terça-feira, 7 de março de 2017

“A Utopia Desarmada” – Intrigas, dilemas e promessas da esquerda Latino-Americana


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi pinçado de várias páginas do livro acima, que relata as atividades guerrilheiristas de Manuel Piñero Losada, membro do Comitê Central, e fundador do Departamento América do Partido Comunista Cubano.
    
Manuel Piñeiro Losada (Matanzas , Cuba , 14 de março de 1933 - Havana , 11 de março de 1998), conhecido como Barba Roja, foi uma figura política e militar de Cuba, um personagem principal da Revolução cubana, como  primeiro chefe de Fidel Castro no aparato de segurança, conhecido como Dirección General de Inteligência (DGI). Ao apoiar a luta armada na América Latina, a DGI iria tentar promover a expansão dos radicais esquerdistas dos grupos guerrilheiros no subcontinente.
    
Piñero foi chefe da DGI cubana no período de 1961 a 1964. Em seguida, tornou-se Vice-Ministro do Interior, encarregado do aparelho de segurança do Estado em 1964-1968. As origens prematuras:
    
Piñero participou de protestos estudantis e manifestações contra o 10 de março de 1952 -golpe de Estado -,  que levou ao Poder o ditador Fulgêncio Batista.
    
Em setembro de 1953, sua família, relativamente próspera (ele era o filho de um executivo da Bacardí), enviou-o para estudar Administração de Empresas na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, a fim de levá-lo para longe da agitação política da época, em Cuba. Enquanto estudava em os EUA, ele começou a se opor à discriminação social, racial e política que observou nos Estados Unidos, naquela época, sentindo necessidade de voltar a Cuba .
    
Ele retornou à sua cidade natal em 1955 e tornou-se um dos fundadores do Movimento 26 de Julho. Pouco depois de seu retorno, foi preso pelas agências de segurança de Fulgêncio Batista, por causa de suas atividades políticas subterrâneas. Após sua libertação, continuou com as atividades clandestinas em Havana. 

Ao descobrir que estava sob vigilância policial, ele decidiu que era melhor juntar-se aos guerrilheiros  encabeçados por Fidel Castro, na Sierra Maestra.Em março de 1958, foi reconhecido por seus méritos e foi escolhido pessoalmente por Fidel Castro para ser o oficial encarregado de integrar a recém-criada Frente Oriental II, "Frank País", sob o comando do irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro.
   
Durante esse tempo, ele manteve várias reuniões com membros do exército regular cubano. Posteriormente, foi nomeado Chefe de Pessoal e Inspeção, uma posição que incluía responsabilidades para o Serviço de Inteligência e da recém-criada Policía Rebelde (antecessora da Polícia Revolucionária de Castro).
   
Durante a batalha de Santiago de Cuba, foi promovido a Comandante da Revolução Cubana. Após o triunfo da Revolução, foi nomeado "Chefe da Plaza Militar", em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país.
    
É neste momento que seu rosto é pego por câmeras fotográficas pela primeira vez, mostrando sua barba vermelha e revelando a razão do apelido que lhe foi dado pelas tropas rebeldes.
    
Ele foi, então, transferido para Havana, onde exerceu várias funções na criação das agências de inteligência e Segurança do novo regime de Castro. Durante a tentativa de invasão da praiaGirón por um grupo de norte-americanos, Piñero foi elevado à posição de vice de Ramiro Valdés Menéndez , chefe do G-2 (Seguridad del Estado).
    
Em 6 de junho de 1961, foi nomeado Vice-Ministro do Interior e chefe do chamado Vice-Ministério Técnico, o órgão que seria, mais tarde, responsável pela coleta de informações e desenvolvimento de estratégias para expandir ocomunismo na América Latina.
    
Em 1965, ascendeu ao cargo de membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, cargo que ocupou até 1997.
    
Nesse mesmo ano, em Havana, ele recebeu a visita de Markus Wolf, diretor da polícia secreta - Stasi – da Alemanha Oriental. Wolf, cuja verdadeira identidade só seria conhecida pelos Serviços de Inteligência ocidentais em 1979, tinha ido a Cuba para assessorar o regime comunista de Fidel Castro, e bem como configurar a nova Direção-Geral de Inteligência (DGI), na ilha.
    
