quarta-feira, 1 de março de 2017

A ideologia da nomenklatura é marxista?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Outra análise da obra de Michael S. Voslensky: A Nomenklatura - Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética. Editora Record – 4ª edição, 1980.

Ao contrário do marxismo, o leninismo não é uma teoria, nem mesmo uma hipótese. É uma estratégia e uma tática da tomada do Poder, disfarçadas com palavras de ordem marxistas

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Durante o outono de 1938, quando a onda de prisões e execuções atingia o seu paroxismo, uma nova obra de Stalin, intitulada Do Movimento Dialético e Histórico, foi publicada. Entre a assinatura de duas sentenças de morte, o ditador redigira uma “obra filosófica”.
    
Desde o primeiro parágrafo, o leitor estupefato topa com a seguinte definição: “O materialismo histórico é a concepção do mundo do partido marxista-leninista”. Isso significa afirmar que toda declaração do Partido se transforma, ipso facto, em materialismo histórico, mesmo que ele se afaste das teses expostas por Marx.
    
Essa maneira tão simples de professar sabedorias marxistas, sem recorrer mesmo a Marx, sobrevive ao culto a Stalin. A despeito do XX Congresso do PCUS, os escritos do ditador continuam a figurar na lista das leituras edificantes em matéria de marxismo-leninismo.
    
Marx, em pessoa, afirmou, um dia, brincando, que ele não era marxista. Essa brincadeira se revelou profética. Para a Nomenklatura, o marxismo não é o que disse ou escreveu Marx. É apenas o que o Partido, ou seja, a classe dos nomenklaturistas, afirma em certo momento.
    
A ideologia soviética é marxista ou não é? As idéias divergem consideravelmente quanto à natureza exara do que seja o marxismo. Por seu lado, Marx considerava sua obra uma teoria científica expondo teses perfeitamente definidas. Neste sentido, o marxismo-leninismo, de inspiração stalinista, não é certamente marxismo. A propaganda soviética da classe dos nomenklaturistas, ditada por considerações táticas, nada tem estritamente a ver com uma teoria científica.
    
Mas há outras concepções possíveis do marxismo: poderia ser a integridade do que Marx e Engels escreveram durante suas vidas, de seus cadernos de escola aos seus testamentos, passando pelas anotações e comentários, feitos de próprio punho nas obras que leram. Esse marxismo literal não repousaria sobre o que há de essencial na teoria de Marx, mas sobre citações utilizadas ao capricho das necessidades.
    
A ideologia nomenklaturista não pode nem mesmo reclamar desta definição de marxismo. Se bem que ela faça uso considerável de citações extraídas dos escritos de Marx, e de Engels, e utilize uma terminologia marxista, salvo algumas teses de Marx, que podem servir aos fins de sua propaganda, a Nomenklatura silencia, ao mesmo tempo, sobre uma série de princípios marxistas, e algumas de suas obras foram mesmo oficialmente proibidas, dentre elas A História da Diplomacia do Século XVIII, na qual ele se exprime em termos pouco elogiosos sobre a história da Rússia.
    
O leninismo é mais familiar à classe dos nomenklaturistas do que o marxismo, mas já é uma relíquia de seu passado, já que há muito tempo ele conquistou o Poder. O leninismo só poderia, portanto, ser atual em política exterior, pois a conquista do Poder em outros países figura, com efeito, na ordem do dia da Nomenklatura.O espírito subversivo do leninismo pré-revolucionário, como se adapta mais à situação interna da URSS, a Nomenklatura o eliminou, pois, cuidadosamente da sua ideologia.
    
O princípio marxista da abordagem dos fenômenos sociais desapareceu progressivamente da ideologia soviética, a nova classe dominante se esforçando em dissimular a própria existência de classes dentro da sociedade soviética. Sua nova abordagem é fortemente marcada pelo que Lenin chamava “nacionalismo chauvinista de grande potência”. Esse nacionalismo chauvinista não poderia ser relacionado com um nacionalismo russo.

Se bem que a Nomenklatura goste de qualificar de “russo” tudo aquilo que se refira a ela, elogia, com igual entusiasmo, as virtudes especificamente mongóis, cubanas ou vietnamitas. Internacionalismo socialista? Não, pois as qualidades especificamente chinesas, albanesas ou iugoslavas, não são objeto de uma admiração semelhante. O nacionalismo chauvinista da Nomenklatura não estabelece uma distinção entre russo e não russo, mas entre aqueles que lhe são submissos e os que não o são.
    
