domingo, 26 de março de 2017

Fidel Castro – De Marti a Marx


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo, altamente científico, foi transcrito do livro “O Marxismo na América Latina – Uma Antologia de 1909 aos Dias Atuais”, escrito por Michael Lövy.

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O discurso de Fidel Castro, em 2 de dezembro de 1961, é um documento crucial da Revolução Cubana: foi a primeira vez que Fidel se vale explicitamente do marxismo e explica o seu itinerário ideológico do antiimperialismo radical a Marx e Lenin. Também esclarece por que e como a Revolução Cubana experimentou um processo de ‘”transcrescimento” rumo ao socialismo. Encontram-se nesse discurso algumas das principais características da interpretação castrista do marxismo: percepção do cargo político em termos da alternativa imperialismo ou socialismo. Eis um resumo desse discurso:
    
É claro que não estou falando aqui para os revolucionários. É possível que, para os revolucionários, não seja mais necessário falar isso. É preciso falar, inclusive, aos insensíveis, aos indiferentes, aos confusos, aos que não entendem por que isso e por que aquilo. 
    
E toda essa gente teria morrido para que os latifundiários continuassem sendo donos de milhares de caballerias de terras? Não, qualquer um compreende que não. Qualquer um compreende que os dirigentes da Revolução teriam sido traidores se tivessem feito uma Revolução, se tivessem levado tanto jovens ao combate e à luta, se tantas vidas tivessem sido sacrificadas para isso. Para tão pouca glória não valeria a pena que nenhum cubano tivesse morrido. Para tão pouca glória não teria valido a pena levantar uma arma! Esgrimir uma arma, combater, sofrer o que sofreu nosso país, tinha que ser por algo, muito mais que tudo isso.
    
E alguns pretendiam que os homens morressem precisamente para continuar esse sistema de exploração, para que mil famílias continuassem vivendo como príncipes em nossas capitais e em nossas cidades, para que continuasse existindo aquele regime de exploração, de fome, de miséria, de discriminação, de abusos. Alguns pretendiam isso. E, aparentemente, acreditaram que a Revolução poderia ser isso. Houve alguns que, na última hora, até compraram alguns bônus e fizeram algumas coisas para isso. Como estavam errados! Como estavam errados ao acreditar que certas conquistas do nosso pais, que já foram tratadas inclusive desde a Guerra de 1895, ficariam truncadas e as coisas continuariam como eram!
    
É claro que essa política honesta, essa política revolucionária, essa política que caminha junto com a História, junto com os sentimentos e interesses dos povos subdesenvolvidos e explorados de todo o mundo, que caminha junto com os interesses e a honra nacional, não é uma política fácil. Tinha de ser, necessariamente, uma política de sacrifícios. Porque, se queríamos redimir nosso povo da incultura, do desemprego, da fome e da miséria, desenvolver nossa economia, ter uma economia própria, uma economia independente.

E, junto com uma economia independente, uma política independente, que acabasse com o desemprego, com a incultura, com a miséria, com o atraso, com a pobreza, com a ignorância, com a doença e com a situação de infelicidade em que vivia a maior parte do nosso povo, tínhamos de fazer uma política revolucionária coerente. Fazer isso, implicava em enfrentar o imperialismo com todas as forças. E isso é o que estamos fazendo.
    
Claro que os dirigentes da revolução somos revolucionários. Se não fôssemos revolucionários não estaríamos, simplesmente, fazendo uma Revolução. Quero dizer com isso que os revolucionários e os povos, juntos com os revolucionários - isto é, a grande massa explorada do povo -, estão dispostos a pagar o sacrifício que for necessário, e o preço que for necessário por tudo isso.    
    
Poderão dizer a um acomodado, a um indiferente, a um insensível, a um corrupto, que o melhor é não arranjar problemas, que o melhor e respeitar todos esses interesses, simplesmente. Poderiam dizer isso a eles.
    
