sábado, 8 de abril de 2017

A União Soviética é Socialista?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “A Luta de Classes na União Soviética”, escrito por Charles Betelheim, editora Paz e Terra. Charles Bettelheim (20 de Novembro de 1913 - 20 de Julho de 2006) foi um economista e historiador francês. Fundador do CEMI ("Centre pour l'Étude des Modes d'Industrialisation" - Centro para o Estudo de Modos de Industrialização) na Sorbonne;foi também consultor econômico em governos de vários países em desenvolvimento durante a descolonização. Foi muito influente na Nova Esquerda Francesa, e é considerado "um dos mais notáveis marxistas do mundo capitalista" (Le Monde4 de Abril de 1972) em França, mas também em EspanhaItáliaAmérica Latina e Índia.
                           
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“O maior inimigo de um governo é um povo esclarecido”
                         (Desconheço o autor)

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Muitas pessoas, indiferentes aos fatos, continuam a identificar a União Soviética com o socialismo, fato que repercute seriamente nas lutas da classe operária, sobretudo nos países industrializados. Efetivamente, para os trabalhadores desses países - mesmo os mais combativos, os mais convencidos da necessidade de destruir o capitalismo -, a sorte do operariado soviético não parece invejável, havendo, portanto, um temor de que, devido ao exemplo da União Soviética, o que se propõe como alternativa ao capitalismo, não o seja verdadeiramente.

Mesmo os dirigentes dos partidos comunistas ocidentais, que consideram a União Soviética “a Pátria do Socialismo”, empenham-se em assegurar aos trabalhadores de seus países que o “socialismo” que pretendem construir será “diferente” do modelo soviético. As explicações relativas “ao como” e “por que” são sumárias (apelam, na melhor das hipóteses, para a pseudo-psicologia dos povos, do tipo “os franceses não são como os russos”) e nada têm a ver com uma análise política. Eles só podem convencer, portanto, aqueles que desejam ser convencidos. Para os demais, a equação “URSS = socialismo”, funciona como uma contrapropaganda.
    
A outra razão pela qual é da maior importância compreender o resultado das transformações ocorridas na União Soviética, e encontrar também explicação para isso, fora do aspecto exclusivamente “russo” da história soviética, é que esse “por  que” relaciona-se estreitamente com o “marxismo oficial”, dos partidos comunistas, que identificam a União Soviética com o socialismo e com o “marxismo”, que continua preso ao economicismo da II Internacional.
    
Um dos aspectos essenciais da luta ideológica pelo socialismo tem sido sempre a luta contra o economicismo – de direita ou de esquerda -. Ora, analisando as transformações que fizeram da União Soviética um Estado Capitalista de tipo peculiar, percebemos claramente a ajuda, prestada pelo economicismo, às forças sociais burguesas que atuavam nesse processo evolutivo, quer desorientando os militantes revolucionários, quer desarmando ideologicamente os trabalhadores soviéticos. 
    
A análise dessas transformações e as lutas através das quais elas ocorreram é, portanto, atual. O que está em jogo nessas lutas são as concepção dominantes no movimento operário dos países industrializados – sob a forma inversa, ou seja, a das diversas espécies de “esquerdismo”, elas estão também, com freqüência, presentes nos movimentos revolucionários dos países pouco industrializados. Analisar do modo mais concreto possível, através da experiência exemplar da União Soviética, os erros a que tais concepções conduzem, constituem a uma “lição pela negação” capaz de auxiliar aqueles que desejam lutar pelo socialismo para delas se desembaraçar.
    
A análise do que ocorreu e ocorre na URSS assume importância especial para os militantes e simpatizantes dos partidos revisionistas, que estão ideologicamente paralisados pela incapacidade de compreenderem o passado e, por conseguinte, o presente desse país. Manifestações dessa paralisia são os recursos a fórmulas vazias sobre o “culto da personalidade” ou à atitude que consiste em manter certa distância da União Soviética, ao mesmo tempo em que multiplicam os protestos de fidelidade à “pátria do socialismo”.
    
Tais fórmulas e atitudes são o testemunho de uma crise ideológica mais profunda, porém oculta, que pode representar o prelúdio de uma reflexão capaz de pôr, finalmente, em dúvida, as práticas reformistas e revisionistas. Esta reflexão deve ser alimentada por um esforço de compreensão do passado e do presente da União Soviética. Do contrário estaremos mais ou menos condenados a ficar presos a esquemas que obscurecem a história real.

Os dirigentes revisionistas temem claramente semelhante reflexão, e daí vêm, mais uma vez, as fórmulas encantatórias sobre o anti--sovietismo com que encaram qualquer tentativa de reflexão crítica sobre a história concreta da URSS. Essas fórmulas não têm outra função senão impedir que os militantes e simpatizantes dos partidos revisionistas levantem questões essenciais, a partir das quais as lutas proletárias e populares poderão resultar em algo diferente da tríade: reformismo eleitoralista, lutas sindicais que se dizem independentes de qualquer organização política e espontaneísmo.
    
É evidente que a análise da realidade soviética – do passado e do presente – constitui apenas um elemento capaz de contribuir para um esclarecimento ideológico e, indiretamente, tirar o movimento operário, particularmente o marxismo esclerosado, hoje dominante em uma grande parte do mundo, do círculo no qual parece encerrado. Mas, felizmente, existem outros elementos também.
    
Um deles é agravamento da crise do capitalismo, tanto no plano econômico, – no qual ela assumiu, a princípio, a forma de uma crise monetária internacional de grandes proporções -, quanto no plano ideológico, – crise marcada, sobretudo, pela recusa de uma importante facção da população dos países industrializados, em particular da juventude operária, dos estudantes, e das mulheres, em aceitar as formas anteriores de sujeição a que estavam submetidas pelo capitalismo -, e no político, com o florescimento das lutas nacionais e revolucionárias, em numerosos países pouco industrializados.
    
Outro elemento de renovação das lutas populares e de sua orientação, são as lições positivas que, em face do fracasso soviético, podem ser tiradas da construção do socialismo na China. A vida, isto é, a luta das massas dirigidas por um autêntico Partido marxista-leninista, mostrou como era possível resolver os problemas referentes à transformação socialista das relações sociais. O marxismo-leninismo recebeu assim um novo vigor e esclareceu uma série de questões que a prática social não podia solucionar. E também, como já dissemos, através da experiência chinesa, pode-se hoje compreender melhor a natureza das transformações que ocorreram na União Soviética.
    
Rejeitando-se a problemática economicista, é possível compreender que a atual situação da União Soviética resultou de um processo de luta de classes; de um processo que o partido bolchevista dirigiu de mal a pior, por não saber unir as forças populares e nem encontrar, a cada momento, uma linha justa de demarcação entre as forças sociais capazes de sustentar uma revolução proletária, as inevitavelmente hostis e as neutralizáveis.

Na luta de classes que se travou na Rússia e na União Soviética, o proletariado sofreu graves derrotas, mas a luta continua e, – num prazo e mediante peripécias sobre as quais é inútil especular -, levará necessariamente os trabalhadores das Repúblicas soviéticas a restaurar seu Poder e retomar a construção do socialismo.
    
Janeiro de 1974.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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