terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Gehlen, o Gênio da Informação

Charles Henry Whiting

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi transcrito do livro “Gehlen, um Genio da Informação”, escrito por Charles Withing. Charles Henry Whiting (18 de dezembro de 1926 - 24 de julho de 2007), foi um escritor e historiador militar britânico e com cerca de 350 livros de ficção e não-ficção em seu próprio nome e uma variedade de pseudônimos: Duncan Harding ,  Ian Harding ,  John Kerrigan ,  Leo Kessler , Klaus Konrad ,  KN Kostov  e Duncan Stirling .
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“Não fique triste se ninguém notar o que você fez de bom. Afinal, o Sol faz um enorme espetáculo ao nascer, e mesmo assim, a maioria de nós continua dormindo” (Charles Chaplin)
                    
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Para o general Gehlen o fim não tardou a chegar. Na manhã do dia 28 de março de 1945,acompanhado de seu Ajudante de Ordens, Major Freytag Von Loringhowen, partiu de seu QG, em Zossen, com destino a Berlim, para encontrar-se com Hitler. Sentado ao lado do velho guerreiro, o Major sabia que o encontro com o Führer iria ser um caso tempestuoso. Guderian prevenira-o: “Hoje vou dizer a ele tudo o que sei!”. Guderian chegara a um ponto de saturação, e nem mesmo o Major fazia uma idéia do quão tempestuoso seria aquele encontro.
    
Um pouco mais tarde, o carro atravessou as ruas destroçadas da massacrada capital, rumo aobunker de Hitler onde, após serem revistados os dois oficiais foram admitidos à presença do Führer. A conferência teria início ao meio-dia.O general Busse iniciou fazendo um relatório sobre como ficara impossibilitado de contra-atacar com sucesso na direção da fortaleza de Kustrin.
    
Hitler começou a mostrar-se aborrecido. “Porque o ataque falhou?”, gritou num rompante. E, sem esperar pela resposta, esbravejou: ”Por causa da incompetência! Por causa da negligência!”. Incapaz de se conter, lançou-se a um ataque indiscriminado contra todo o Estado-Maior. Eram todos uns incompetentes, uns inúteis. O ataque a Kustrin, berrou, foi desfechado sem suficiente preparação de artilharia (como um ex-combatente da Primeira Guerra, Hitler sempre se mostrou muito preocupado com uma forte preparação de artilharia para o êxito de qualquer ataque). Voltando-se para Guderuan, gritou: “Se Busse não dispunha de suficiente munição, como você alega, por que não lhe arranjou mais?”
    
Guderiam, tranqüilamente e cuidando de reprimir seu péssimo temperamento, respondeu: “Já expliquei que...” Jamais concluiu a frase.
    
“Explicações! Desculpas!” interrompeu Hitler. “É isso o que vocês sabem fazer! ”E passou a enumerar as falhas de Busse e de Guderian.
    
De repente, o velho comandante de blindados ficou vermelho. “um absurdo”, explodiu. “Isso é um absurdo!” E com as faces rubras de cólera, disse, aos brados que a culpa não deveria recair sobre Busse. “Eu já lhe disse que ele recebia ordens. Busse usou de toda a munição de que dispunha! Tudo o que tinha!” Em estado frenético procurava palavras para explicar o sentimento de contrariedade e de raiva que desde muito tempo estava engarrafado dentro dele. “Colocar a culpa na tropa... Veja as baixas”, exclamou, “veja as perdas.As tropas cumpriram com o seu dever! O sacrifício a que se submeteram o demonstra!”
    
“Falharam...Falharam”, enfurecido, Hitler rosnou com os seus botões naquele sotaque austríaco tão carregado que mal se tornava inteligível.
    
Agora a sorte estava lançada. Aqueles dois homens haviam ultrapassado o limite de uma discussão sensata. Em volta deles, os demais oficiais estavam petrificados, no mais absoluto silêncio; já haviam presenciado muita coisa naquela sala, mas nada que se comparasse à cena que acabavam de assistir.
    
Hitler atingira com uma bofetada todo o Estado-Maior. E o arraigado ódio que devotava à tradicional casta militar prussiana veio-lhe à tona.  Eram uns “derrotistas; uns ingênuos invertebrados e cabeças-de-bagre”. Durante todo o tempo haviam-no enganado e informado erradamente!
    
Guderian aproveitou um momento em que o Führer refez a respiração, para gritar: “Por acaso o general Gehlen informou-o erradamente nos cálculos que lhe mandou sobre o poderio russo?” Dessa vez, Guderiam pôde responder à própria pergunta: “Não, não o fez”.
    
As bochechas amareladas de Hitler receberam um fluxo de vermelho.
    