Tínhamos de optar entre permanecer sob o domínio, a exploração e a insolência socialista, continuar suportando aqui os embaixadores ianques dando ordens, continuar mantendo nosso país no estado de miséria em que estava, ou fazer uma revolução antiimperialista, fazer uma revolução socialista.
    
Nisso não havia alternativa. Nós escolhemos o único caminho honrado, o único caminho leal que podíamos seguir com nossa Pátria, e de acordo com a tradição dos nossos mambieses (insurretos de cuba que se rebelaram contra dominação espanhola), de acordo com a tradição de todos os que lutaram pelo bem do nosso país. Esse éo caminho que seguimos: o caminho da luta antiimperialista, o caminho da revolução socialista. Porque, por outro lado, não cabia qualquer outra posição. Qualquer outra posição seria uma posição falsa, uma posição absurda. E nós nunca adotaremos essa posição, nós jamais vacilaremos. Jamais!
    
O imperialismo deve saber – para sempre – que jamais terá nada a ver conosco, e o imperialismo tem de saber que, por maiores que sejam nossas dificuldades, por dura que seja a nossa luta para construir nosso país, para construir o futuro do nosso país, para fazer uma história digna de nosso país, o imperialismo não deve ter a menor esperança a nosso respeito.
    
Muitos que não compreendiam essas coisas, hoje as compreendem. E as compreenderão cada vez mais. Para todos nós essas coisas são cada vez mais claras, mais evidentes, mais indiscutíveis.
    
Esse era o caminho que a Revolução tinha que seguir: o caminho da luta antiimperialista e o caminho do socialismo. Ou seja, a nacionalização de todas as grandes indústrias, dos grandes comércios. A nacionalização e a propriedade social dos meios fundamentais da produção e o desenvolvimento planejado da nossa economia todo o ritmo que permitirem os nossos recursos, e nos permitir a ajuda que estamos recebendo do exterior. Isso foi outra coisa realmente favorável à nossa Revolução, o fato de contarmos com a ajuda e solidariedade que nos permitem, sem os enormes sacrifícios que outros povos tiveram de fazer, continuar com a nossa Revolução.
    
Era preciso fazer a Revolução Antiimperialista e Socialista. A Revolução Antiimperialista e Socialista tinha que ser só uma, uma verdadeira Revolução, porque existe apenas uma Revolução. Essa é a grande verdade dialética da humanidade: o imperialismo, e diante do imperialismo, o socialismo. Resultado disso: o triunfo do socialismo, a superação da época do socialismo, superação da etapa do capitalismo e do imperialismo, o estabelecimento da era do socialismo, e depois a era do comunismo.
    
Que ninguém se assuste, não haverá comunismo – se é que ainda há algum anticomunista por aí - até, pelo menos, dentro de 30 anos.
    
Assim, até mesmo para que nossos inimigos aprendam a compreender como é o marxismo, em duas palavras, e que, simplesmente, não se pode saltar por cima de uma etapa histórica. Talvez a etapa histórica que alguns países subdesenvolvidos possam saltar hoje, e a edificação do capitalismo. Isso é, podem iniciar o desenvolvimentismo da economia de um país pelo caminho do planejamento e pelo caminho do socialismo; o que não pode ser saltado é o socialismo. E apropria União soviética, depois de 40 anos, começa a edificação do comunismo e espera ter avançado consideravelmente nesse terreno.  Por isso, estamos na etapa da construção do socialismo.
    
E o socialismo. Qual é o socialismo que devemos aplicar? O socialismo utópico? Tínhamos, simplesmente, que aplicar o socialismo científico. Por isso, comecei dizendo, com toda a franqueza, que acreditávamos no marxismo, que acreditávamos que é a teoria mais correta, mais científica, a única teoria verdadeira, a única teoria revolucionária verdadeira. Digo isso aqui com total satisfação e com total confiança: sou marxista-leninista e serei marxista-leninista até o último dia da minha vida.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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