domingo, 5 de março de 2017

A esquerda não ressuscitou, pois nunca morreu


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Rodrigo Constantino

Tem um colunista tucano espalhando de forma histérica por aí que a “direita xucra” fez renascer das cinzas o PT e a esquerda radical. Ele trata isso como um “fato inquestionável”, mas não é um fato, e é absolutamente questionável. Não só que a esquerda radical “ressuscitou”, como alegar que a culpa disso é da tal “direita burra”, ao desmoralizar a política como um todo.

Lula como favorito nas pesquisas é um mito criado pela imprensa, que não soube ou não quis analisar direito as pesquisas. Quase 70% dos entrevistados ainda estavam indecisos! Ou seja, Lula é o favorito entre os menos de 30% que decidiram. E, como sabemos, petistas são petistas: casam com o Capeta não importa o que aconteça!

O PT sempre teve esses 20 a 25% do eleitorado, historicamente falando. É a base xiita do partido, os fanáticos da seita, os alienados que poderiam ver Lula esquartejando uma criança em praça pública que continuariam justificando e defendendo seu “guia”. Que raios de favorito é esse que não consegue sair nas ruas, frequentar um restaurante ou um aeroporto, pois sabe que será vaiado e xingado por quase todos? Um favorito que só pode falar para uma claque atraída por mortadela? Ou que junta 400 “intelectuais” para apoiá-lo? Isso até esse colunista conseguiria fazer! (Se bem que se continuar assim não terá nem mais 400 leitores em breve).

O articulista, portanto, usa um artifício desonesto para vender a ideia de que Lula está com tudo, conquistando mais e mais adeptos, com enormes chances de levar 2018, e faz isso pois seu verdadeiro alvo é Jair Bolsonaro, o que fica claro pela quantidade de ataques proferidos. Ele passou a dedicar uns 99% do seu tempo para atacar o deputado e seus seguidores, todos incluídos na tal “direita xucra”. Tudo aquilo que não é PSDB se torna automaticamente “extrema-direita”, exatamente como faz… a extrema-esquerda! E João Doria que se cuide: se tentar se mostrar muito independente e liberal, atropelando os caciques partidários, vai virar alvo do homem também, será “serrado” por sua língua afiada e afetada.

Mas se Lula não está exatamente vivo e ameaçador, há verdade na denúncia de que a esquerda radical ainda representa um perigo. Só que isso não é responsabilidade daqueles que saem às ruas para defender a Lava Jato, como diz o escriba, e sim da continuação da crise econômica. É verdade que Temer tem feito um governo razoável de transição, colocado boas reformas em pauta, ainda que insuficientes. Mas a recuperação leva tempo, e é lógico que a oposição à esquerda se utilizaria disso para gritar: “Eu falei! Foi golpe e nada mudou! A crise é culpa deles! Você estava desempregado quando Lula era presidente?”

Essa mentira era esperada, pois a esquerda radical vive de mentiras e inversões. Mas o sujeito em questão está totalmente errado se pensa que uma defesa cega e incondicional ao governo Temer, apoiado pelos tucanos, faria esse risco desaparecer. Nada mais falso. A esquerda, que nunca morreu, ganha alguma força novamente porque a crise não ajuda nunca a situação, e sim a oposição. Sempre.

Ciro Gomes ou Marina Silva são ameaças reais, justamente por conta disso. Não tem a ver com Bolsonaro e a direita das redes sociais e das ruas. Na verdade, estou seguro de que Ciro prefere enfrentar um tucano da velha guarda em vez de Bolsonaro ou qualquer outro representante da direita. E desconfio de que, no fundo, o radialista saiba disso. Mas está apavorado com essa direita. Com qualquer direita. Não com a volta do PT, mas com a ascensão da direita, ocupando o espaço do seu PSDB querido, que ele pensou estar livre após a queda do PT.

Não me entendam mal: não sou daqueles que jogam o PSDB na mesma vala suja do PT. Tenho implicância com a postura pusilânime dos tucanos quando se trata do PT, e condeno seu modelo socialdemocrata de centro-esquerda. Mas tenho vários textos defendendo que é um erro achar que FHC e Lula são iguais, ou que Aécio Neves faria o mesmo estrago que Dilma fez. Balela!

É claro que prefiro o PSDB ao PT! O PSDB é a esquerda civilizada, democrática, mais moderna, nos moldes europeus ou do Partido Democrata americano. Tem até mesmo um papel importante a cumprir no debate democrático, em minha opinião. Ao contrário do PT, o atraso total, o socialismo tosco, o bolivarianismo. Esquerda herbívora contra carnívora, socialismo “light” contra o “hard core”. Há diferenças sim, e grandes!

Daí a achar que o PSDB é o máximo permitido à direita na política nacional vai uma longa distância. O PSDB tem que ser o extremo à esquerda, enquanto partidos realmente de direita, liberal ou conservadora, deveriam surgir para ocupar esse vácuo, esse espaço vazio de hoje. O colunista de vários empregos não quer isso, não aceita isso. Bate o pezinho e dá chilique se alguém mais à direita do PSDB aparecer em cena.

Ele precisa defender o seu PSDB a todo custo, e não como uma opção legítima de centro-esquerda, mas como a “direita civilizada”, a “única direita”, a “verdadeira direita”. Tudo mais à direita dos tucanos deve ser considerado “extrema-direita”, exatamente como faz a mídia e os partidos radicais de esquerda. Isso é inaceitável e extremamente prejudicial ao liberalismo no país.

A esquerda, portanto, não morreu para ser ressuscitada pela “direita xucra”. Ela sempre esteve aí, em sua versão radical (PT, PSOL, REDE) e sua versão mais light (PSDB, DEM, sendo que ambos tem algumas exceções isoladas mais à direita mesmo). Agora, pela primeira vez, surge uma direita mais conservadora organizada, e isso assusta muito o tucanato. Com razão!

O povo brasileiro quer mudanças para valer, não a volta de uma esquerda mais suave ao poder. Se isso acontecesse, haveria até algum progresso, já que sairíamos de uma base muito baixa, da terra devastada deixada pelo PT, para medidas com bom senso que apontam na direção do liberalismo. Mas é se contentar com muito pouco achar que o PSDB, ainda mais nos seus velhos caciques, é o mais moderno que temos a oferecer, e o mais “direitista”. Isso é piada!


Rodrigo Constantino, Economista, é Presidente do Instituto Liberal.

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