terça-feira, 4 de abril de 2017

O Mito da Revolução


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Quando Churchil fez 80 anos, um repórter com menos de 30 foi fotografá-lo e disse: Sr Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos. Resposta de Churchil: Porque não? Você me parece bastante saudável.

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As revoluções merecem ser tão valorizadas? Os que assim pensam não são os mesmos que as fazem. Os que as começam raramente assistem ao seu epílogo, a não ser no exílio ou na prisão. Será a revolução verdadeiramente o símbolo de uma humanidade senhora de si, uma vez que ninguém se reconhece na obra resultante desse combate de todos contra todos?
    
Entende-se por revolução, na linguagem corrente da Sociologia, a substituição brusca, pela violência, de um Poder por outro. Se admitirmos essa definição, afastamos certas aplicações da palavra que criam equívocos ou confusão. Em uma expressão como “Revolução Industrial”, o que se evoca são simplesmente mudanças profundas e rápidas.
    
Em essência, a obra trabalhista não é revolucionária no mesmo sentido que se aplica o terror à obra dos bolcheviques.
    
Seria cabível falar de revolução por causa da brusquidão das mudanças ocorridas na esfera governante ou no estilo das instituições, apesar do caráter legal da transição? No outro extremo, mereceriam o qualificativo de revolução os pronunciamentos nas repúblicas sul-americanas, já que apenas substituem um militar por outro, no máximo um Oficial por um civil, ou vice-versa, sem marcar passagem real de uma classe dirigente para outra, nem de um modo de governo para outro? À reviravolta legalmente provocada falta a característica da ruptura constitucional, para que seja uma revolução. À substituição brusca, com ou sem lutas sangrentas, de um indivíduo por outro, com idas e vindas entre o palácio e a prisão, faltam as transformações institucionais. 
    
Não é necessário responder dogmaticamente a essas questões. As definições não são corretas nem erradas, e sim mais ou menos úteis e convenientes. Não existe, a não ser em um universo desconhecido, uma essência eterna da revolução: o conceito nos serve para perceber certos fenômenos e organizar o raciocínio.
    
Parece-nos razoável reservar a expressão de Golpe de Estado tanto para a mudança de uma Constituição decretada ilegalmente pelo detentor do Poder, quanto pela tomada do Estado por um grupo de homens armados, sem que esse assalto – sangrento ou não – provoque a chegada de outra classe dirigente, vinculada a outro regime. A revolução implica mais do que um “caia fora que eu quero o seu lugar”.

A ascensão de Hitler, porém, foi revolucionária, mesmo que ele tenha sido legalmente nomeado pelo presidente Hindenburg. O emprego da violência ocorreu depois da ascensão e não antes, de modo que estão ausentes certas características jurídicas do fenômeno revolucionário. Sociologicamente, estão presentes os traços essenciais: o exercício do Poder por uma minoria que elimina de modo implacável os adversários, cria um Estado novo e sonha transfigurar a Nação.
   
Por si sós, têm significado bem medíocre essas brigas por causa de palavras, mas freqüentemente a discussão em torno delas revela a essência do debate. 
   
Muitos negavam a idéia de que o nacional-socialismo fosse uma revolução porque o julgavam contra-revolucionário. Podemos falar de contra-revolução quando o antigo regime é restaurado, quando os homens do passado voltam ao Poder, quando as idéias ou instituições que os revolucionários de hoje trazem são aquelas que os revolucionários de ontem eliminaram. Mesmo assim, são muitos os casos marginais. A contra-revolução nunca é uma total restauração e qualquer revolução sempre nega parcialmente a que a precedeu, apresentando, com isso, algumas características contra-revolucionárias.

Mas nem o fascismo e nem o nacional-socialismo foram total ou essencialmente contra-revolucionários. Retomaram alguns bordões dos conservadores, sobretudo os argumentos utilizados contra as idéias de 1789. Os nacional-socialistas, porém, iam contra a tradição religiosa do cristianismo e a tradição social da aristocracia e do liberalismo burguês: a “fé alemã”, o controle das massas, o princípio da supremacia do líder, têm um significado propriamente revolucionário. O nacional-socialismo não representava uma volta ao passado e rompeu com ele tão radicalmente quanto o comunismo.
    
Na verdade, quando se fala de Revolução, quando nos perguntamos se determinada ascensão brusca e violenta ao Poder é digna ou não de entrar no templo em que se encontram 1789, os “três gloriosos” dias de julho de 1848 e os “dez dias que abalaram o mundo”, referimo-nos mais ou menos conscientemente a duas idéias: as revoluções, tais como as observamos em diversos países – sangrentas, prosaicas, decepcionantes -, só se filiam à Revolução com a condição de terem uma ideologia de esquerda, humanitária, liberal, igualitária. Só se cumprem plenamente se conseguirem a derrubada das relações atuais de propriedade. No plano da história, essas duas idéias são simples preconceitos.
    
Toda mudança de regime subia e brutal causa fortunas e falências, igualmente injustas, e acelera a circulação de bens e de elites, sem necessariamente trazer uma concepção do direito de propriedade. De acordo com o marxismo, a supressão da propriedade privada dos meios de produção constitui o fenômeno essencial da Revolução. Mas nem no passado nem na nossa época a queda de tronos e de repúblicas, com a conquista do Estado por minorias ativas, coincidiu sempre com uma reviravolta das normas jurídicas. 
    