No início de 1975, Piñero era chefe do "Departamento América" do Comitê Central do Partido Comunista Cubano.
    
Em 1997, ele renunciou a todas as suas posições governamentais ativas e começou a escrever e editar livros dedicados a uma análise retrospectiva da Revolução Cubana.
    
Em 11 de março de 1998, depois de receber uma homenagem pelos 40 anos da criação da Frente Oriental, ele teve um acidente de carro, ao dirigir-se para sua casa, falecendo.

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Em 1962 ocorreu o primeiro caso que implicava Manuel Piñero Losada em empreendimento revolucionário fora de Cuba: o foco guerrilheiro em Salta-Argentina, dirigido por Ricardo Masseti que, juntamente com Gabriel Garcia Marques, fundara a agência de notícias Prensa Latina, em1960.
    
Apesar de uma série de conflitos - desde os atritos com os soviéticos, e com o velho aparato do Partido Socialista Popular (PSP), passando pelos desentendimentos com Carlos Rafael Rodriguez, em razão do controle das Relações Exteriores, até o choque, no início dos anos 90, com o novo e rapidamente defenestrado herdeiro de Fidel, Carlos Aldana Escalante, Piñero, com sua equipe e seus recursos, saiu ileso e perseverou em sua própria política, pois sabia escutar, aprender e mudar, quando necessário. Ainda assim, sem o enérgico apoio de Fidel, jamais teria sobrevivido, pois seu peso burocrático era insuficiente. Embora tenha sido, desde 1965, membro do Comitê Central do Partido, nunca foi eleito para o Birô Político, não ocupou nenhum cargo ministerial e nem um alto posto militar. O fato de ter sido destituído da chefia do Departamento América, em março de 1992, deveu-se, em grande parte, a que sua missão – promover a revolução – havia chegado ao fim.
    
A força de Piñero era também a sua fraqueza. Na medida em que as atividades políticas e diplomáticas do regime tornavam-se mais óbvias e inevitáveis, o apoio à Revolução foi minguando. Em 1974, quando Cuba fez as pazes com a União Soviética e estava a ponto de fazer o mesmo com muitos partidos comunistas e governos centristas da região, Piñero e seus camaradas foram afastados do Ministério do Interior. Nasceu, então, o Departamento América do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, oue ficou conhecido por várias pessoas, como o “Ministério da Revolução”. A partir de então, o Departamento América foi o lugar de onde Piñero exportou a revolução e colocou seus agentes em embaixadas e órgãos de imprensa. Seus vínculos com a esquerda latino-americana passaram a ser extensos, intensos, estreitos e decisivos.
    
A década de 70 não foi boa para o Departamento América, pois a revolução na América Latina parecia condenada à morte e a normalização dos vínculos diplomáticos entre Cuba e muitos governos da região, impôs à Ilha uma atitude de não interferência nos assuntos internos de outros países. Além disso, após a derrota chilena, em 1973, a esperança de difundir a revolução pelo hemisfério afora foi se desvanecendo. Nesse ínterim, Piñero casou-se com a escritora chilena Marta Harnecker, que se transformou na autora mais vendida da América Latina depois de Gabriel Garcia Marquez.
    
A experiência de Allende foi importante para Piñero, que na época passou uma longa temporada no Chile, e vários de seus auxiliares mais próximos deslocaram-se para lá. Ainda assim, Piñero não foi o responsável pelas operações cubanas no Chile durante aquele período. Tal tarefa coube às Tropas Especiais do Ministério do Interior cubano. Antonio de la Guardia cuidou da segurança de Allende, e seu irmão gêmeo, Patrício de la Guardia, preparou a estada de Fidel Castro no Chile em 1972 e lá permaneceu até a queda de Allende, dirigindo a presença cubana no país. Em 1989, o mesmo Antonio de la Guardia seria fuzilado sob a acusação de tráfico de drogas, e Patrício condenado a uma pena de 30 anos de prisão.
    
