terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Memórias de Kruschev: as fitas da Glasnost

Nikita Sergeievitch Kruschev

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é a Introdução ao livro “As Fitas da Glasnost – Memórias de Kruschev”, editado pelas Edições Siciliano, cuja Introdução foi escrita por Strobe Talbott. Nelson Strobridge "Strobe" Talbott III (nascido em 25 de abril de 1946) é um analista de política externa norte-americana associado à Universidade de Yale, à Instituição Brookings  e à revista Hora, Serviu como Vice-Secretário de Estado, de 1994 a 2001.
  
“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi, na ânsia de acertar”   (Clarice Lispector, escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira)

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A palavra mais importante que Mikhail Gorbachev introduziu em inglês foi glasnost. Traduzida, em geral, como openness (abertura), a expressão, de fato, significou a disposição da União Soviética de ouvir a verdade a respeito dela mesma. A glasnost tornou possível a publicação de material novo de um dos mais extraordinários arquivos do século XX: as memórias de Nikita Sergeievitch Kruschev. Com os dois volumes, já publicados, as memórias se tornaram o relato mais abrangente, franco e autorizado, do funcionamento da liderança do Kremlin – e um relato recebido de primeira mão, diretamente da fonte. Agora, há mais material da mesma espécie, e muito dele é relevante para as manchetes de hoje sobre a reviravolta no mundo comunista.
    
Foi a 22 anos que Jerrold Schecter, então chefe dos escritórios da revista Time em Moscou ficou sabendo que a mais famosa non person da União Soviética, o antigo Primeiro-Secretário do Comitê Central do PCUS e presidente do Conselho de Ministros. em virtual prisão domiciliar fora de Moscou, vinha ditando recordações de sua carreira. Farto do muro de silêncio que seus sucessores tinham erigido em torno dele, e sentindo que se aproximava o fim de sua vida, Kruschev decidiu permitir que as gravações em fita dessas memórias fossem escamoteadas para o exterior, a fim de serem traduzidas e publicadas no Ocidente.
    
Nos meses e anos que se seguiram, nós, que trabalhamos com o senhor Schecter no projeto, sentimo-nos como personagens de uma grande aventura. Tínhamos a oportunidade de recolher um filão principal de uma das mais ricas e raras matérias-primas da história. Pois ali estava a vida, contada em suas próprias palavras, de um homem que governara uma das duas superpotências por mais de uma década. Como membro do estreito círculo de íntimos de Stalin, ele subira na hierarquia do sistema comunista durante o Grande Terror. Mas, uma vez no topo, declarara guerra ao fantasma de Stalin. Em política externa também, Kruschev representou o pior e o melhor. Conseguiu estabelecer um começo dedétente com Eisenhower, e depois foi à beira da guerra com John F. Kennedy.
    
Nada como essas memórias jamais haviam emergido da União Soviética. Todavia, mesmo quando demos a lume um segundo tomo, Kruschev Remembers: The Last Testamebnt, em 1974, baseado em material adicional, recebido depois da morte de Kruschev, ficamos com a sensação de uma obra inacabada. Em primeiro lugar, indo de casa para o jardim e do jardim para a casa da sua datcha, na aldeia de Petrovo-Dalneye, Kruschev disse repetidamente que estava interessado em dirigir seu monumental exercício de auto-reabilitação aos seus camaradas do Partido Comunista e aos seus concidadãos em geral. A imprensa oficial mencionou seu nome uma vez, seis anos depois de sua derrubada, no contexto de um repúdio fabricado no primeiro volume das memórias; e, de novo, em setembro de 1971, num breve comunicado de sua morte, no qual ele era identificado como “um pensionista especial”.  
    
Durante duas décadas, ou quase, as Memórias de Kruschev permaneceram na espúria categoria desamizdat  - material supostamente subversivo, publicado “lá fora”, no Ocidente, pela imprensa burguesa e capitalista. Nós nos considerávamos, nesse período, depositários de um tesouro que um dia deveria ficar acessível aos compatriotas de Kruschev. Entretanto, desejávamos que ele fosse preservado cuidadosamente e, ao mesmo tempo, pudesse ser objeto de estudo. O Arquivo de Kruschev consiste em 80 rolos e 16 cassetes de fita, bem como de mais de 3 mil páginas de traslados, e tem sido estudado e citado com freqüência por especialistas.
    
