segunda-feira, 24 de abril de 2017

Junta de Coordenação Revolucionária - 2


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja                    

Em 1972, durante um encontro de dirigentes do MIR, dos Tupamaros e do ERP argentino, Miguel Enriquez, do MIR, propôs a criação de uma organização internacionalista – um pequeno “Zimmerwald”, segundo suas próprias palavras – entre os três grupos revolucionários. Essa proposta foi aceita, e o ELN (Exército de Libertação Nacional) boliviano uniu-se à iniciativa.

Depois de um período de consolidação dos laços estabelecidos, foi proclamada, no início de 1974, a formação da Junta de Coordenação Revolucionária, composta pelas quatro organizações, com vocação para se ampliar pra além do Cone Sul do continente. Ao contrário da OLAS, a JCR não foi uma iniciativa da direção cubana, embora existam laços fraternos entre elas. A constituição da JCR significou certa autonomia do guevarismo latino-americano com relação a Cuba.  
     
“É o caminho do Vietnam. É o caminho que os povos devem seguir. É o caminho que a América seguirá, com a característica especial de que os grupos em armas podem formar uma espécie de Junta de Coordenação, para dificultar ainda mais a tarefa repressiva do imperialismo ianque e facilitar a própria causa” (Che Guevara em Mensagem à Tricontinental).

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O Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros) do Uruguai, o Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) do Chile, o Exército de Libertação Nacional (ELN) da Bolívia, e o Exército Revolucionário do Povo (ERP) da Argentina, assinam a presente Declaração para transmitir aos operários, aos camponeses pobres, aos pobres das cidades, aos estudantes e intelectuais, aos aborígenes, aos milhares de trabalhadores explorados da nossa sofrida Pátria latino-americana, sua decisão de unir-se em uma Junta de Coordenação Revolucionária.
    
Este importante passo é produto de uma sentida necessidade, a necessidade de unir nossos povos no terreno da organização, de unificar as forças revolucionárias perante o inimigo imperialista, de realizar com maior eficácia a luta política e ideológica contra o nacionalismo burguês e o reformismo.
    
Este importante passo é a concretização de uma das principais idéias estratégicas do comandante Che Guevara, herói, símbolo e precursor da revolução socialista continental. Também é um passo significativo que tende a retomar a tradição fraternal dos nossos povos, que souberam se irmanar e lutar como um homem só, contra os opressores do século passado, os colonialistas espanhóis.
    
Os povos do mundo vivem a permanente ameaça do imperialismo mais agressivo e ganancioso que já existiu. Presenciaram, não com indiferença, o genocídio organizado e dirigido pelo imperialismo ianque contra o heróico povo vietnamita. Nessa guerra desigual, cujas chamas ainda não se extinguiram, mostrou-se, de corpo inteiro, o caráter belicista e aleivoso do imperialismo do norte. Mas, nesta guerra, uma vez mais e em contrapartida, demonstrou-se a fraqueza do seu sistema e mesmo de todo o seu poderio militar perante um povo disposto a lutar e decidido a ser livre, a qualquer preço.
    
Os povos latino-americanos, desde o século passado até os dias de hoje, suportam o pesado jugo neocolonial dos imperialistas, e têm sofrido, consecutivamente, intervenções militares e guerras injustas executadas ou fomentadas pelo exército norte-americano ou pelos monopólios supranacionais.
    
Vemos o despojo do México, a ocupação de Porto Rico, a intervenção em S. Domingos, vimos praia Girón e muitos acontecimentos bélicos que a nossa América não esquece e nunca perdoará.
    
E vemos a Shell, a Esso, a Standard Oil, a United Fruit, a ITT, o dinheiro de Mr Rockfeller e de Mr Ford. E vemos a CIA que, com Papy Shelton, Mitrione e Siracusa, deixou marcas indeléveis da política avassaladora e prepotente dos EUA contra o movimento popular na América Latina.
    
Em 1 de janeiro de 1959, com o triunfo da Revolução Cubana, iniciou-se a marcha final dos povos latino-americanos para o socialismo, para a verdadeira independência nacional, para a felicidade coletiva dos povos.
   
É a justa e aberta rebelião dos explorados da América Latina contra um bárbaro sistema neocolonial capitalista imposto a partir do final do século passado pelo imperialismo ianque e europeu que, por meio da força, do engano e da corrupção apossaram-se do nosso continente. As covardes burguesias nativas e seus exércitos não souberam honrar o legado revolucionário libertador da gloriosa luta anticolonial dos nossos povos que, conduzidos por heróis como Bolivar, San Martin, Artigas e tantos outros, conquistaram a independência, a igualdade e a liberdade.
    
