sábado, 18 de março de 2017

Nomenklatura – Embrião da Nova Classe


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é outro capítulo do livro “A Nomenklatura – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”. O autor, MICHAEL S. VOSLENSKY, nasceu em 1920, na União Soviética. Foi tradutor no processo de Nuremberg e no Conselho de Controle Aliado da Alemanha. A partir de 1950 trabalhou em Moscou, em contato estreito com o aparelho do Comitê Central do Partido, tendo sido enviado a Praga, depois a Viena, para o Conselho Mundial da Paz. De volta a Moscou, assumiu responsabilidades diversas na Academia de Ciências. Professor de História na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou, e membro do Conselho da Academia de Ciências Sociais, junto ao Comitê Central.
    
MICHAEL VOSLENSKY é considerado, no Ocidente, um dos mais eminentes especialistas em política soviética.

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Uma organização de revolucionários profissionais seria um bom meio de reparar uma revolução?
    
Sim, sem dúvida alguma, se se trata de derrubar a ordem vigente e tomar o Poder.
    
Os revolucionários profissionais representam o interesse da classe dos operários? Em que consiste esse interesse? Não é nem o aumento de salários e nem melhoria das condições de vida – isto seria sindicalismo -. Seu interesse é a vitória da revolução proletária.
    
Mais qual serão resultado dessa vitória? Segundo Lenin, o mais importante, na Revolução, é o problema do Poder, pois após a Revolução o Poder passará para as mãos do proletariado, representado pela sua vanguarda.
    
E qual é essa vanguarda? Segundo Lenin, é o Partido, cujo núcleo é a organização dos revolucionários profissionais. Todavia, assim que os tais revolucionários profissionais subirem ao Poder vão dizer que representam os interesses da classe operária, sob o pretexto de que a tomada do Poder é do interesse da classe operária.
    
Por que a classe operária deveria lutar pela melhoria das condições dos revolucionários profissionais em lugar de lutar pela melhoria de suas próprias condições? Lenin confessa abertamente que a classe operária, pelo fato de ser a classe social mais mais homogênea e mais disciplinada, é a melhor para tornar-se o exército político da revolução. Vamos encontrar essa tese se Lenin em todos os manuais de História do PCUS.
    
Sem a classe operária, os revolucionários profissionais não conseguiriam “fazer” a Revolução, porque esse punhado de profissionais não tinha possibilidade de tomar o Poder sem a ajuda do proletariado. Os populistas haviam se apoiado na classe majoritária em número – os camponeses – e tinham fracassado. Por isso, os revolucionários profissionais, segundo Lenin, deveriam apoiar-se em uma minoria bem organizada e disciplinada, no caso os proletários, e tomar o Poder por seu intermédio. Reside nesse ponto o laço que liga, em todos os países, a classe operária aos partidos comunistas.
 
Pode-se,como faz a propaganda dos comunistas, repetir, de todas as maneiras, as palavras de Lenin para fazê-las penetrar bem na mente das pessoas: o Partido é o Partido da classe operária, o Partido luta pelos interesses da classe operária, Na realidade não há um mínimo de verdade nessas palavras. Elas são e continuarão a ser uma mentira. Nem o Partido leninista no seu conjunto, nem seu núcleo – os revolucionários profissionais – jamais foi, nem a vanguarda e nem uma simples parcela da classe operária.
    
Então, a que classe de sociedade russa pertencia essa organização de revolucionários profissionais? A nenhuma. Desde o início, Lenin colocou essa organização além da sociedade da época: ela deveria constituir um organismo social independente e obedecer a suas próprias regras.
    
Dessa organização nasceu um grupo muito fechado que não pertencia a nenhuma classe. Seu papel, no sistema de produção soclal, consistia em derrubar esse sistema de produção, bem como a ordem social existente. Esse pequeno grupo não tinha outro papel senão esse. No sistema de produção existente e na ordem social existente, não havia lugar para ele. 
     
Por outro lado, esse pequeno grupo tinha um futuro bem preciso: se a revolução que preparava fosse vitoriosa, tornar-se-ia, automaticamente, uma organização de dirigentes profissionais.
    
Foi assim que Lenin criou o embrião da nova classe dirigente.
    
Mais tarde, os bolchevistas se contentariam em repetir que a Rússia daquela época estava grávida da Revolução. No entanto, seria mais exato dizer que a Rússia estava grávida de uma nova classe dirigente que só poderia chegar ao Poder pela Revolução.
    
Mas, afinal, quem foi para o Poder? Os operários ou os camponeses? Uma velha fotografia nos mostra o primeiro  Conselho dos Operários do Povo: estão todos lá, sentados em volta de uma mesa, olhando para nós. Entre eles há nobres...  Lunatcharski, o próprio Lenin... há intelectuais, florões da burguesia... Mas, onde estão os operários e os camponeses? Não os há. Todos os comissários bolchevistas do povo têm apenas um ponto comum: independentemente de sua origem ou de sua situação social, são todos dirigentes da organização de revolucionários profissionais criada por Lenin. Foi essa organização que tomou o Poder do Estado.
    
Que classe representava essa organização? Já o dissemos: Ela representava ela própria. E ela é o próprio embrião de uma nova classe dominante.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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