quinta-feira, 30 de março de 2017

O Mir e a Unidade Popular no Chile


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Ao sair da clandestinidade depois do triunfo eleitoral de Salvador Allende – liderado pela Unidade Popular, coalizão de partidos de esquerda -, o MIR desenvolveu-se consideravelmente por intermédio das suas frentes de massa: o Movimento Camponês Revolucionário, o Movimento dos Favelados, a Frente dos Trabalhadores Revolucionários, etc. Junto com a esquerda da Unidade Popular – uma ala do Partido Socialista e uma tendência do MAPU (Movimento da Ação Popular Unificada, a esquerda cristã, etc.) – tentou disputar a hegemonia do movimento operário com o Partido Comunista Chileno, sem consegui-lo.
    
O texto abaixo é um dos mais característicos desse período: uma polêmica do MIR com o PC sobre a estratégia de luta.
    
A prática e a doutrina do MIR durante esse período, muito enriqueceu a experiência e as teses então predominantes na corrente castrista: guerrilha rural e urbana, etc.

“A vida dá lições que só se dão uma vez” (Winston Churchil)
 
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O Estado Popular Autônomo, independente e alternativo ao Estado-burguês, não é uma fantasmagoria, mas uma realidade e uma necessidade.
    
O Secretário-Geral do PC Chileno, Luis Corvalán, afirma em sua carta a Carlos Altamirano: “Mas acontece que quem está, como se disse, sob o fogo cruzado do imperialismo e da oligarquia dos Jarpa e dos Frei, e a quem estes querem derrubar, não é o fantasmagórico Poder PopularIndependente do Governo, do qual o MIR fala, e que só existe na cabeça delirante dos seus dirigentes, mas o governo do presidente Allende.”
    
Pensamos que a argumentação é falaz e vamos demonstrá-lo.
    
O que querem a grande burguesia e o imperialismo é impedir que a classe operária e as massas populares avancem, com independência de classe, rumo à tomada do Poder Político. Nesse sentido, as classes reacionárias e seus partidos decidiram impedir que o atual governo atue como um verdadeiro governo dos trabalhadores, abrindo passagem, impulsionando e apoiando a mobilização e a luta independente das massas.

Por isso a burguesia impôs, em outubro, a saída do Gabinete UP-Generais, precisamente para colocar sob custódia uma instituição que é “um agente do Estado-burguês”, neste caso, “agente restaurador, o governo”. Por isso, também o imperialismo e a burguesia buscam a derrota do governo sob a forma de derrocada e claudicação. E é justamente por isso que a crescente mobilização das massas e sua organização em órgãos de Poder, independentes e autônomos do Estado-burguês, é a única alternativa real para que a classe operária e as massas populares possam enfrentar, com possibilidades de êxito, as forças da reação burguesa.
    
Para isso, contam com o apoio do reformismo, da direção do PC, que se nega a impulsionar o desenvolvimento de formas de Poder Popularautônomas e contraditórias com o Estado-burguês chileno.
    
Entenda-se bem: estamos falando de um Poder Operário e Popular, que se organiza a partir da base, de forma autônoma e independente, em contradição e luta com o Estado-burguês e suas instituições de dominação social e política. Trata-se de um Poder  autônomo e Alternativo ao Estado-burguês e independente do atual governo. Isso não significa que esse Poder tenha que estar, necessariamente, em contradição com o governo.

Isso depende exclusivamente do governo, de sua capacidade de absorver ou não os interesses imediatos e gerais dos diferentes setores da classe operária, das massas e do povo. E mais: trata-se de que, efetivamente, o governo ajude a desenvolver esse Poder Popular, que é o único fator de força que pode lhe dar uma estabilidade classista, proletária e popular. Que o governo apóie as lutas do povo, seja uma alavanca efetiva das suas mobilizações, luta e organização independente, depende do caráter de classe e da força de classe que se afirme.
    
Na verdade, o fundo da polêmica sobre o Poder Popular Alternativo não está nas relações deste com o governo, mas na concepção da direção do PC sobre o atual período e as tarefas do proletariado na presente etapa da luta de classes.
    