Como adquirimos as memórias? Da família e dos amigos de Kruschev. Sabemos que essa resposta não satisfaz ninguém, exceto àqueles que nos comprometemos a proteger. Os jornalistas são, muitas vezes - e os editores algumas vezes –, obrigados a guardar segredo sobre suas fontes, principalmente no que tange material relativo à União Soviética.
    
Quando o primeiro volume foi publicado, em1970, nossas fontes estavam debaixo de grande pressão das autoridades. Por isso nos mantivemos calados, não apenas quanto à procedência das fitas, mas quanto as medidas que tomamos para comprovar sua autenticidade. Uma reputada firma independente de peritos, a Voice Identification Services, de Somerville, Nova Jersey, realizou uma exaustiva análise espectográfica do material. Fizeram-se espectogramas cada vez que havia um corte ou interrupção das fitas – num total de quase 6 mil diferentes espectogramas. Esses foram cuidadosamente comparados com um exemplo de voz de Kruschev – um discurso proferido e gravado em New York durante uma sessão da Assembléia Geral da ONU. Provou-se que se tratava da mesma voz. Todavia, concordamos em não revelar a realização dessas pesquisas e nem as conclusões dos analistas enquanto Kruschev fosse vivo.
    
Em parte por esse motivo, tivemos que ouvir calados as acusações feitas por alguns peritos do Ocidente de termos comprado gato por lebre e publicado um maciço volume de desinformação, oriundo da KGB. Para não falar nas acusações soviéticas de que as memórias haviam sido fabricadas na “cozinha” da CIA.
    
A controvérsia sobre as Memórias de Kruschev cessou em 1974, quando publicamos o segundo volume, póstumo,The Last Testament, e convidamos um grupo de especialistas, inclusive cépticos, a uma conferência na Universidade de Colúmbia, onde tiveram oportunidade de ouvir as fitas originais, examinar as transcrições e estudar o relatório da firma de identificação de vozes.
    
Assim, como nos vimos freqüentemente na posição de saber mais do que nos era permitido dizer, muitas vezes também acreditamos saber mais do que poderíamos dar como certo. Por exemplo, tínhamos motivos para crer que o filho de Kruschev, Sergei, foi uma figura chave na preparação das Memórias, mas nunca tratamos diretamente com ele. Durante o período, hoje conhecido como “era da estagnação”, quando os homens que haviam derrubado seu pai governavam a URSS, Sergei recusou-se a qualquer comentário público e foi compreensivelmente lacônico, mesmo em contatos privados com visitantes estrangeiros.
    
Só o encontrei em junho de 1984, em Moscou. Foi gentil e circunspecto. Disse, porém, que não estava longe o dia em que teria, finalmente, alguma coisa a dizer sobre essa história toda.
    
Esse dia surgiu, com a publicação por Little Brown do livro do próprio Sergei, Kruschev por Kruschev. Ele conta aí muita coisa – embora não conte tudo – sobre como as Memórias foram compostas e como elas chegaram a ser publicadas no Ocidente. Recorda como seu pai ficou furibundo por ter sido relegado ao esquecimento e como gravou sua versão da história como um registro para quem, um dia, quisesse, ou pudesse, ouvir o que ele tinha a dizer.
    
“Na medida em que ditava, rolo após rolo, ele começou a afligir-se sobre o destino que teriam essas memórias. “É tudo em vão”, dizia durante nossas caminhadas dos domingos. “Nossos esforços são baldados. Tudo se perderá. Logo que eu morrer, eles levarão tudo embora e enterrarão o material tão fundo que não haverá traço dele”.
    
Eu procurava tranqüilizar meu pai tão bem quanto podia, mas no fundo estava inclinado a concordar com ele. O fato de que tudo estivesse tranqüilo naquele momento não era garantia de que continuasse tranqüilo para sempre.
    
Eu sonhava com volumes publicados, com bela apresentação...
    
Encontrei o que, a meu juízo, era uma boa maneira de escamotear uma cópia das memórias para o exterior. Acabou sendo muito mais simples do que havia imaginado. Mesmo assim, além do problema físico de tirar as memórias do país, havia uma consideração moral. Já não estávamos em 1958, mas ainda não era 1988.
    
Apenas dez curtos anos antes, Boris Pasternak atraíra sobre sua cabeça raios e trovões, ao dar seu manuscrito – Dr Jivago – a um editor italiano.
    
