quarta-feira, 29 de março de 2017

Os Princípios da Novilíngua


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Eric Arthur Blair (MotihariÍndia Britânica25 de junho de 1903 – Camden, LondresReino Unido21 de janeiro de 1950), mais conhecido pelo pseudônimoGeorge Orwell, foi um escritor, jornalista e ensaísta político inglês, nascido na Índia Britânica. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita. Apontado como simpatizante da proposta anarquista, o escritor faz uma defesa da auto-gestão ou autonomismo. O entusiasmo do autor pelo socialismo democrático não foi abalado pela experiência do socialismo soviético, um regime que Orwell denunciou em seu romance satírico "A Revolução dos Bichos".

A influência de Orwell na cultura contemporânea, tanto popular quanto política, perdura até os dias de hoje. Vários neologismos criados por ele, assim como o termo orwelliano - palavra usada para definir qualquer prática social autoritária ou totalitária já fazem parte do vernáculo popular.
                 
O texto abaixo é o samba do crioulo doido
                 
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Novilíngua era a língua oficial de Oceania e foi criada para satisfazer as necessidades ideológicas do Ingsoc, ou Socialismo Inglês. No ano de 1984 ainda não havia ninguém que utilizasse exclusivamente a Novilíngua como meio de comunicação, escrita ou falada. Os editoriais doTimes eram escritos em Novilíngua, mas isso exigia um esforço sobre-humano que somente um especialista seria capaz de empreender. Esperava-se que a Novilíngua tivesse substituído definitivamente a Anticlíngua – ou inglês comum, como deveríamos chamá-la – por volta de 2050. Entretanto, ela ia ganhando terreno de maneira segura e todos os membros do Partido tendiam, cada vez mais, a usar palavras e construções gramaticais da Novilíngua em sua linguagem coloquial. A versão utilizada em 1984, incluída nas nona e décima edições do Dicionário da Novilíngua, era temporária e continha muitas palavras supérfluas e formações arcaicas que mais tarde seriam suprimidas. Aqui nos referiremos à última versão, a mais aperfeiçoada, tal como aparece na Décima Primeira Edição do Dicionário. 
    
O objetivo da Novilíngua não era apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais próprios dos devotos do Ingsoc, mas também disponibilizar outras formas de pensamento.O que se pretendia era que, tão logo a Novilíngua fosse adotada definitivamente, e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético, isto é, divergente dos princípios do Ingsoc, fosse literalmente impensável, ou pelo menos até o limite em que o pensamento depende de palavras. Seu vocabulário fora construído de modo a fornecer a expressão exata – e freqüentemente de um modo muito sutil – a cada significado qe um membro do Partido quisesse expressar, excluindo todos os outros significados, bem como a possibilidade de chegar a eles por métodos indiretos.Isso era obtido, em parte, pela invenção de novas palavras indesejáveis e pelo esvaziamento das palavras restantes,de qualquer significado heterodoxo e, tanto quanto possível,de todos os significados secundários, quaisquer que fossem eles. Por exemplo, a palavra livre ainda existia na Novilíngua, mas só podia ser utilizada em sentenças como “este cachorro está livre de pulgas”, ou “este jardim está livre de ervas daninhas”. Não podia ser usada em seu antigo sentido de “politicamente livre”, uma vez que liberdades política ou intelectual já não mais existiam como conceitos e, portanto, não tinham necessidade de ser nomeadas.

Além da supressão de palavras definitivamente heréticas, considerava-se a redução dos vocabulários por si só como um objetivo desejável, e não era permitida a sobrevivência de palavras das quais se pudesse prescindir. A finalidade da Novilíngua não era aumentar, mas diminuir a extensão do pensamento, finalidade que poderia ser atingida pela redução do número de palavras ao mínimo.
    
A Novilíngua teve como base a língua inglesa tal como a conhecemos hoje, embora muitas frases da Novilíngua, inclusive aquelas que não continham palavras recém-criadas, fossem quase incompreensíveis para um falante de inglês da atualidade. As palavras da Novilíngua dividiam-se em três classes distintas, conhecidas como Vocabulário A, Vocabulário B (também chamado de Vocabulário de Palavras Compostas) e Vocabulário C. O mais simples será discutir cada classe separadamente, mas as peculiaridades gramaticais da língua podem ser encontradas na seção dedicada ao Vocabulário A, uma vez que as mesmas regras se aplicam às três categorias.  

Vocabulário A 
    
O Vocbulári A consistia em palavras de uso cotidiano, como comer, beber, trabalhar, vestir-se, subir e descer escadas, dirigir veículos, cuidar do jardim, cozinhar, etc. Esse vocabulário era composto quase que totalmente de palavras que já possuíamos, como bater, correr, cachorro, árvore, açúcar, casa e campo, mas, em comparação com o vocabulário do inglês atual, seu número era extremamente pequeno, ao passo que os significados destas eram definidos de maneira muito mais rigorosa. Todas as ambigüidades e significados implícitos haviam sido eliminados. Na Novilíngua, até o limite do que fosse possível, uma palavra dessa classe era simplesmente reduzida a um som pronunciado com destaque, que expressava um conceito claramente entendido. Teria sido quase impossível utilizar o Vocabulário A para fins literários ou para discussões políticas ou filosóficas. Seu objetivo era somente expressar pensamentos simples e objetivos, geralmente envolvendo objetos concretos ou ações físicas.
    