Piñero teve pouca coisa a fazer durante aquele período. A revolução latino-americana estava em recesso em quase todas as partes, enquanto Cuba voltava seu entusiasmo insurgente na direção de países africanos.
    
Quando, em 1974, melhoraram as relações entre os cubanos e os partidos comunistas latino-americanos, a militância de Piñero reduziu-se ainda mais, pois não se havia dado bem com os burocratas stalinistas. Porém, seu raio de ação não se restringia à esquerda armada e nem à extrema esquerda. Apesar de suas rivalidades com outros funcionários cubanos e de sua predileção pela esquerda revolucionária, Piñero era, também, o encarregado das relações com s partidos comunistas ortodoxos, com os social-democratas, com os intelectuais e os movimentos de base que compunham a esquerda na América Latina. Seria, portanto, um equívoco, supor que Piñero só se interessava pela luta armada ou, como eram conhecidos seus integrantes na esquerda latino-americana, pelos ”ferreiros”. A raison d’être de Piñero estava nos movimentos guerrilheiros e na luta armada, pois isso é o que ele conhecia e fazia melhor, e nisso residia sua vantagem na competição pelos favores e pelo poder de Castro em Havana.
    
Nisso tudo, havia um elemento subjetivo. Sem as guerrilhas, Piñero ficava fora da jogada (...). A manutenção de um Departamento inteiro, com uma estrutura secreta só para manter relações com o PRD, do México, ou com o Partido Comunista Argentino, era um absurdo. Piñero poderia fazê-lo com dez homens. O Departamento América era uma super organização. “Sem as guerrilhas já seria demais ter um homem para cada país, e na realidade tínhamos um especialista e 5 funcionários para cada Nação”. 
    
Em 1978, Piñero e Cuba desempenharam um triplo papel na vitória sandinista na Nicarágua. Cuba facilitou o contato dos sandinistas com outras organizações revolucionárias e proporcionou aos nicaragüenses serviços de informações e comunicações, além de garantir a segurança pessoal de muitos dirigentes da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Também treinou diretamente parte da liderança sandinista.
    
Cuba enviou armas, através do Panamá e de Libéria –cidade fronteiriça entre Costa Rica e Nicarágua -, pessoal militar capacitado e uma valiosa assessoria para unificar as facções sandinistas.
   
Nessa época, Piñero havia perdido o controle de três aspectos fundamentais da exportação da revolução: não dispunha de tropas armadas sob seu comando; não tinha capacidade operacional nem logística para fornecer armas e equipamentos de comunicação; e toda a documentação era manejada pelo Departamento de Operações Especiais (DOE) cubano. Apesar de tudo, foi mantido na função de treinar politicamente os revolucionários latino-americanos, na Escola Nico Lopez, em Cuba, mas com certeza não era responsável pelo treinamento militar como um todo.
    
Piñero e seu Departamento transformaram-se simplesmente no braço político da ingerência de Cuba no exterior e viram-se obrigados a depender, cada vez mais, de terceiros para implementar as decisões tomadas por ele e pelo próprio Fidel Castro. Isso levou a repetidos atritos de Piñero com o DOE e com outros departamentos a respeito do apoio – ou falta dele – às suas atividades. Em conseqüência disso, tratou de realizar por conta própria tais atividades, ou recorreu aos grupos guerrilheiros latino-americanos para que o fizessem. Diante da resistência cada vez maior do DOE, Piñero passou a investir mais tempo na documentação, logística e “arrecadação de fundos” para adquirir armas.
   
Apesar dessas limitações e obstáculos, a vitória dos sandinistas foi uma espécie de vingança de Piñero, que permaneceu na Nicarágua durante os primeiros meses após a revolução, e conseguiu que um membro do Departamento América fosse nomeado embaixador de Cuba na Nicarágua: Fernando Ravelo Renedo.
    