As classes dirigentes, defendendo interesses de grupos mesquinhos, uniam-se aos imperialistas, colaboraram com eles, facilitaram sua penetração econômica, entregando progressivamente o controle da nossa economia à insaciável voracidade do capital estrangeiro. A dominação econômica gerou o controle a subordinação política e cultural. Assim foi fundado o sistema capitalista neocolonial que há cem anos oprime, explora e deforma as classes trabalhadoras do nosso continente. 
    
Desde o princípio do século, a classe operária começou a se levantar contra esse sistema, desfraldando a então pouco conhecida bandeira do socialismo, unida de forma indissociável à bandeira da independência nacional, promovendo despertar dos camponeses, dos estudantes, de toda parte saudável e revolucionária de nossos povos.O anarquismo, o socialismo e o comunismo como movimentos organizados da classe operária,com energia e heroísmo tiveram um papel de vanguarda na mobilização de amplas massas, marcos inesquecíveis da lua revolucionária.

O legendário líder nicaragüense Augusto Cesar Sandino, operário metalúrgico, dirigiu, em seu pequeno país, uma das mais heróicas dessas batalhas, quando seu exército guerrilheiro colocou em xeque e derrotou as tropas intervencionistas norte-americanas em 1932. Nessa década de 1930 nossos povos desenvolveram em todo o continente um formidável auge de massas que colocou em xeque a dominação neocolonial homogeinezada pelo imperialismo ianque, inimigo número um de todos os povos do mundo.
    
A partir do formidável triunfo do povo cubano que, sob a condução de Fidel Castro e de um grupo de dirigentes marxistas-leninistas, conseguiu derrotar o exército de Batista e estabelecer na ilha de Cuba, nas barbas do imperialismo, o primeiro Estado Socialista latino-americano, os povos do continente fortaleceram sua fé revolucionária e iniciaram uma nova e profunda mobilização conjunta.
    
Na década de 60 sucederam-se ininterruptas lutas populares, violentos combates guerrilheiros, poderosas insurreições de massas.
    
A legendária figura de Che Guevara personificou e simbolizou todo esse período de lutas, e sua morte heróica abre e ilumina o novo auge revolucionário de nossos povos.
    

Mas o caminho revolucionário não foi simples nem fácil. Não devemos enfrentar unicamente a bárbara força econômica e militar do imperialismo. Inimigos e perigos mais sutis espreitam, a cada momento, as forças revolucionárias.
    
O nacionalismo burguês é uma corrente apoiada pelo imperialismo, que a utiliza como variante demagógica para distrair e desviar as lutas dos povos. Se núcleo social é constituído pela burguesia imperialista, que pretende enriquecer sem medida, disputando com a oligarquia e a burguesia tradicional os favores do imperialismo. Em sua postura enganosa manifestam um antiimperialismo verbal e tentam confundir as massas com sua tese nacionalista preferida: a terceira posição.
    
O reformismo difunde entre as massas nocivas idéias pacifistas e liberais, embeleza a burguesia nacional e os exércitos contra-revolucionários, com os quais constantemente tenta se aliar, exagera a importância da legalidade e do parlamentarismo. Um dos seus argumentos prediletos, é o de que é preciso evitar a violência relacionar-se com os “militares patriotas” em busca de uma via pacífica que evite derramamento de sangue das massas em seu caminho para o socialismo.
    
Sempre que o reformismo impôs sua política conciliadora e pacifista, as classes inimigas e seus exércitos executaram os piores massacres contra o povo. A experiência chilena, com mais d 20 mil e mulheres trabalhadoras assassinados, nos exime de maiores comentários.
    
Finalmente, estamos unidos pela compreensão de que não há estratégia viável na América Latina senão a estratégia da guerra revolucionaria. Que essa guerra revolucionária é um complexo processo de luta de massas, armado e não-armado, pacífico e violento, no qual todas as formas de lutas desenvolvem-se harmoniosamente, convergindo em torno do eixo da luta armada. A única possibilidade de triunfo é a luta armada como principal fator de polarização, agitação e, enfim, da derrota do inimigo. Isso não significa que deixarão de ser utilizadas todas as formas de organização e luta possíveis: a legal e a clandestina, a pacífica e a violenta, a econômica e a política, convergindo todas elas, com maior eficácia, na LUTA ARMADA, de acordo com as particularidades de cada região ou pais,pois o caráter continental da luta está marcado pela presença de um inimigo comum.
    