A gramática da Novilíngua apresentava duas peculiaridades marcantes. A primeira era uma intercambialidade quase total entre as distintas partes do discurso. Qualquer palavra da língua (no início isso se aplicava inclusive a palavras muito abstratas, como se ou quando) podia ser utilizada como verbo, substantivo, adjetivo ou advérbio. Não havia nenhuma variação se o verbo e o substantivo possuíssem a mesma raiz; dessa maneira, essa regra, por si só, envolvia a destruição de muitas formas arcaicas.

A palavra pensamento, por exemplo, não existia na Novilíngua. Em seu luar existia pensar, que tinha função de substantivo e de verbo. Aqui, nenhum princípio etmológico era seguido: em alguns casos preservava-se o substantivo original; em outros, o verbo. Mesmo quando um substantivo e um verbo de significado parecido não tinham relação etmológica, um ou outro era freqüentemente suprimido. Não existia, por exemplo, uma palavra como cortar, uma vê que seu significado já estava incluído no substantivo-verbo faca. Os adjetivos eram formados adicionando-se o sufixo completo ao substantivo-verbo, e os advérbios pela inclusão de modo. Dessa maneira, por exemplo, rapidocompletosignificava “rápido”, e rapidomodo significava “rapidamente”. Foram preservados alguns adjetivos atuais, como bom, forte, grande, negro, e macio, mas em número muito reduzido. De qualquer forma, havia pouca necessidade deles, uma vez que era possível chegar a qualquer significado relacionado ao adjetivo pela inclusão de completo a um substantivo-verbo. Nenhum dos advérbios atualmente existentes foi mantido; a palavra bem, por exemplo, foi substituída por bommodo. 
    
Além disso, qualquer palavra – e isso novamente se aplicava, em princípio, a todas as palavras da língua – poderia adquirir um sentido de negação pela inclusão dos prefixos in ou im, ou poderia ser reforçada pelo sufixo plus, ou, para intensificar ainda mais a ênfase, dupliplus. Dessa maneira, por exemplo, infrio significava quente, enquanto que plusfrio ou dupliplusfrio significavam “muito frio” ou “frio na forma superlativa”, respectivamente. Também era possível, como no inglês atual, modificar o significado de quase todas as palavras como prefixos como ante, pós, sobre, sub, etc.

Por meio desses métodos foi possível diminuir bastante o Vocabulário. Tomando como exemplo palavra bom, não havia necessidade da palavra mau, uma vez que o significado requerido tão bem ou até mesmo melhor pela palavra imbom. Bastava decidir qual palavra deveria ser suprimida, no caso em que duas palavras formassem um par natural de significados contrários. A palavra escuro, por exemplo, poderia ser substituída pela palavrainluz, ou luz por inescuro, de acordo com a preferência.
    
A segunda característica marcante da gramática da Novilíngua era sua regularidade. Além de algumas exceções mencionadas adiante, todas as flexões eram regulares. Dessa maneira, em todos os verbos o pretérito e o particípio passado eram iguais e terminavam em ado, edo ou ido. O pretérito de dizer era dizido, o pretérito de pensar,pensado, e assim por diante. Todas as outras fontes, como salvo, aberto, feito, dito, pago, etc. foram abolidas. Todos s plurais eram formados pela adição de s ou es conforme o caso (terminando em vogal ou em consoante, respectivamente). Os plurais de homem, canção, anzol, eram homemes, cançãos, anzoles. A comparação de adjetivos era invariavelmente feita pela adição de mais oumelhor (bom, maisbom ou mlhorbom).
    
As únicas classes de palavras com flexão irregular ainda permitida eram os pronomes relativos, os demonstrativos e os verbos auxiliares. Todos eles seguiam seu uso antigo, com exceção de quem, que havia sido suprimido por ser considerado desnecessário. O pretérito imperfeito e o presente (dos modos indicativo e subjuntivo), caíram em desuso, uma vez que esses tempos verbais haviam sido substituídos pelo futuro do presente e futuro do pretérito (do modo indicativo) e pelo futuro (do modo subjuntivo).Havia também determinadas irregularidades na formação de palavras surgidas da necessidade de uma fala rápida e fácil.

Uma palavra cuja pronúncia fosse difícil ou fosse entendida de maneira incorreta era considerada, ipso facto, uma palavra ruim; dessa maneira, ocasionalmente, para fins de eufonia, eram acrescentadas letras a essa palavra ou mantida a sua formação arcaica. Mas essa necessidade referia-se principalmente ao Vocabulário B.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sr. Azambuja:
Igualzinho à versão imbecilizada e apodrecida do português do Sr. luLLa (nova ortografia), feita para que os ignóbeis analfabetos possam se achar doutos.
Desconsidero quem adotou aquela péssima idéia (de acordo com a "velha" ortografia)!

JomaBastos disse...

Lula deveria ser obrigatoriamente considerado uma "DESPESSOA".