quarta-feira, 19 de abril de 2017

Algumas contradições do Marxismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja                    

O texto abaixo foi transcrito de um dos capítulos do livro “A Hidra Vermelha”, escrito por Carlos I. S. Azambuja, editado em 1985, e reeditado em 2016 por um grupo de amigos.
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As ações dos partidos comunistas que se apossaram do Poder são coerentes com as teorias de Marx? Essa é uma pergunta que exige reflexão, embora a teoria marxista seja contraditória: diz que na sociedade capitalista, quando as forças produtivas tiverem alcançado o pleno desenvolvimento, produzir-se-á um choque violento de classes, que conduzirá à revolução socialista. É necessário que o capitalismo se desenvolva plenamente, pois o socialismo exige a industrialização plena e uma forte classe proletária, capaz de desempenhar o papel de redentora das massas.

Por outro lado, porém, já em 1848, antes, portanto, do capitalismo se desenvolver, Marx e Engels convocavam, no Manifesto Comunista, a união dos proletários de todo o mundo para fazer a revolução: “Proletários de todos os países, uni-vos”.

Enquanto a teoria previa o advento do socialismo somente após o natural desenvolvimento das forças produtivas na sociedade capitalista, a prática concitava à UNIDADE dos proletários de todo o mundo para a revolução socialista, abstraindo o estado em que se encontravam as forças produtivas na Europa de 1848. Para apoderar-se do poder político – diz a teoria -, é necessário que um grupo de revolucionários profissionais organize um partido – que necessariamente receberá a denominação de comunista – e que, sob o centralismo democrático, assumirá o papel de vanguarda do proletariado.

Segundo Marx, a transformação das relações sociais não surge de mudanças tecnológicas, mas da luta de classes: “Na base dessas relações modificadas desenvolve-se um modo de produção especificamente diferente, que cria novas forças produtivas materiais”.     
Portanto, o que muda primeiro não são as forças produtivas e sim a mentalidade das pessoas, asrelações sociais, como resultado da luta de classes.

Lenin, em relatório apresentado ao X Congresso do Partido, sublinhou, por sua vez, que “o decisivo é a transformação da mentalidade e dos hábitos”.
Anos depois, Stalin, em um discurso sobre “As Questões da Política Operária na URSS”, em 17 de dezembro de 1929, no momento em que era iniciada a política de coletivização em massa no campo, declarou: “Será necessário trabalhar muito para refazer o camponês kolkoziano, para corrigir sua mentalidade individualista e fazer dele um verdadeiro trabalhador da sociedade socialista.

E chegaremos mais rápido a isso, na medida em que os kolkozes forem mais rapidamente providos de máquinas e tratores. A grande importância dos kolkozes é serem eles a base essencial para o emprego das máquinas e dos tratores que, por sua vez, são a base essencial para a transformação da sua mentalidade no sentido do socialismo”.

É evidente a contradição de Stalin com os escritos de Marx e Engels, ao considerar que a passagem à coletivização não será resultante da luta de classese da transformação das relações sociais, e sim do emprego de máquinas e tratores, como forma de corrigir a mentalidade individualista dos camponeses. 

Assim, segundo a concepção stalinista. não são os camponeses que se transformam graças à luta de classes e ao balanço que fazem de suas experiências com a ajuda do partido, mas eles é que são transformados pelas máquinas e tratores.

Antes de assumir o Poder, o partido é um ferrenho defensor das reivindicações das amplas massas. Depois de assumir o Poder, impõe, em nome do proletariado, a ditadura sobre o proletariado.
Em uma sociedade não-capitalista e com uma indústria débil, onde o proletariado é minoria, os comunistas defendem a aliança entre operários e camponeses para promover a revolução.

Se o país possui uma frágil economia, diz-se que é oprimido pelo imperialismo; os comunistas forjam, então, a aliança da revolução proletária com movimentos de libertação nacional. Isto é, promovem o comunismo às custas do nacionalismo.

Nenhuma pessoa sensata é capaz e opor-se à independência nacional de seu país. Os comunistas, porém, ao se engajarem nessa causa nobre, nada mais fazem do que cumprir a primeira etapa da sua revolução socialista. Tão logo assumem o poder político, hipotecam a independência nacional à União Soviética e ao Movimento Comunista Internacional.

Quanto aos nacionalistas sinceros dos movimentos de libertação nacional, basta conhecer um pouco de História para verificar quais têm sido os seus destinos, tão logo instaladas as ditaduras socialistas.

O Partido Comunista utiliza o proletariado como força principal da sua revolução, e busca atingir seus fins revolucionários fomentando, em favor do partido, a luta de classes entre o proletariado e a burguesia. Depois ampliam essa luta, incluindo não apenas o proletariado, mas todos os trabalhadores e, logo a seguir, todo o povo, formando uma ampla frente. Observe-se que, no jargão que utilizam, induzem que o povo é inimigo dos regimes não-comunistas e vice-verso.

Terminam por denominar a luta entre comunistas e não-comunistas de luta de classes, estendendo indefinidamente esse conceito. 

Portanto, não importa se no país existe ou não uma classe trabalhadora e uma classe capitalista e em que nível se encontram as forças produtivas. Conquanto exista a vanguarda do proletariado – o Partido -, os comunistas continuarão enterrando os capitalistas em países onde não há capitalistas e a fazer a revolução proletária onde não existe uma classe trabalhadora.

O Estado, segundo Marx, na ditadura do proletariado iria se enfraquecendo, até desaparecer no comunismo.