Piñero, Ramiro Valdez e “Ibrahim” concentravam as decisões políticas estratégicas relacionadas ao apoio cubano, à transferência de armas, ao treinamento e as táticas para a FMLN salvadorenha. Sua verdadeira interferência, sem contar o que os rebeldes salvadorenhos já sabiam, ultrapassa a imaginação de qualquer um. Enquanto havia possibilidade de vitória em El Salvador e algo a ser definido na Nicarágua, Piñero estava garantido. As derrotas –Jamaica, 1980, Guatemala, 1982, Granada, 1983, Nicarágua, 1990 – não foram diretamente atribuídas às estratégias de Piñero. Embora o péssimo trabalho de Inteligência nesses países, seja atribuído a Piñero, ele não sofreu as conseqüências do desmoronamento de seus projetos favoritos.
    
A política e as atividades de Piñero seguiram normas simples e freqüentemente não escritas, e podem ser sintetizadas em três premissas teóricas: armas, unidade e massa, e um princípio tácito: a participação de Cuba. O primeiro pressuposto significava que a luta armada era crucial para a revolução latino-americana. Sem ela, nada seria possível. Num dos poucos textos de Piñero que foram publicados, ele afirma claramente:
    
 “As armas são indispensáveis para fazer triunfar qualquer Revolução libertadora no continente, para preservar  sua continuidade e plena realização”.

Na medida que foram minguando a base do Poder e a organização de Piñero em Cuba, a única fonte de força e de prestígio que lhe restou estava em seus vínculos com a esquerda latino-americana. Desprovido de armas, tropas, dinheiro e atividades de espionagem e contra-espionagem, além daquelas diretamente vinculadas às revoluções latino-americanas, a Piñero só restou seus contatos e seus seguidores no exterior.
    
A segunda premissa teórica era a unidade. Sempre que a unidade prevaleceu, a revolução triunfou. Quando isso não ocorreu – Chile e Granada – ela foi derrotada.
    
São inúmeras as histórias que contam como Piñero escolhia seus favoritos entre as diferentes organizações que constituíam a FMLN de El Salvador, a URNG da Guatemala e os diversos grupos guerrilheiros da Colômbia. No caso de El Salvador, comenta-se que os cubanos sempre favoreceram o Exército Revolucionário del Pueblo devido, em boa parte, ao fascínio de Fidel por Joaquim Vilalobos. Como Piñero queria afetar o curso dos acontecimentos, e podia fazê-lo, - pois a esquerda, afinal de contas, acabava permitindo tal situação – os cubanos tornavam-se parte integrante de muitas organizações armadas e civis, moderadas e extremistas, diretamente políticas e “parapolíticas”, jornais, imprensa, grupos estudantis e acadêmicos.
    
Na fase crítica da Revolução Cubana, após a derrocada do bloco socialista e o fim da União Soviética, em pleno isolamento total da Ilha e concomitantemente ao abandono gradual da luta armada na América Latina, era natural que o papel de Piñero fosse diminuindo. O lendário conspirador ficou reduzido a usar sua influência e seus agentes para reforçar o apoio a Cuba na América Latina. Seus agentes, e às vezes até sua esposa, conspiraram em todas as reuniões da esquerda latino-americana – o Foro de São Paulo, o Congresso de Sociólogos  Latino-Americanos  e Caribenhos. Posteriormente, o Departamento de Piñero foi absorvido formalmente pela Secretaria Internacional do PC cubano, e seus enviados ao exterior perderam a cobertura do Ministério das Relações exteriores. Piñero foi afastado do Departamento, conservando apenas seu cargo no Comitê Central.
    
Mas Piñero deixou intacta uma organização destrambelhada que continuou atuando na América Latina. Segundo Jorge Masetti, e outras fontes o confirmam, quando deixou de receber dinheiro suficiente para armar e apoiar a esquerda revolucionária, e, portanto, para manter sua posição em Cuba, Piñero recorreu a outras medidas e às próprias organizações revolucionárias. pedindo-lhes que falsificassem documentos, recebessem e enviassem mensagens e, logicamente, arrecadassem fundos para a compra de armas. Os funcionários do Departamento América selecionavam indivíduos pertencentes às várias organizações – sobretudo chilenas, uruguaias e argentinas, mas também centro-americanas – e lhes sugeriam que realizassem seqüestros, assaltos a bancos e a outras operações similares, nos países mais ricos da região.
    