Não podemos considerar inseparáveis a violência e os valores de esquerda: o contrário estria mais perto da verdade. Um poder revolucionário é, por definição, um poder tirânico. É exercido ignorando as leis, exprime a vontade de um grupo mais ou menos numeroso, não se preocupa, e não deve se preocupar com os interesses de determinada parte do povo. A fase tirânica dura mais ou menos tempo, segundo as circunstâncias, mas nunca se chega a evitá-la ou, mais exatamente, quando se consegue, trata-se de reforma e não de Revolução. A tomada e o exercício do Poder pela violência supõem conflitos que a negociação e o compromisso não conseguem resolver, ou seja, são o fracasso dos procedimentos democráticos. Revolução e Democracia são noções contraditórias.
    
Em vez de decididamente escolherem uma direção, as revoluções provavelmente continuarão inseparáveis do caminhar das sociedades. Com freqüência, uma classe dirigente trai a coletividade da qual supostamente deve cuidar, recusando-se a compreender as exigências dos novos tempos.
    
Os reformadores da era Meji, no Japão, e o líder turco Kemal Atatürk expulsaram uma classe dirigente em decadência para renovar uma ordem política e social. Não poderiam ter levado a bom termo sua obra, em tão pouco tempo, se não tivessem destruído as oposições e imposto, pelo uso da força, uma concepção que a maioria da Nação teria provavelmente recusado. Nem todos os governantes que rejeitam a tradição e a legalidade para renovar os seus países são tiranos. Pedro, o Grande, e o Imperador do Japão, eram soberanos legítimos quando assumiram uma tarefa comparável a de Kemal Atatürk e, de certa maneira, a dos bolcheviques.
    
A paralisia de um Estado, o desgaste de uma elite, o anacronismo das instituições tornam, às vezes inevitável, e outras vezes desejável o uso da violência por uma minoria. O homem sensato deveria preferir a terapêutica à cirurgia e as reformas à Revolução, como deve preferir a paz à guerra e a democracia ao despotismo. A violência revolucionária pode, às vezes, parecer o acompanhamento pu a condição necessária para mudanças em conformidade com o seu ideal. Mas não pode ter um bem em si.
    
Um intelectual de alto nível certamente admitiria que a multiplicação de golpes de Estado em certos países é um sintoma de crise e uma caricatura do espírito progressista. Ele talvez aceitasse, não sem algum desconforto, que a continuidade constitucional, desde o século XVIII, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, foi bem vantajosa. Haveria também de reconhecer que a tomada do Poder pelo fascismo ou pelo nacional-socialismo, prova que os mesmos meios – a violência, a onipotência de um partido – não são em si elogiáveis, mas podem ser empregados para fins horríveis. Guardaria ainda a esperança, ou o desejo, de uma revolução, a única realmente autêntica, que não visasse substituir um Poder por outro, e sim derrubar, ou pelo menos humanizar todos os Poderes.
    
Infelizmente, a experiência negou-se a apresentar o exemplo da Revolução em conformidade com a profecia marxista ou com as esperanças humanitárias. As revoluções que não fracassaram pertencem a espécies já identificadas: a primeira Revolução Russa, a de fevereiro, assinala o desmoronamento de uma dinastia desgastada pelas contradições entre o absolutismo tradicional e o progresso das idéias, desgastada também pela incapacidade do Czar e pelas conseqüências de uma guerra interminável; a segunda Revolução Russa, a de novembro, é a tomada do Poder por um partido minoritário decidido e armado, graças à desorganização do Estado e ao desejo de paz do povo.

A classe operária, pouco numerosa, teve uma participação importante, sobretudo na Segunda Revolução; na guerra civil, a hostilidade dos camponeses em relação aos contra-revolucionários foi certamente decisiva. Na China, a classe operária, ainda menos numerosa em termos relativos, não forneceu o grosso das tropas do Partido Comunista, que se enraizou nos campos. Foi onde ele recrutou seus soldados e preparou suas vitórias; os intelectuais, bem mais que os operários, assumiram as diretorias das empresas. A visão das classes sociais em procissão, passando a tocha uma à outra, é apenas fantasia histórica para uso das crianças. 
    
As revoluções que reivindicam ter laços com o proletariado, como todas as revoluções do passado, marcam a substituição violenta de uma elite por outra. Não apresentam característica nenhuma que nos permita saudá-las como o fim da pré-história.   
    
Uma reforma muda coisas. Uma revolução parece capaz de mudar tudo, já que se ignora o que ela vai mudar. Para o intelectual que busca na prática uma diversão, um objeto de fé ou um tema de especulação, a reforma é tediosa e a revolução excitante. Uma é prosaica e a outra, poética. Uma é supostamente obra de funcionários púbicos e a outra, do povo, em revolta contra os exploradores. A Revolução suspende a ordem costumeira e faz com que tudo pareça possível.
    
Para concluir, diz-se que o verdadeiro comunista e revolucionário é aquele que aceita toda realidade soviética, na linguagem que lhe é ditada.
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O texto acima foi transcrito do livro O Ópio dos Intelectuais, escrito por Raymond Aron e publicado em 1955 – antes, portanto,  da invasão da Hungria pelos tanques soviéticos - . Raymond Aron (1905-1983) foi um filósofo, professor e ideólogo francês. É autor de As Etapas do Pensamento Sociológico eO Marxismo de Marx, entre outros livros.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

EIJY18 disse...

Parabéns ao autor do artigo!
Estou sempre acompanhando e lendo tudo do site Alerta Total.
De todos que acompanho, este é o mais realista e úti.
Mais uma vez.... parabéns!