“Gehlen é um idiota”, retrucou Hitler. Induzira persistentemente Guderian a acreditar que suas estimativas eram certas, quando na verdade não eram.
    
A situação continuou nesse pé até que o major Loringhoven puxou seu chefe pelas abas da túnica e o afastou de perto do Chefe, como medo de que Hitler ordenasse sua imediata execução.
    
Hitler não o fez, Vinte minutos mais tarde, entretanto, quando ambos os lados já se haviam acalmado um pouco, ele pediu a Guderian que o encontrasse a sós. A segunda entrevista durou apenas uns poucos minutos, e Guderian sabia o que estava para acontecer.
    
“Generaloberst Guderian”, disse Hitler ao homem que tantas glórias dera, outrora, às armas alemãs, “sua saúde física exige que você vá gozar imediatamente uma licença de seis semanas”.
    
Com a voz em trair qualquer espécie de emoção, Guderiam disse simplesmente: “Sim, irei”.
    
Era o fim de tudo.
    
Gehlen sobreviveu à desgraça de seu chefe por exatamente treze dias. No dia 10 de abril de 1945, ele também foi sumariamente demitido de seu posto e colocado numa chamada Reserva de Comando, o que significava que havia sido marginalizado. Foi substituído por Wessel, um tenente-coronel.
    
Mas a novidade não chocou tanto o general Reinhard Gehlen. Ele sabia que a Alemanha – pelo menos a Alemanha de Hitler – perdera a guerra e já estava traçando planos para o futuro. Uma semana antes reunira-se com Bessel e Baum para planejar uma das mais insólitas e audaciosas defecções jamais perpetradas numa profissão onde falsidade, mudança de lado, dupla espionagem, traição e quebra de lealdade figuram na ordem do dia. Mas, em trinta e três séculos de História de espionagem nunca se viu nada igual.
    
Os três homens se reuniram em um hotel de uma cidade balneária da Saxônia, até então aiinda não ameaçada pelo rolo compressor das tropas do general Hodges. Trancados num quarto do Kurhotel – que àquela altura já começava a revelar sinais de seis anos de descuido desde que o último barrigudo e abastado hóspede bebera daquela água amargosa que se dizia boa para mil e um incômodos -, aqueles três tarimbados ases da informação trataram de discutir uma radical troca de lealdades.
    
Gehlen deu início à discussão declarando que ainda acreditava existir um futuro para eles e sua Organização. Embora parecesse que o mundo deles estivesse ruindo aos pedaços. Disse francamente aos seus velhos camaradas que a Alemanha perdera a guerra no campo de batalha. A questão agora era saber como eles se arranjariam com a paz.
    
Esfregado o nariz comprido e fino, e falando lentamente, como de hábito, Gehlen disse que já vinha considerando o assunto há muito tempo. Durante certa época chegou a acreditar que a Alemanha pudesse dar combate aos aliados vitoriosos por meio de uma Organização como a dos Werenwolves. Mas Himmler colocara uma pá de cal sobre a sugestão. E Pruetzmann era uma nulidade total.
    
Agora, entretanto, Gehlen era obrigado a voltar àquela antiga idéia, de dezoito meses de amadurecimento, para ser exato. Inspirara-se em um de seus subordinados, o Major Conde Von Rittberg, um antinazista que era responsável pelo relatório diário sobre a situação do inimigo. Rittberg não sobreviveu para realizar seu plano, pois foi fuzilado pela Gestapo como traidor, mas confidenciara a um de seus amigos, o coronel Schewerdtfeger, que estava considerando a possibilidade de entregar, de alguma forma, todos os documentos do Departamento dos Exércitos Estrangeiros do Leste, aos Aliados da Frente Ocidental, com todo aquele cabedal de informações sobre o Exército Russo, sobre o potencial industrial, etc., de modo que os Aliados pudessem ver o perigo em que incorreriam em ter um parceiro daquela espécie, preparando o terreno para uma paz em separado com eles.  
    
Gehlen umedeceu os lábios e fixou os olhos nos rostos tensos de Baun e de Wessel, antes de continuar. Saberiam eles o que estava para acontecer? Perguntou a si mesmo.
    
Agora, naturalmente, era tarde demais para se pensar em qualquer espécie de paz em separado com ingleses e americanos. Entretanto – e baixou oi tom de voz antes de concluir a frase – não havia motivo para que eles deixassem de passar os documentos para os Aliados na Frente Ocidental!
Antes que os dois oficiais pudessem se refazer do choque daquela revelação, Gehlen apressou-se em explicar que já havia ordenado a fotocópia de todos os seus artigos importantes, e que todos já estavam acondicionados em quarenta cofres de aço, que poderiam ser carregados em caminhões e despachados numa questão de duas horas, se eles tivessem de evacuar às pressas os quartéis-generais – o que era bastante provável.
    