No entanto, a Resolução aprovada na XVI Conferência do PCUS – posteriormente ratificada pelo XVI Congresso – apela, para a construção do socialismo, à concentração das forças do Partido, da classe operária e, também, à concentração das forças do Estado. Assim, toma forma a tese da “revolução pelo alto”, expressão que Marx utilizou para descrever a política de Napoleão Bonaparte,“executor da Revolução de 1789, na França”. 

A propósito da “revolução pelo alto”, consta na “História do PCUS”, aprovada pelo CC, que a coletivização forçada, iniciada em 1929, tinha de original o fato de ter sido iniciada pelo alto, por iniciativa do Poder do Estado.

Segundo Marx, após a revolução a burguesia seria expropriada com a expropriação dos meios de produção pela sociedade. Não haveria distinção entre trabalhadores intelectuais e operários.

No entanto, em 1920, Lenin estabeleceu a não-limitação dos salários dos técnicos e especialistas, a existência de um diretor único nomeado pelas centrais, e único responsável pela direção da empresa, bem como a autonomia financeira, que permitiria a empresa dispor de uma parte de seus lucros.

Desenvolveu-se, assim, uma nova burguesia, aNomenklatura, nas empresas do Estado e no Partido. Essa burguesia é de um novo tipo, pois embora não disponha da propriedade jurídica privada, nada a impede de dispor, de fato, dos meios de produção.

Para apoderar-se do Poder Político, os comunistas, historicamente, participam, primeiro, de um governo de coalizão. Como integrantes desse governo, o paralisam e forjam contradições insanáveis, até assumirem o Poder total. O novo regime passará, então, a culpar o imperialismo pela sua incompetência, e a retribuir, com apoio material e político, de organizações revolucionárias e mesmo de governos de países vizinhos, como fez o regime sandinista, na Nicarágua.

Sob a cobertura do internacionalismo revolucionário, a União Soviética sufocou as revoltas populares na Polônia, Hungria, RDA e Checoslováquia. Depois, fez o mesmo no Afeganistão. A China invadiu o Vietnam, e o Vietnam, por sua vez, anexou o Laos e o Cambodja...

O social-imperialismo, o expansionismo armado, a infiltração, a subversão, a agressão e a anexação, são as palavras-de-ordem estratégicas do bloco comunista, que não desistiu de pintar de vermelho o mapa-mundi.

A União Soviética afirma que a maior contradição de nossos dias é a que existe entre o socialismo e o imperialismo, e não se cansa de proclamar a força do campo socialista, da classe trabalhadora e do nacionalismo, afirmando que essas são as três grandes forças revolucionárias da nossa época: o movimento comunista, o movimento operário nos países capitalistas desenvolvidos, e o movimento popular de libertação nacional nos países coloniais.

A estratégia soviética na promoção da revolução mundial é conhecida. Mas recordá-la não faz mal a ninguém... Consiste em criar um ambiente internacional favorável ao bloco comunista e aumentar seu poderio econômico e militar para apoiar e sustentar mais eficientemente os movimentos revolucionários em todo o mundo.

Finalmente, o que se observa hoje, é que o marxismo, que segundo seu criador, criaria a sociedade sem classes, serviu apenas para criar uma forma moderna de totalitarismo, que tende a tornar-se definitiva. Muito embora tenha como base uma doutrina contraditória, incoerente e ilusionista, faz da omissão e da falta de conhecimentos históricos e doutrinários dos não-comunistas, o seu PRINCIPAL FATOR DE FORÇA.

Diz Norberto Bobbio, marxista italiano, em seu livro “Qual Socialismo?” – editora Paz e Terra, 1983 – “que o problema da conquista do Poder pelo movimento operário seja condição preliminar para a destruição da sociedade capitalista e para a instauração de uma sociedade diferente, fundada sobre a coletivização dos meios de produção, pode ser considerado ponto pacífico.

O que não é, de forma alguma pacífico, depois do que ocorreu na União Soviética e nos países onde o socialismo foi importado do exterior, é que o problema da conquista do Poder passe a ser isolado completamente do problema do seu exercício. Ou, em outras palavras, que o modo pelo qual o Poder é conquistado nada tenha ver com o modo como será, em seguida, exercido.

Transferir para depois da conquista do Poder o problema do Estado e da organização estatal, produziu o seguinte efeito: o Partido, para o qual se voltaram todas as atenções como órgão de tomada do Poder, terminou por tornar-se, ele mesmo, o Estado”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

"É necessário que o capitalismo se desenvolva plenamente,pois o socialismo exige a industrialização plena e uma forte classe proletária,capaz de desempenhar o papel de redentora das massas". Pois bem,enxergo nessa inteligente colocação do Professor Azambuja exatamente o fenômeno que se passa hoje com os Estados Unidos,cujo território sobre uma invasão migratória descontrolada de grandes contingentes de "proletários"vindos de todos os cantos do mundo,mesmo que uma parte deles usando o "selo" do islamismo e outras doutrinas afins.A imoralidade "cósmica" dessa mobilização de massas está em seus atores quererem se apropriar de riquezas que não construíram,nem ajudaram a construir.Usufruir sem construir é a regra. Essa é feição moderna que tomou o socialismo na sua "mundialização".Nas leis penais comuns essas atitudes oportunistas seriam enquadradas certamente entre os "crimes contra a patrimônio",que modernamente não acontece mais somente no círculos restritos das pessoas,mas também vitimando nações inteiras,como nos EUA,que são roubados por "alienígenas".Sérgio A.Oliveira.