terça-feira, 28 de março de 2017

Ernesto Che Guevara – Mensagem à Tricontinental


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O documento que segue, redigido por Che Guevara nas montanhas bolivianas, no inicio de 1967, desenvolve, em forma de carta, ao Secretariado Executivo da Organização de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL), criada pela Conferência Tricontinental de 1966, seu conceito da Revolução Mundial e do internacionalismo proletário. A influência desse documento foi enorme e ultrapassou amplamente os limites da América Latina.

O trecho abaixo apresentado insiste simultaneamente no caráter socialista da Revolução e na inevitabilidade da luta armada. Foi utilizado, como texto programático, tanto pela corrente castrista, como pelo trotskismo latino-americano. 

”Enquanto você sonha, você está fazendo o rascunho do seu futuro” *Charles Chaplin)
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O campo fundamental da exploração do imperialismo abrange os três Continentes atrasados: América, Ásia e África. Cada país tem características próprias, porém os Continentes, em seu conjunto, também as apresentam.
    
A América constitui um conjunto mais ou menos homogêneo e, praticamente em todo o seu território, os capitais monopolistas norte-americanos mantêm uma primazia absoluta. Os governos títeres ou, no melhor dos casos, fracos e medrosos, não podem se opor às ordens do patrão ianque. Os norte-americanos chegaram quase ao ponto máximo de sua dominação política e econômica, poderão avançar muito pouco.

Qualquer mudança da situação poderia se transformar em um retrocesso de sua primazia. Sua política é a de manter o que foi conquistado. A linha de ação se reduz, no momento atual, ao uso brutal da força para impedir movimentos de libertação, de qualquer tipo que eles sejam.
    
Com o slogan “não permitiremos outra Cuba”, encobre-se a possibilidade de agressões abertas, como a projetada contra s. Domingos ou, anteriormente, o massacre do Panamá e a clara advertência de que as tropas ianques estão dispostas a intervir em qualquer lugar da América em que a ordem estabelecida seja alterada, colocando seus interesses em risco.
    
Essa política conta com uma impunidade quase absoluta. A OEA é uma máscara cômoda, por mais desprestigiada que esteja. A ONU é de uma ineficiência que beira o ridículo ou o trágico. Os exércitos de todos os países da America estão prontos para intervir, para esmagar seus povos. Formou-se, de fato, a Internacional do crime e da traição.  
    
Por outro lado, as burguesias autóctones perderam toda a sua capacidade de oposição ao imperialismo – se é que alguma vez a tiveram – e agora são apenas seu reboque. Não há mudanças a fazer, ou revolução socialista ou caricatura de revolução (...).
    
Na America Latina luta-se com armas na mão na Guatemala, na Colômbia, na Venezuela e na Bolívia, enquanto surgem os primeiros sinais no Brasil. Há outros focos de resistência que aparecem e se extinguem. Mas quase todos os países do continente estão maduros para ma luta desse tipo que, para triunfar, não pode se conformar com menos do que a instauração de um modelo de estilo socialista. 
    
Nesse continente fala-se praticamente uma língua, salvo o caso excepcional do Brasil, com cujo povo de língua espanhola pode se entender, dada a semelhança entre ambos os idiomas. Existe uma identidade tão grande entre as classes destes países, que elas obtêm uma identificação de tipo “internacional americano”, muito mais completa de que em outros continentes. Língua, costumes, religião, amo comum as unem. Os graus e as formas de exploração são semelhantes em seus efeitos para exploradores e explorados de grande parte dos países de nossa America. E a rebelião esta amadurecendo aceleradamente nela.   
    
Podemos nos perguntar: como frutificará essa rebelião? De que tipo será? Sustentamos há algum tempo que, dadas as suas características similares, a luta na América adquirirá, em seu momento, dimensões continentais. Será cenário de muitas grandes batalhas, realizadas pela humanidade, pela sua libertação.
    
No contexto dessa lua de alcance continental, as que atualmente se sustentam de forma ativa não passam de episódios, porém já deram os primeiros mártires, que figurarão na história americana como entregando sua côa de sangue, necessário nesta última etapa de luta pela liberdade plena do homem. Nela figurarão os nomes do comandante Turcios Lima, do sacerdote Camilo Torres, dos comandantes Fabricio Ojeda, Lobatón e Luis de La Puente Uceda, figuras maiores nos movimentos da Guatemala, Colômbia, Venezuela e Peru.
    
Mas a mobilização ativa do povo cria seus novos dirigentes: Cesar Montes e Yon Sosa levantam a bandeira na Guatemala, Douglas Bravo no ocidente do país, e América Martin em El Bachiller, dirigem suas respectivas frentes na Venezuela.   
    
Novos surtos de guerra surgirão nestes e em outros países americanos, como já ocorreu na Bolívia, e irão crescendo, com todas as vicissitudes que entranham este perigoso ofício de revolucionário moderno. Muitos morrerão, vítimas de seus erros, outros cairão no duro combate que se aproxima, novos lutadores e novos dirigentes surgirão no calor da luta revolucionária. O povo irá formando seus combatentes e seus condutores no contexto seletivo da própria guerra, e os agentes ianques de repressão aumentarão.

