.        

Carlos I. S. Azambuja é Historiador. Rio, julho de 1995.

Um comentário:

Estéfani JOSÉ Agoston disse...

O serviço que é apanágio dos nobres, que Canaris montou, foi resultado de um oficial com larga experiência e vivência militar, inclusive no exterior; de um homem que teve que agir furtivamente e teve sucesso. Os serviços secretos israelenses, também sairam de mãos experimentadas em combate, inclusive serviços furtivos. Os serviços secretos britânicos, também foram produto de experiência de combate em campo, além de continuarem antiga tradição, e da mesma forma o OSS foi estruturado por quem já agia nas sombras, mas aqui no Brasil na FAB, conforme o "kamarada Azamba" informa, saiu de mãos de inexperientes na guerra, sendo parido sem nenhuma tradição que o suportasse, então não se é de estranhar o completo insucesso da NSISA, pois não conseguiram nem mesmo prever a grande merda que aconteceria com o apoio do presidente Geisel e Golbery à assunção de Lulla ao phoder, à grande merda que deu no Brasil, que hoje constatamos; não conseguiram prever o banho de sangue (que continua até hoje) no continente africano, que o apoio de Geisel ao Exército cubano na guerra em África, causou e causa. Mas se sabiam quais resultados decorreriam, então foram e são cúmplices nas desgraças que abateram e abatem o Brasil e os brasileiros