O Pai foi mais audaz do que eu. Suas memórias, disse, eram, afinal de contas, as do Primeiro-Secretário do Comitê Central, as confissões de alguém que devotara sua vida inteira ao engrandecimento da União Soviética, e por uma sociedade comunista. As Confissões continham verdades, palavras de advertência, fatos – deviam ser lidas pelo povo, quer saíssem primeiro no exterior, e mais tarde em casa. O ideal seria o contrário, mas viveríamos o bastante para vê-las impressas?
    
Ao tomar essa decisão, cruzamos a fronteira entre uma atividade legal e uma outra, ilegal. Eu fiquei preocupado. Como terminaria aquilo? Prisão? Exílio interno? Não havia tempo de pesar as conseqüências. Cumpria agir.
    
Muitos dos que participaram desse esforço estão ainda vivos, e eu não posso revelar pormenores do que foi feito e nem os nomes das pessoas que nos ajudaram. Muitos me pediram que não o fizesse, e não posso, em sã consciência, violar as memórias do Pai”.
     
Em abril de 1988, vi uma entrevista que Sergei dera a um jornal iugoslavo, o Vjesnik, na qual disse: “Acredito que as memórias do meu pai serão publicadas um dia – na URSS – e estou empenhado nisso”. Entrei em contato com ele na minha primeira visita a Moscou e, depois disso, em junho do mesmo ano, e lhe disse que Time Inc. e oHarriman Institute fariam tudo o que estivesse a seu alcance para ajudá-lo. Oferecemos dar-lhe todas as transcrições em nosso poder para suplementar qualquer material que se tivesse reservado. Eles aceitaram e agradeceram.
    
Em 1989 e 1990, longos extratos das Memórias apareceram em diversas revistas acadêmicas e jornais populares na União Soviética. Uma edição especial veio a lume, vertida de volta para o russo do texto em inglês, mas só um pequeno número de membros do governo e funcionários tiveram acesso a ela. A família Kruschev ainda tem esperanças de que vários volumes das memórias, baseados nas fitas originais, sejam dados a público dentro de pouco tempo.
    
Mesmo à espera da edição soviética, tínhamos consciência de que nosso trabalho estava inconcluso. Era evidente, quando se ouviam as fitas cuidadosamente no começo da década de 70, que tinha havido cortes, antes que chegassem às nossas mãos. Kruschev estava contando suas histórias, revivendo o passado com característico entusiasmo e, de chofre, para desespero nosso, havia um silêncio na fita, por vezes de poucos segundos, mas também de vários minutos. Era comum que essas falhas ocorressem em pontos cruciais da narrativa. Em 1973-1974, quando trabalhávamos no segundo volume, Kruschev Remember: The Last Testament, o escândalo Watergate dominava o noticiário internacional. Brincamos, entre nós, que o nosso projeto fora vítima, provavelmente, das mesmas “forças sinistras”a que Alexander Haig atribuíra o famoso hiato de 18 minutos nas fitas da Casa Branca.
    
Em alguns casos era possível deduzir o que Kruschev poderia ter revelado nas porções que faltavam. Por exemplo, ao recordar as crises dos mísseis em Cuba, Kruschev diz: “Quando Castro e eu debatemos o problema, discutimos até não poder mais”. Nesse ponto há uma interrupção e depois a afirmação: “Nossa discussão foi muito acalorada. Mas no fim, Fidel concordou comigo”.Podíamos apenas conjecturar que discutiram sobre quem controlaria os mísseis.
      
Podíamos também compreender o motivo do corte. Castro estava ainda muito firme na sela, e os colaboradores de Kruschev não queriam acrescentar aos riscos já consideráveis que corriam, a revelação do que poderia ser considerado um segredo de Estado sobre as relações da União Soviética com líderes estrangeiros ainda no Poder. Segundo a lei soviética, é crime a divulgação dos debates em reuniões do Politburo. Em diversos lugares, quando Kruschev parecia prestes a criticar seus sucessores, principalmente Leonid Brejnev, a fita se calava. De maneira geral, os comentários sobre lideres comunistas ainda no Poder haviam sido apagados.
    
No seu livro, Sergei confirmou o que tínhamos pensado: “Foram removidas do texto passagens que poderiam segredos militares e referências incidentais a pessoas ainda no Poder na URSS. O Pai concordou com isso”.
    
Também notamos o quão pouco se dia sobre Aleksandr Solzjenitsyn nas fitas que nos tinham sido facilitadas. Afinal de contas, Kruschev tinha sido o responsável pela publicação, na União Soviética, de Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch. Certamente ele teria falado nisso. Todavia, seu pupilo transformado em usurpador, Brejnev, fora responsável pela supressão dos outros livros de Solzjenitsyn e pelo banimento do autor. Era lícito imaginar que algum comentário interessante sobre Solzjenitsyn fora cortado.
    