Hoje há assessores em todos os países em que a luta armada sem mantém, e o exército peruano realizou, recentemente, um ataque bem sucedido contra os revolucionários, naquele pais, também assessorado e treinado pelos ianques. Mas se os focos de guerra forem dirigidos com eficiente destreza política e militar, tornar-se-ão praticamente imbatíveis e exigirão novos envios de tropas. No próprio Peru, com tenacidade e firmeza, novas figuras ainda não completamente conhecidas, reorganizam a luta guerrilheira. Pouco a pouco, as armas obsoletas, que bastam para a repressão dos pequenos grupos armados, irão se transformando em armas modernas, e os grupos de assessores em combatentes norte-americanos, até que, em determinado momento, eles sejam obrigados a enviar crescentes quantidades regulares para garantir a relativa estabilidade de um Poder, cujo Exército nacional títere, desintegra-se ante os combates da guerrilha. É o caminho do Vietnã, é o caminho que os povos devem seguir, é o caminho que a América seguirá, com a característica especial de que os grupos em armas poderiam formar uma espécie de Junta de Coordenação, para tornar mais difícil a tarefa repressiva do imperialismo ianque e facilitar a própria causa.
    
A América, continente esquecido pelas últimas lutas políticas de libertação, que começa a se fazer ouvir por intermédio da Tricontinental, por meio da voz da vanguarda de seus povos, que é a Revolução cubana, terá uma tarefa de muito maior relevância: a criação do segundo ou terceiro Vietnã, ou do segundo ou terceiro Vietnã do mundo.
    
Definitivamente, deve-se levar em conta que o imperialismo é um sistema mundial, última etapa do capitalismo, e que é preciso batê-lo em um grande confronto mundial. A finalidade estratégica dessa luta deve ser a destruição do capitalismo. A participação que compete a nós, os explorados e atrasados do mundo,é a de eliminar as bases de sustentação do imperialismo: nossos povos oprimidos, de onde extraem capitais, matérias-primas, técnicos e operários baratos, e para onde exportam novos capitais – instrumentos de dominação -, armas e todo o tipo de artigos, levando-nos a uma dependência absoluta.
    
O elemento fundamental dessa finalidade estratégica será, portanto, a libertação real dos povos, libertação que ocorrerá pela luta armada, na maioria dos casos, e que terá, na América, quase inexoravelmente, a propriedade de se transformar em uma revolução Socialista.
    
Ao focar a destruição do imperialismo, deve-se identificar seu líder, que não é outro senão os EE UU.
    
Devemos realizar uma tarefa de tipo geral,cuja finalidade tática seja tirar o inimigo de seu ambiente, obrigando-o a lutar em lugares onde seus hábitos de vida se choquem com a realidade imperante. Não se deve desprezar o adversário. O soldado norte-americano tem capacidade técnica e está respaldado por recursos de tal magnitude que o tornam temível. Falta-lhe, essencialmente, a motivação ideológica que têm, em sumo grau, seus ferozes rivais de hoje: os soldados vietnamitas. Só poderemos triunfar sobre esse exército na medida em que conseguirmos minar seu moral. E este mina-se infligindo-lhe derrotas e causando-lhe contínuos sofrimentos.
    
Mas este pequeno esquema de vitórias contém sacrifícios imensos dos povos, sacrifícios que devem ser exigidos a partir de hoje, à luz do dia, e que talvez sejam menos dolorosos que os que deveriam suportar se evitássemos constantemente o combate, a fim de que outros tirem as castanhas do fogo para nós.
    
Claro que o último país a se libertar provavelmente o fará sem luta armada e seu povo será poupado dos sofrimentos de uma guerra longa e tão cruel como a que fazem os imperialistas. Mas talvez seja impossível evitar essa luta ou seus efeitos, em uma contenda de caráter mundial, e se sofra tanto ou ainda mais. Não podemos prever o futuro, mas jamais devemos ceder à tentação claudicante de sermos os líderes de um povo que anseia por sua liberdade, porém renega a luta que esta implica e a espera como migalhas de vitória.
    
É absolutamente justo evitar todo sacrifício inútil. Por isso é tão importante o esclarecimento das possibilidades que a América dependente tem de se libertar de forma pacífica. Para nós está clara a solução desta interrogação: o momento atual poderá ou não ser o indicado para o início da luta, mas não podemos nos iludir de forma alguma, nem temos o direito de fazê-lo, de conquistar a liberdade sem combater.

E os combates não serão meras lutas de rua, com pedras contra gases lacrimogêneos, nem de greves gerais pacíficas, nem será a luta de um povo enfurecido que destrua, em dois ou três dias, os alicerces repressivos das oligarquias governantes. Será uma luta longa, cruenta, cuja frente estará nos refúgios guerrilheiros, nas cidades, nas casas dos combatentes – onde a repressão irá buscar vítimas fáceis entre seus familiares -, na população camponesa massacrada, nas aldeias ou cidades destruídas pelo bombardeio inimigo.
    
Empurram-nos para essa luta, não há mais remédio que prepará-la e decidir-se a empreendê-la.  
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O texto acima foi transcrito do livro “O Marxismo na América Latina – Uma Antologia de 1909 aos Dias Atuais”, escrito por Michael Lövy.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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