Vivemos momentos decisivos de nossa história. Conscientes disso, o MLN-Tupamaros, o Movimiento de Izquierda Revolucionário (MIR), o Exército de Libertação Nacional (ELN), e o Exército Revolucionário do Povo (ERP), chamam os trabalhadores latino-americanos, a classe operária, os camponeses pobres, os pobres das cidades, os intelectuais e os estudantes, os cristãos revolucionários, e todos os elementos provenientes das classes exploradas, dispostos a colaborar com a justa causa popular, a tomar, com decisão, as armas, e a incorporar-se ativamente à luta revolucionária antiimperialista e pelo socialismo, que está sendo realizada em nosso continente, com a bandeira e o exemplo do comandante Guevara.
    
Vitória ou Morte (ELN)
    
Pátria ou Morte/Venceremos (MIR)
    
Vencer ou Morrer pela Argentina (ERP)
    
Liberdade ou Morte (MLN-Tupamaros)
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O texto acima foi transcrito do livro “O Marxismo na América Latina – Uma Antologia de 1909 aos Dias Atuais”, escrito por Michael Lövy.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Anônimo disse...

Oportunismo Jornalístico UOL


A matéria de Josias de Souza (Corrupção ronda a Odebrecht desde a ditadura), é fora de contexto da época, e lê de forma simplória os movimentos políticos brasileiros, e geopolíticos relacionados ao Brasil.

A assinatura do Acordo Nuclear com a Alemanha Federal (1975) azedou as relações com os Estados Unidos, e capotaram de vez, com a posse de Jimmy Carter (1977-1981).

Pressionando o Governo Brasileiro com Base nos Direitos Humanos o Governo Carter pavimentou o caminho para a denúncia do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952), em 1977.

Com isto o governo Americano iniciou uma grande pressão e campanha de propaganda usando a oposição ao governo (MDB). E aproveitava para colocar na imprensa de esquerda alemã (Der Spiegel), matérias com acusações e denúncias sobre tudo, e qualquer assunto, que prejudicasse o governo brasileiro.

O foco principal era o cancelamento do Acordo Nuclear com a Alemanha. Muitos dos movimentos e comportamentos que vemos no caso do Almirante Othon, têm sua origem nesta época de extrema pressão americana.

Estas pressões continuaram durante a década seguinte.

Portanto o texto da CPI, de 1978-1982, tem de ser lido com esta contextualização. Caso contrário será um mero panfleto de jornalismo oportunista.

CPI - A Questão Nuclear - 1978

Fonte:

http://www.defesanet.com.br/nuclear/noticia/25492/CPI---A-Questao-Nuclear---1978/

Anônimo disse...

SIPRI - Gastos Mundial Defesa US$ 1,7 Trilhão I

O total de gastos militares no mundo aumentou para US$ 1,686 Trilhão, em 2016, um aumento de 0,4% em termos reais a partir de 2015, de acordo com novos dados do Instituto Internacional de Pesquisa para Paz, de Estocolmo (Stockholm International Peace Research Institute - SIPRI)

As despesas militares na América do Norte viram seu primeiro aumento anual desde 2010, enquanto as despesas na Europa Ocidental cresceram pelo segundo ano consecutivo.
SIPRI - Gastos Militares no Mundo - 2016
SIPRI - Trends in World Military Expenditure - 2016

SIPRI - Brasil cai uma posição II


Os cinco maiores orçamentos de defesa do Mundo são pela ordem segundo o SIPRI.

1 USA US$ 611 bi
2 China US$ [215] bi Estimado
3 Rússia US$ 69.bi
4 Arábia Saudita US$ [63.7] Estimado
5 Índia 55.9

Nota - O Brasil ocupa a 13ª posição com US$ 23,7 bi

Fonte:
http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/25501/SIPRI---Gastos-Militares-no-Mundo---2016/

Anônimo disse...

Direto do Mundo da Lua - A Nova Lei de Imigração Aprovada e Segue para Sanção Presidencial

Em vídeo gravado há dois anos, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB/SP) festeja a aprovação, pelo Senado, de seu alentado projeto de Lei de Migração. Boca torta pelo cachimbo de ex-guerrilheiro, o "Mateus" do assalto ao trem pagador da ferrovia Santos-Jundiaí (1968), diz:

"A imigração no Brasil, desde muito tempo, é regulada por uma outra lei, do tempo da ditadura. Toda baseada no conceito de segurança nacional (...). Daqui para a frente, imigrante será bem-vindo e nós criaremos condições para que ele se integre na comunidade brasileira".

E por aí vai o senador, falando diretamente do mundo da Lua para este em que Lula e Dilma nos deixaram.

Os globalistas dos PSDB aliados aos radicais de esquerda desmiolada aprovam leis inviáveis que são o caminho direto para confusões no futuro.

http://www.defesanet.com.br/front/noticia/25452/Direto-do-Mundo-da-Lua---A-Nova-Lei-de-Imigracao-Aprovada-e-Segue-para-Sancao-Presidencial/