O Departamento América planejava as operações, transferia as armas ao país em questão por mala diplomática, e enviava o dinheiro a Cuba pela mesma via. Masetti, que permaneceu na cidade do México como funcionário de nível médio do Departamento América, de 1980 até ser expulso do país, em 1983, é categórico a respeito de suas próprias experiências. As armas chegavam ao México de avião, realizavam-se os assaltos a bancos, seqüestros e outros delitos, e o produto era entregue à custódia do Departamento América.

Depois, este distribuía o dinheiro aos movimentos revolucionários a fim de que conseguissem armas. Foi assim que o pessoal de Piñero conseguiu tornar-se independente em ralação ao Tesouro cubano, ao DOE e a outros órgãos estatais. Poder-se-ia falar de autofinanciamento e autogestão. É factível supor que foram operações do Departamento América uma série de roubos na cidade do México, e vários seqüestros de empresários no México e no Brasil,como o de Abílio Diniz, dono do Supermercado Pão de Açucar, realizado em 1989, na época atribuído a revolucionários do Cone Sul, que atuavam em causa própria.
    
Em certo sentido, esses procedimentos não foram diferentes dos adotados pelas Tropas Especiais do Ministério do Interior, da CIMEX ou do Departamento MC, aparatos de importação e exportação criados por Antonio de la Guardia, e que acabaram envolvidos no narcotráfico.
      
A Revolução cubana marcou a esquerda latino-americana com outro acontecimento. Tratava-se de “uma revolução na revolução”. Pela primeira vez na história da região tiveram lugar, ao mesmo tempo, três processos: um regime revolucionário; em segundo lugar, a partir de 1961, o regime abraçou abertamente o marxismo-leninismo, aderindo ideologicamente ao bloco soviético e designando-se a si mesmo como principal inimigo dos EUA. Por fim, em terceiro lugar, a Revolução Cubana nasceu com uma ambição latino-americana e proclamou exaustivamente a sua intenção de atiçar o fogo da revolução em todo o continente, revolução que durou até à derrota eleitoral dos sandinistas, três décadas depois.
    
Depois da queda dos sandinistas e do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, a revolução desapareceu do léxico da esquerda. Em nenhum país sul-americano a esquerda local deixou de ser influenciada por Cuba. A esquerda, como um todo – partidos comunistas, intelectuais, dirigentes sindicais e ex-caudilhos populistas –, converteu-se à linha cubana ou dividiu-se entre pró-cubanos e o resto: ortodoxos, comunistas pró-soviéticos, defensores de governos locais e partidários da noção de uma aliança com a “burguesia nacional”.
    
Fidel Castro e os cubanos não inventaram a luta armada na América Latina e no Caribe, mas os cubanos redefiniram uma tradição e converteram-na em política de Estado e de Partido.
    
Alegou-se, na época, que a descontinuidade entre a Revolução Cubana e a teoria e prática dos partidos comunistas tradicionais da América Latina, foi amenizada por uma afinidade leninista fundamental: o entendimento do socialismo como “ditadura do proletariado” e do predomínio de um partido único, a expropriação total dos meios de produção e as aspirações de homogeneidade social.
    
Recorde-se que os principais grupos de guerrilheiros urbanos, foram os de Carlos Marighela, no Brasil, sobretudo pela redação e distribuição do Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano, os movimentos na Argentina e, sobretudo, o Movimento Tupamaros, no Uruguai.      
    
Finalmente, a esperança de uma revolução continental desvaneceu-se. A União Soviética passou a exigir mais ordem e disciplina para ajudar Cuba e, diante de sua crescente dependência de Moscou, Cuba viu-se obrigada a pôr fim a seus atritos com os soviéticos, tanto em matéria de política econômica como em assuntos internacionais. Diante dessa reviravolta dos acontecimentos, Cuba também passou a estreitar laços com muitos governos latino-americanos, mas recorde-se que Fidel Castro, que começou a apoiar a revolução latino-americana logo que chegou ao Poder, nunca deixou de fazê-lo, porém a era do foco guerrilheiro finalmente chegou ao fim.
    
Cuba não fez a revolução na América Latina, e sempre que tentou forçar as coisas ela fracassou...

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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