O que acontece é que a direção do PC é contrária ao desenvolvimento de um Poder Operário e Popular Alternativo e Autônomo,porque neste momento não pensa na tomada do Poder Político pelo proletariado, na substituição revolucionaria do atual Estado, mas, como diz o senador Corvalán: “Somos partidários de realizar o processo revolucionário, no contexto do atual estado de direito, sem prejuízo de melhorá-lo paulatinamente. E somos firmes partidários da participação da classe operária na gestão do governo, mas absolutamente contrários às propostas do MIR sobre a criação de um Poder Popular como alternativa ao Governo Popular, pois isso, a nosso ver, significa enfraquecer o governo quando se trata de fortalecê-lo”.
    
Isto é, a direção do PC sugere um longo período de lutas por reformas no capitalismo, no Estado de Direito burguês, por meio da ação parlamentar, para chegar gradualmente ao socialismo, tese da transição pacífica e eleitoral parlamentar ao socialismo. Esta é a essência do reformismo do passado, o de Bernstein, Plekhanov e Kautsky, assim como o de neo-reformismo contemporâneo do PC Chileno e de outros PC’s que seguem a mesma política reformista do PC Chileno.
    
É preciso explicar claramente que a direção do PC sugere uma reforma do capitalismo e uma democratização do atual Estado-burguês, e não a tomada do Poder Político, nem o socialismo no atual período e na atual etapa. Isso não quer dizer que não existam condições. Marx e Lenin estudaram os períodos em que era possível que o proletariado questionasse realmente o Poder do Estado. Estes são os períodos de crise da sociedade, de crise da dominação burguesa e ascensão do movimento de massas, período que vivemos atualmente no Chile, em sua etapa pré-revolucionária.
    
A direção do PC não deve ocultar suas idéias e propósitos. Não deve continuar mistificando e deformando a realidade e a luta ideológica, afirmando que o Poder Popular das massas é necessária e inevitavelmente alternativo e contraditório ao atual governo. É alternativo ao Estado-burguês, a esse Estado que a direção do PC não quer combater em suas raízes e não quer que o governo atual combata – por isso aceitaram a incorporação dos militares -. Estado que só se propõe modernizar, democratizar, tornar mais popular, sem perder seu caráter burguês. Só será contraditório com o governo se este se opuser à luta independente do proletariado e do povo.
    
O Poder Popular Alternativo e Autônomo faz parte de uma estratégia alternativa proletária à estratégia do reformismo, que aceita manter as massas subordinadas à democracia burguesa.
    
O Poder Popular Alternativo e Autônomo, não é uma fantasmagoria e não existe apenas na “cabeça delirante” de alguns dirigentes. Ele surgiu, está se desenvolvendo, e ficará mais forte no seio das massas, ainda que alguns dirigentes do PC queiram impedir esse fato ou dar-lhe um caráter diferente. Isso porque é produto de um aprofundamento da luta de classes, de um processo progressivo e crescente de maior autonomia ideológica e política, programática e organizativa das massas. 
    
Tão real é o Poder Popular Independente que é uma das maiores preocupações da direção do PC, pois as massas que ainda reconhecem a condução do PC, e mesmo as bases do próprio Partido, escapam de suas mãos e realizam uma política contrária à política oficial da direção do PC. Até à greve de outubro, a direção do PC foi contrária aos Comandos e Conselhos Comunistas de Trabalhadores. Outubro lhes mostrou que não podiam se colocar ao lado contrário à luta de classes. Decidiram, então, aceitar formalmente os Comandos e Conselhos, mas anulando todo o seu conteúdo proletário e tentando transformá-los em instrumentos de luta corporativa e de democratização do Estado-burguês. Os Comandos e Conselhos, bem como o desenvolvimento doPoder Popular alternativo e autônomo, constituem órgãos fundamentais para abrir caminho à Revolução Proletária.
    
