sexta-feira, 17 de março de 2017

Nomenklatura – A Conclusão do Livro


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é a conclusão do livro “A Nomenklatura – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”. O autor, MICHAEL S. VOSLENSKY, nasceu em 1920, na União Soviética. Foi tradutor no processo de Nuremberg e no Conselho de Controle Aliado da Alemanha.

A partir de 1950 trabalhou em Moscou, em contato estreito com o aparelho do Comitê Central do Partido, tendo sido enviado a Praga, depois a Viena, para o Conselho Mundial da Paz. De volta a Moscou, assumiu responsabilidades diversas na Academia de Ciências. Professor de História na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou, e membro do Conselho da Academia de Ciências Sociais, junto ao Comitê Central.

MICHAEL VOSLENSKY é considerado, no Ocidente, um dos mais eminentes especialistas em política soviética.

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Vocês o sabem agora. O programa do Partido Comunista da União Soviética prometia que, antes de 1980, uma sociedade comunista sem classes teria sido edificada para o essencial. Desde 1936 a sociedade soviética é definida como uma sociedade “sem antagonismos”. Ora, hoje, muito após 1980, não se pode dizer que as classes e os antagonismos de classes tenham sido suprimidos: a sociedade soviética continua antagonista.
    
Lenin e Stalin criaram uma “nova classe”, cuja base foi a organização dos revolucionários profissionais. Depois que essa organização se apoderou do Poder, viu-se aparecer a Nomenklatura de Stalin, que se tornou a classe dirigente da União Soviética.
    
A Nomenklatura é uma classe de exploradores e privilegiados. Foi o poder que lhe permitiu ascender à riqueza e não a riqueza que lhe permitiu ascender ao Poder. A política da Nomenklatura consiste em assentar seu poder ditatorial no plano interno e estendê-lo ao mundo inteiro.
     
A Nomenklatura tem certas realizações positivas em seu ativo. Mas, ela se transforma cada vez mais em uma classe parasitária. Do ponto de vista histórico, seu rendimento social é nulo, e seu desejo obstinado de dominação mundial é cheio de riscos de guerras.
    
Se quisessem deter esse perigo, todos os países que estão sob a tutela de Moscou deveriam praticar resolutamente uma política de paz e de segurança. Uma política sem medo e sem ilusões. Para levar a cabo tal política, é importante conhecer bem a natureza profunda da Nomenklatura.
    
Vamos deixar a Nomenklatura no momento em que ela vive suas mais belas horas. Praça Vermelha, 7 de novembro. Sob os poderosos sons de uma marcha militar, no meio de salvas de honra, a Nomenklatura celebra um aniversário de seu poder com uma parada militar e um grande desfile que durará várias horas.

Momento único: pode-se, afinal, vê-“los” em grupo, em lugar de percebê-los ocasionalmente em seus SILs oi Tchaikas, em suas residências de chefes ou sentados à mesa da Presidência. Onde encontrar reunida uma tal quantidade de nomenklaturistas senão nas tribunas, perto do mausoléu, naquele dia solene? 
    
Ei-los de pé sobre os degraus de pedra das tribunas, aqueles homens troncudos, de rostos grosseiros, autoritários, acompanhados de suas gordas esposas, seus filhos bem nutridos, de bochechas vermelhas. Todos usam roupas de inverno. O vento varre a praça, drapejando as bandeiras e os flocos da neve de novembro fustigam os rostos.

Os casacos são feios de fazendas inglesas de primeira qualidade, usam-se peles suaves, luxuosos astracãs, gorros de pele. Mas há uma lei não escrita da Nomenklatura que é respeitada aqui: todas essas roupas luxuosas não podem ser bem muito justas e nem usadas com muita elegância. As mulheres não se devem maquiar. É o último e modesto tributo pago ao mito da origem proletária da Noomenklatura, àquele ideal de democracia que ela finge respeitar.
    
Dez horas menos três minutos. Todas as cabeças se voltam na direção do mausoléu. Os pais nomenklaturistas suspendem seus filhos nos ombros. Dentro de alguns instantes, os chefes da classe dos nomenklaturistas vão aparecer no alto do mausoléu, sua passarela de comando. Ei-los! À frente o Secretário-Geral, depois, a alguma distância, os outros, dispostos segundo uma rigorosa ordem.

A classe da Nomenklatura aplaude e responde à saudação dos chefes. Claro, ela não está no mausoléu, mas a seus pés. Os que estão de pé, lá no alto, são os suseranos. E quando o universo contempla esse punhado de dignitários, contempla, de fato, a Nomenklatura.
    
À paisana, oficiais da KGB, com braçadeiras vermelhas, impedem, com cortesia, mas com firmeza, os nomenklaturistas de menor importância, que foram colocados nas tribunas afastadas, de entrar nas tribunas reservadas à fina flor. Tem-se o direito de passar de uma tribuna para outra, mas unicamente se se afastar do mausoléu. Eis como se desenha concretamente no espaço a pirâmide da Nomenklatura.
    
Dez horas, início da parada. Virá, em seguida, o desfile dos fiéis representantes da “classe laboriosa”, portando retratos gigantescos dos chefes da Nomenklatura, bandeirolas com slogans e os números do Plano. Depois, será a recepção no Kremlim. Os funcionários da Nomenklatura sentados numa ordem hierárquica impecável, e os embaixadores da quase totalidade dos países do mundo festejarão o aniversário da Revolução de Outubro.
    
Mas, é agora que a Nomenklatura vai conhecer o seu instante de apoteose. Cinquenta longos minutos de felicidade enquanto desfilam os soldados em passo estritamente cadenciado, os blindados passando com o barulho das lagartas e os foguetes, superdimensionados. Como eles sorriem à vista desses foguetes. Como estão felizes! É sua força que cresce, como uma avalanche, sobre a Praça Vermelha, nas fileiras atentas da KGB. É sua força que obriga o planeta inteiro a voltar seus olhares para aquele lugar, a ouvir suas vozes, a tremer diante deles.
    
Vamo-nos despedir da Nomenklatura quando ela vive este momento de êxtase. Saudemos aqueles bojares que se apertam em volta da pirâmide do mausoléu, onde repousa uma múmia, diante de um cenário de muralhas medievais. Deixemo-los. Fascinados por seu próprio poder, permanecem ali, de pé, diante das tumbas da muralha do Kremlin, como em um cemitério. E o vento de novembro, incansável, espalha flocos de neve sobre aquele universo que mergulha no outono.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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