segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Via Chilena para o Socialismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O Partido Socialista Chileno muitas vezes adotou posições mais radicais, e sofreu maior influência da Revolução Cubana entre seus membros, do que o Partido Comunista.

Este discurso de Salvador Allende, dirigente histórico do Partido Socialista Chileno, presidente do Chile pela coalizão Unidade Popular, é um testemunho – acreditem - dos limites de um homem comprometido com seu povo.


As circunstâncias da Rússia em 1917 e do Chile, em 1973, eram muito diferentes. Entretanto, o desafio histórico era semelhante.
    
A Rússia de 1917 tomou as decisões que afetaram mais profundamente a história contemporânea. Lá, chegou-se a pensar que a Europa atrasada poderia estar à frente da Europa avançada, que a primeira Revolução Socialista não ocorreria, necessariamente, nas entranhas das potências industriais. Lá, aceitou-se o desafio e edificou-se uma das formas de construção da sociedade socialista: a ditadura do proletariado. 
    
Hoje ninguém duvida que, por esse caminho, nações com grandes massas de populações podem, em períodos relativamente breves, romper com o atraso e se colocar à altura da civilização da nossa época. Os exemplos da URSS e da República Popular da China são eloqüentes por si mesmos.
    
Como a Rússia naquele momento, o Chile encontrava-se ante a necessidade de iniciar uma nova maneira de constituir a sociedade socialista, a nossa via revolucionária, a via pluralista, antecipada pelos clássicos do marxismo, porém nunca concretizada antes. Os pensadores sociais supuseram que os primeiros a percorrer esse caminho seriam as nações mais desenvolvidas, provavelmente a Itália e França, com seus poderosos partidos operários de definição marxista.
    
No entanto, uma vez mais, a história permite romper com o passado e construir um novo modelo de sociedade, não só, teoricamente, isso era mais previsível, mas onde se criaram condições concretas mais favoráveis para o seu estabelecimento. Então, o Chile foi a primeira Nação da Terra chamada a formar o segundo modelo de transição à sociedade socialista.
    
Esse desafio despertou vivo interesse para além das fronteiras da Pátria. Todos sabiam, ou intuiam, que ali a história parecia dar uma nova guinada, na medida em que nós, chilenos, estivéssemos conscientes da empreitada. Alguns de nós, talvez a minoria, vislumbravam grandes dificuldades na tarefa. Outros, a maioria, buscava a possibilidade de enfrentá-la com sucesso.
    
Por minha parte, tinha a certeza de que teríamos a energia e a capacidade necessárias para realizar esse esforço, modelando a primeira sociedade socialista edificada segundo um modelo pluralista, democrático e libertário.
    
Os céticos e os catastrofistas diziam que não seria possível. Diziam que um Parlamento, que tão bem serviu às classes dominantes, seria incapaz de transfigurar-se para chegar a ser o Parlamento do povo chileno.
    
E mais: afirmavam enfaticamente que as Forças Armadas e os Carabineiros, até então elementos de sustentação da ordem institucional que buscávamos superar, não aceitariam garantir a vontade popular decidida a edificar o socialismo. Esqueciam, a consciência de nossas forças Armadas e dos Carabineiros, sua tradição profissional e sua submissão ao Poder Civil. Para utilizar os mesmos termos do general Schneider, nas Forças Armadas, como “parte integrante e representativa da Nação, e como estrutura do Estado, o permanente e o temporário organizam e contrapesam as mudanças periódicas que regem sua política dentro de um regime legal”. 
    
Por minha parte declaro – disse Allende -, senhores membros do Congresso Nacional, que como essa instituição está baseada no voto popular, nada, em sua própria natureza, impede que ela se renove, para se transformar, de fato, no Parlamento do Povo. E afirmo que as Forças Armadas chilenas e o Corpo de Carabineiros, guardando fidelidade à sua tradição de não interferir no processo político, serão o respaldo de uma ordenação social que corresponda à vontade popular, expressa nos termos estabelecidos pela Constituição. Uma ordenação mais justa, mais humana e mais generosa para todos, mas essencialmente para os trabalhadores, que até hoje deram tanto sem receber nada.
    
As dificuldades que enfrentamos não se situam nesse campo. Residem na extraordinária complexidade das tarefas que nos esperam,institucionalizar a via política para o socialismo, e conseguir isso a partir da nossa realidade presente, de sociedade esmagada pelo atraso e pela pobreza, próprios da dependência e do subdesenvolvimento, romper com os fatores causadores do atraso e,ao mesmo tempo, erigir uma nova estrutura socioeconômica capaz de prover a prosperidade coletiva.
    
As causas do atraso estiveram – e anda estão – no casamento das classes dominantes tradicionais com a subordinação externa e com a exploração classista interna. Elas lucram com a associação a interesses estrangeiros, e com a apropriação dos excedentes produzidos pelos trabalhadores, deixando a estes apenas um mínimo indispensável para repor sua capacidade de trabalho.
    
Nossa primeira tarefa é acabar com essa estrutura restritiva, que apenas gera um crescimento deformado. Mas, simultaneamente, é preciso edificar a nova economia, para que suceda à outra, sem solução de continuidade, edificá-la, conservando ao máximo, a capacidade produtiva e técnica que conseguirmos, apesar das vicissitudes do subdesenvolvimento, edificá-la sem crises artificialmente elaboradas pelos que terão seus arcaicos privilégios proscritos.
    
Para além dessas questões básicas, uma delas desafia nossa época: como devolver ao homem, sobretudo ao jovem, um sentido de missão que lhe infunda uma nova alegria de viver e que conceda dignidade à sua existência? Não existe outro caminho senão apaixonar-se pelo esforço generoso de realizar grandes tarefas impessoais, como auto-superação da própria condição humana, até hoje aviltada pela divisão entre privilegiados e excluídos.
    
Ninguém pode imaginar, atualmente, soluções para os distantes tempos do futuro, quando todos os povos terão alcançado a abundância e a satisfação das suas necessidades materiais, e herdado, ai mesmo tempo, o patrimônio cultural da humanidade. Mas aqui, e agora, no Chile e na América Latina, temos a possibilidade e o dever de desencadear as energias criadoras, particularmente da juventude, para missões que possam nos comover mais que qualquer outro empreendimento do passado.
    
Essa é a esperança de construir um mundo que supere a divisão entre ricos e pobres. E, em nosso caso, erigir uma sociedade em que seja a guerra de uns contra outros na concorrência econômica, na qual não tenham sentido a luta por privilégios profissionais, nem a indiferença pelo destino alheio, que faz com que os poderosos sejam extorsionários dos fracos.
    
Poucas vezes os homens necessitaram tanto como agora de fé em si mesmos e em sua capacidade de reconstruir o mundo, de renovar a vida.
    
Este é um tempo inverossímil, que fornece os meios materiais de realizar as utopias mais generosas do passado. A única coisa que impede que a concretizemos é o peso de uma herança de cobiças, medos e tradições institucionais obsoletas. Entre a nossa época e a do homem liberto em escala planetária, há apenas a superação dessa herança. Só assim será possível convocar os homens e reedificar-se, não como produtos de um passado de escravidão e exploração, mas como realização consciente de suas mais nobres potencialidades. Este é o ideal socialista.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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