- A VERDADEIRA POSIÇÃO DO MIR DIANTE DO GOVERNO
    
O senador Corvalán ressalta na mencionada carta que “o MIR desqualifica por completo o atual governo”. Enquanto vocês (refere-se ao PS) e nós (o PC) consideramos que ele trabalha por mudanças e pelo socialismo, o MIR afirma que ele propõe a reafirmação da ordem burguesa. Este não é o pensamento do MIR. Pensamos que, até a constituição do Gabinete UP-Generais, o governo foi predominantemente reformista de esquerda, ampliou as liberdades democráticas e colocou em prática um limitado projeto de reformas em prol da classe operária e, nesse sentido, nós os valorizamos.

Isso não significa que estivéssemos plenamente de acordo com a sua prática, nem com a subordinação da luta independente do proletariado à capacidade de ação do governo, bem como aos seus limites políticos, como objetivo último da ação dos trabalhadores. Ao contrário, valorizamos a existência de um governo de esquerda, na medida em que ele seja realmente um instrumento e uma alavanca importante na luta da classe operária e das massas. Por isso criticamos a política reformista que, com suas vacilações e falta de confiança nas massas, foi obrigada a resolver a crise de outubro com a incorporação de alguns representantes do Corpo de Oficiais das FF AA ao Gabinete, iniciando-se, assim, um processo gradual de reafirmação da ordem burguesa no interior do governo e no aparelho estatal.
     
A ESSÊNCIA DA POLÍTICA DA DIREÇÃO DO PC CHILENO: A ALIANÇA DAS FORÇAS POPULARES COM A “BURGUESIA NACIONAL”
    
A essência da política de direção do PC pra o atual período foi definida por José Cademártori, membro da Comissão Política do PC, em um artigo publicado nos números 11 e 12 da Revista de La Universidad Técnica.
     
Cademártori ressalta que a direção do PC considera que estamos na primeira etapa do processo chileno de transição ao socialismo, e que a chave do êxito nesta primeira etapa consiste em conseguir o apoio da burguesia nacional – que, para o PC, é constituída por todos os setores que não estão nas 49 ou 91 empresas definidas para integrar o APS – no caminho chileno de transição ao socialismo.
    
Isto é, a direção do PC propõe, hoje em dia, diante do fracasso de sua estratégia pela crise da economia, crise, portanto, diante de seu modelo de acumulação de forças, baseado nos êxitos econômicos. Uma nova aliança de classes. Uma aliança de classes não só para garantir os interesses da burguesia de forma subordinada, com base no programa, mas uma redefinição da aliança social, a aliança de classes que sustenta o atual programa da Unidade Popular, concedendo um papel mais importante à burguesia nacional.

Entende-se que isso deve ser traduzido em uma incorporação orgânica da burguesia às alianças de alguma forma, e, portanto, essa incorporação também ocorreria nos níveis de direção do governo. Segundo Cadamártori, esta aliança sugere uma redefinição das relações entre aburguesia nacional e o proletariado que, de relações de luta e posição entre explorados e exploradores, devem ser transformadas em “relações de cooperação entre capital e trabalho assalariado”. Trata-se de convencer a burguesia chilena, conforme a direção do PC, a apoiar a luta do proletariado no caminho chileno ao socialismo. . Pensamos que o que realmente pretende a direção do PC é convencer o proletariado a colaborar para a plena restauração do domínio burguês.
    
Dessa forma, tornam-se plenamente compreensíveis as recentes afirmações do Secretário-Geral do PC, ao afirma que ”somos partidários de continuar com o processo revolucionário no contexto do atual Estado de direito, e melhorá-lo paulatinamente”. Ou seja, a direção do PC renunciar a impulsionar a luta anticapitalista e socialista do proletariado. No atual período, ele não se propõe como objetivo conquistar o Poder Político para o proletariado, mas a reforma do capitalismo, do monopólio, dos latifúndios, e da penetração capitalista em alguns setores da economia, aceitando-os em outros, e a democratização do Estado-burguês, por meio de melhoras paulatinas, que iriam sendo introduzidas no edifico capitalista e explorador da sociedade chilena.
    