Quantas passagens dessas haveria? O que, exatamente, fora censurado?  E seria esse material publicado algum dia? Não soubemos as respostas para essas perguntas até 1989, quando adquirimos as fitas com os trechos omitidos intactos. Elas constituíam um conjunto mais volumoso do que esperávamos: mais de 300 horas. Alguns segmentos eram curtos, mas curiosos. Por exemplo: a declaração de Kruschev de que ouvira da boca de Stalin a confirmação de que Julius e Ethel Rosenberg haviam feito contribuição ‘muito significativa” ao projeto da bomba atômica soviética. De maneira geral, porém, o conteúdo revelou-se mais do que simples fragmentos de indiscrição por parte de Kruschev. Eram, em muitos casos, notavelmente coerentes na forma, bem como novos e interessantes na substância. Ali estavam, por exemplo, não apenas a passagem suprimida do relato sobre a crise dos mísseis em Cuba, mas um grande número de histórias ainda inéditas, inclusive a alarmante afirmação de que, em meio à crise, Castro instou com Kruschev para que ordenasse um ataque aos EUA. Ali se encontrava também uma narrativa minuciosa do caso Solzenitsyn. Kruschev se mostra indignado cm a campanha de Brejnev contra o romancista.
    
Outra seção contém muitos detalhes sobre o pacto Molotov-Ribbentrop, de 1959, e seu protocolo “concedendo” os países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia – aos soviéticos. Outro rolo trata das relações da URSS com o Japão no pós-guerra, inclusive a revelação de que alguns líderes do Kremlin  - inclusive o próprio Kruschev – tinham estado dispostos a fazer concessões aos japoneses das quatro ilhas de que a URSS se apossou nos últimos dias da II guerra Mundial.
    
Como sabemos, e como Sergei conta em seu livro, seu pai era um compulsivo narrador de histórias. Aparentemente, muitas das que contou nas fitas pareceram tão delicadas que não foram apenas censuradas, mas retiradas inteiramente do corpo da obra. Era fácil ver por quê. No começo da década de 70, o governo soviético ainda mentia sobre a história de suas relações com países estrangeiros, notadamente o Japão, bem como os países integrantes da URSS, sobretudo os bálticos.
    
Em 1989, muito havia mudado na política soviética – interna e externa. O governo reformista de Mikhail Gorbachev se distanciava do governo ortodoxo de Fidel Castro. O Kremlin estava preparado para denunciar o pacto Molotov-Ribbentrop e a conceder, pelo menos em princípio, o direito de secessão aos três países bálticos. Gorbachev também estava ansioso em melhorar as relações com o Japão, e já se especulava sobre possíveis concessões soviéticas nas ilhas mais setentrionais do arquipélago das Kurilas. Já não era também perigoso para os descendentes de Kruschev que a imprensa estampasse o que ele havia dito: “Se foi um erro mandar tropas para a Checoslováquia, então a coisa lógica e acertada é retirá-las de lá”.
    
O material novo tem muito a ver com os acontecimentos correntes. Além de passagens contra umbackdrop de manchetes sobre a reivindicação de independência pela Lituânia, há aquelas tiradas da deficiência e desequilíbrio da economia soviética que soam como os discursos do próprio Gorbachev no Congresso dos Deputados do Povo e no Soviete Supremo. Está mais claro que nunca que as tentativas feitas por Kruschev de reformar a agricultura e a indústria constituíram um precedente para a perestroika. Seu degelo cultural prenunciava a glasnost, seus cortes, drásticos e polêmicos, nas FF AA, um precedente para as tentativas de Gorbachev de desmilitarizar a sociedade soviética. Quando Kruschev diz que os interesses da União Soviética deveriam ser “defendidos dentro de certos limites, de modo a não prejudicar outros países”, ele antecipa a política de Gorbachev de defesa não-ofensiva e segurança mútua. Não é de admirar que Gorbachev tenha, em diversas ocasiões, prestado homenagens a Kruschev como um inovador e um precursor.
    
Por todos esses motivos ficou logo evidente que tínhamos nas mãos a semente de um novo livro. Quem quer que tenha lido os primeiros dois volumes de Kruschev Remembers, verá em Glasnost Tapes – As Fitas da Glasnost – uma continuação digna deles. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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