Em breve a guerra estaria terminada. Na ocasião Gehlen previu que ela ainda duraria, no máximo, 4 semanas. Dentro desse período, ele e seus oficiais cuidariam que os documentos fossem transferidos para os aliados da Frente Ocidental.
    
A despeito de sua brilhante inteligência, Reinhard Gehlen apaixonara-se por sua própria propaganda. Acreditava, realmente, que o Ocidente muito cedo entraria em conflito com a União Soviética, e que, cedo, também ingleses e norte-americanos estariam precisando da ajuda para continuar a guerra contra seu antigo aliado. Em breve, todos eles seriam “camaradas”.

Era uma esperança tênue, porém acalentada por muitos alemães que, naqueles dias, se mostravam alheios à propaganda dos Aliados, a partir das imagens da Grande Aliança na qual a Rússia soviética era representada pela figura benigna de um “Tio Zé” fumando cachimbo. Poucos, no campo aliado, enxergavam o monstro que realmente se escondia por trás daquele “Tio Zé” Stalin, e bons anos se passariam antes que os ingleses e norte-americanos chegassem a essa conclusão, no pós-guerra.
    
Mas naquele dia os três homens no acanhado quarto daquele hotel balneário do século XIX, viram poucos problemas para a audaciosa troca de fidelidade que planejavam. Baun quis saber a quem eles ofereceriam seus serviços e documentos – aos ingleses ou aos norte-americanos?
    
O general Gehlen sabia da existência do plano “Eclipse”.um documento britânico altamente secreto que havia sido capturado durante a batalha das Ardenas, em janeiro. Esse plano preconizava que “a única resposta às trombetas da guerra total estava na derrota total e na ocupação total...É evidente que os alemães não estão em condições de negociar no sentido que damos a essa palavra”.

Assinado pelo Chefe do Estado-Maior de Montgomery, o Major-General Sir Francis de Guingand, o plano parecia indicar a Gehlen que os ingleses seriam mais inflexíveis que os norte-americanos. Na verdade, quando ele mostrou-o ao general Henrici, comandante do Grupo de Exército do Vístula, uns poucos dias antes, o velho e bravo soldado resmungou “isto é uma sentença de morte”.
    
Como resultado, Gehlen sugeriu que eles oferecessem seus serviços, antes de tudo, as americanos, que poderiam ser mais flexíveis que os britânicos. Baun e Wessel concordaram, e assim ficou decidido que Baun recuaria sua Unidade para a região da Baviera, sobre a qual avançavam os americanos. Gehlen acompanhá-lo-ia mais tarde.
    
Assim, naquela tarde, os três homens tramaram entregar todo o volumoso Apparat aos norte-americanos. Não apenas ofereceriam os 40 cofres, como também colocariam à disposição deles toda a extensa rede de agentes, que permaneceriam onde estavam, na região a ser ocupada pelos russos. Além disso, ainda existia outra rede em pleno funcionamento nos países eslavos, rede que poderia ser de alguma utilidade, especialmente contando com a ajuda dos recursos americanos.
    
Baun estava disposto a ir mais longe até. Aquele coronel de meia-idade estava pronto a executar um plano aventuresco, o de espalhar depósitos de armamento por toda a Saxônia a ser ocupada um dia pelos russos. Tais depósitos seriam usados por comandos especiais, de 60 homens, que, de fato, se levantariam em armas contra os vermelhos, logo que estes chegassem.
    
Gehlen conteve-o. Sob aquelas circunstâncias, ele fez ver a Baun – de quem ainda não gosta, mesmo após 3 anos de guerra juntos -, que aquilo seria ir longe demais. Naquele momento, o problema prioritário deles era saber com travar contato com os Amis. A seu ver, a primeira reação dos americanos seria agarrar qualquer alemão que capturassem e mandá-lo para um campo de prisioneiros de guerra.
    
Discutiram o problema durante algum tempo. Afinal, concordaram em que se separariam no curso das semanas seguintes, e o primeiro que entrasse em contato com os americanos ofereceria os serviços do Departamento dos Exércitos Estrangeiros do Leste, em nome dos outros. Nesse ínterim, uma vez tivessem que abandonar seus quartéis-generais, eles usariam os serviços de um professor de Teologia, o Dr. Rudolf Gruber, na cidadezinha de Eichstadt, na Baviera,como uma “caixa postal viva”.

O professor seria o intermediário das informações que um transmitiria ao outro, sob as siglas X, W, Y como código,significando respectivamente Baun, Wessel e Gehlen. Com isso a conferência se encerrou. A grande operação - a mais audaciosa nos anais da História – estava em marcha.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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