Os motivos da direção do PC para impulsionar essa política encontram-se no conhecido e falaz documento da concepção da correlação de forças internas – fundamentalmente eleitorais para a direção do PC – para propor objetivos socialistas, não existiria, tampouco, a correlação de forças internacionais, para propor objetivos socialistas em um país que está no quintal do imperialismo ianque.
    
Mas o contraditório e paradoxal é que a direção do PC não propõe uma política para quebrar essa correlação de forças no plano interno, salvo a de ganhar a “batalha da produção” e, a partir da solução dos problemas econômicos, ganhar as massas e modificar essa correlação de forças. Esse esquema fracassou. Mas se continua insistindo nele. Como a direção do PC viu que não poderia ganhar a batalha da produção, em uma economia capitalista, sem o apoio da burguesia, decidiu chamar em seu auxílio a burguesia nacional.
    
Mas o paradoxo chega ao extremo quando nos dizem que, apesar em não haver forças para propor objetivos socialistas, isto é, o objetivo da conquista do Poder Político no período, dizem que já se iniciou a primeira etapa da transição ao socialismo. Essa teria começado em 4 de setembro de 1970 – eleição de Allende como presidente -, antes que o proletariado e seus aliados tivessem conquistado o Poder Político, exceto uma parte do Poder, como afirma o PC. Agora seria o momento de convencer a burguesia nacional a ajudar o proletariado a conquistar o Poder.
    
Na verdade, o problema é outro. No Chile nunca houve e nem começou transição alguma do capitalismo para o socialismo. O que aconteceu desde o dia 4 de setembro até hoje (fevereiro de 1973), é uma transição para um capitalismo de Estado, sob a direção de um governo reformista de esquerda.
    
Hoje em dia, o PC propõe reviver, com outra forma, sua velha tese de libertação nacional, daburguesia “nacional progressista” e da revolução por etapas. Isso é o que significa a Frente Ampla que Cadermátori e a direção do PC querem constituir entre o proletariado e aburguesia, chamada de “nacional progressista”.

Todas as políticas econômicas do PC têm sido orientadas para obter a confiança da “burguesia nacional” – por isso a política de reajuste, por isso o projeto sobre o ASP, etc. -.

OBSERVAÇÕES: “Burguesia, Burguesia Nacional e Burguesia Nacional Progressista, foram empregadas 12 vezes no texto acima.
   
As expressões Poder, e outras derivadas, foram empregadas “somente” 11 vezes.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...




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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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acp

Falso! Inexiste tal decálogo!

Nunca houve catalogação de donos de armas. Os comunas distribuíram armas às mancheias ao povo nas revoluções. Depois, tiveram de pedir que as devolvessem, pois não sabiam quem as tinha!

Ao tempo dos bolcheviques inexistiam meios de comunicação de massa, nada de rádio ou tv.

lenin era um conservador em termos sexuais.

Nunca trataram de democracia.

Nunca desmereceram a Rússia

Greves realizaram.

Eram subversivos, não podiam evitar que os czaristas contivessem a subversão, as greves, as bagunças.

Não se puseram contra a moral. Não derrubaram a honestidade. Inexistia votação de interesse dos comunas.

acp

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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

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Anônimo disse...

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Genocida de Pedra.

De onde você tira esses absurdos?

Os maometanos terroristas querem morrer a cometer genocídio.

De nada adiantaria querer destruir Medina ou Meca.

Os islamitas terroristas ainda cometeriam genocídio.

A maior parte dos países da burca retaliariam à simples menção da ignóbil ameaça.

De imediato poderian desinvestir no Ocidente e investir na Rússia, na China ou neles mesmos.

Aumentar a invasão maometana da Europa.

Aumentar o pre$$o do óleo de pedra.

Aumentar a$ tarifa$ poruária$ para navios que transportam óleo de pedra.

Caso alguém realmente seguisse suas tolas invectivas aí o genocídio seria geral.

Genocida de Pedra.

acp

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