A imprensa soviética regurgita de propaganda soviética. O “patriotismo soviético” é celebrado em qualquer ocasião. Para encontrar expressões semelhantes na imprensa ocidental, temos que remontar à Alemanha hitlerista ou à Itália mussolínica. As formas que a propaganda tomou nesses dois países se parecem, a ponto de se confundirem com aquelas confrontadas na União Soviética. A única diferença reside na escolha da terminologia, nazista e fascista de um lado, marxista-leninista de outro.
    
Mas, o componente fundamental da ideologia soviética não é o marxismo, é o nacionalismo chauvinista de grande potência da Nomenklatura. Ele é a expressão da concepção do mundo dos carreiristas que conseguiram içar-se à frente da grande potência que é a União Soviética.
    
Uma constatação se impõe: essa ideologia lhes assegura, não obstante tudo, um certo apoio popular. A vitalidade de seu nacionalismo chauvinista provém de que ele é menos mentiroso do que os elementos marxistas ou leninistas de sua ideologia. Com efeito, se os senhores da Nomenklatura não são, pois, nem marxistas nem leninistas (os verdadeiros leninistas foram liquidados nos porões da NKVD), são, por outro lado, russos na sua maior parte, e acentuando o patriotismo russo conseguem fazer admitir sua política de grande potência ao povo russo, ou seja, despertar um eco favorável junto deste.

Não se pode, pois, subestimar esse fator, pois a Nomenklatura soviética, aliás, lhe deve – e à política de Hitler – a vitória conseguida na Segunda Guerra Mundial. Ela, que a exemplo da nobreza – a classe dominante, na Rússia czarista – tomou o cuidado de se isolar do povo, conseguiu, então, renovar os laços com ele através do subterfúgio dessa ideologia pseudopatriótica.

Os leninistas compreenderam as vantagens que a nobreza tirava dessa manobra, nos anos que precederam a Revolução, por isso,tentaram romper esse laço ideológico entre a nobreza e o povo russo, propagando conceitos de luta de classes e de internacionalismo. Chegando ao Poder, eles próprios recorreram ao nacionalismo chauvinista de grande potência, e aproveitaram para colocar um disfarce nas tensões resultantes de sua dominação de classe da sociedade soviética.
    
Um resumo, à guisa de conclusão: A IDEOLIGIA DA CLASSE DOS NOMENKLATURISTAS NÃO É MARXISTA E NEM MESMO LENINISTA. ELA É, DE FATO, A CRIAÇÃO DA NOBREZA, CLASSE DOMINANTE DA ANTIGA SOCIEDADE FEUDAL RUSSA. TRATA-SE, PORTANTO, DE UM NACIONALISMO CHAUVINISTA DE GRANDE POTÊNCIA, AO QUAL FORAM INTEGRADAS UMA TERMINOLOGIA MARXISTA E AS TESES DE MARX E DE LENIN QUE SERVISSEM AOS INTERESSES DA NOMENKLATURA. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Creio que a oportuna observação do professor Azambuja sobre a verdadeira ideologia da Nomenklatura,que não seria nem marxista,nem leninista,muito menos marxista-leninista,e que estaria utilizando só as partes que achasse "interessantes" do marxismo-leninismo original,descartando,desprezando ou distorcendo as demais,igualmente seria aplicável em relação ao gramscismo,que contaminou o Brasil,e que também usa falsamente o "carimbo" do marxismo-leninismo,investindo prioritariamente no lado "mau caráter",nas deficiências morais que têm as sociedades. Particularmente em relação ao Brasil,imagino que as proposições de Gramsci conseguiram implantar uma espécie "Nomenklatura" mais sórdida que a original,com um enorme contingente de delinquentes políticos infiltrados nos Poderes do Estado ,e que conseguiram algo inédito: explorar igualmente tanto o trabalho,quanto o capital,ou seja,os dois principais polos da produção econômica,femômeno até hoje não
registrado na literatura dos modelos políticos sócio-econômicos. Eu gostaria que o professor explorasse esse tema em futuros escritos.