domingo, 2 de abril de 2017

O Ópio dos Intelectuais


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O marxismo criou uma fórmula que, simultaneamente, garantia a continuidade e marcava a ruptura entre as esquerdas de ontem e as de hoje. O proletariado sucedeu à burguesia. Esta última havia rompido os grilhões do feudalismo, arrancado os homens dos laços comunitários locais, das fidelidades pessoais e da religião. Livres dos impedimentos e das proteções tradicionais, os indivíduos se viram entregues, sem defesa, à insensível mecânica do mercado e à onipotência dos capitalistas. O proletariado concluiria a libertação, restabelecendo uma ordem humana no lugar do caos da economia liberal.
    
Denunciar os trustes e as grandes concentrações dos meios de produção em mãos dos particulares passou a ser um dos temas favoritos da esquerda, que reivindica a sua origem popular e vitupera contra os tiranos. Os homens ligados aos trustes são a imagem moderna do senhor que oprime os simples mortais e faz pouco do interesse público. A solução aplicada pelos partidos de esquerda não foi a de desmanchar os trustes, e sim a de transferir ao Estado o controle de certos setores da indústria ou de certas empresas descomunais. Repitamos a objeção clássica: a nacionalização não suprime, mas freqüentemente acentua os inconvenientes econômicos do gigantismo.

A hierarquia técnico-burocrática em que se inserem os trabalhadores não se modifica com a mudança no estatuto da propriedade. A nacionalização elimina, é verdade, a influência política que os magnatas da indústria eram acusados de exercer nos bastidores, e que, de fato, às vezes exerceram. Subtraídos as dirigentes de trustes, os meios de ação passaram às mãos dos que controlam o Estado. As responsabilidades destes últimos tendem a crescer na medida em que diminuem as dos detentores dos meios de produção. Permanecendo democrático, o Estado corre o risco de ficar maior e, ao mesmo tempo, enfraquecer. Quando um grupo assume o controle do Estado, ele reconstitui e conclui, em benefício próprio, a combinação entre Poder Econômico e Poder Político que a esquerda criticava nos trustes.
    
O moderno sistema produtivo implica uma hierarquia, que chamaremos técnico-burocrática. No topo se situa o administrador ou manager, em vez de um engenheiro ou um técnico. As nacionalizações não protegem dos seus chefes o trabalhador, nem dos trustes o consumidor; apenas eliminam os acionistas, os membros dos conselhos de administração, os financistas, aqueles que tinham participação mais teórica do que real na propriedade ou que, pela manipulação dos títulos, conseguiam ter influência no destino das empresas. Não procuramos fazer um balanço das vantagens e dos inconvenientes dessas nacionalizações, e nos limitamos a constatar que, nesse caso, as reformas da esquerda modificam a divisão do poder entre os privilegiados, sem elevar os pobres ou fracos e sem rebaixar os ricos ou poderosos.    
    
A hierarquia técnico-burocrática, nas sociedades ocidentais, se limita a um setor do sistema de produção. Conserva-se uma quantidade de empresas de tamanho pequeno ou médio, a agricultura mantém várias posições - camponês, arrendatário, meeiro – e o sistema de produção superpõe gigantes e anões, com grandes redes e pequenos comércios locais. A estrutura das sociedades ocidentais é complexa: descendentes da aristocracia pré-capitalista, famílias ricas há várias gerações, empreendedores particulares, camponeses proprietários, todos envolvidos em uma rica variedade de relações sociais, e grupos independentes. Milhões de pessoas podem viver fora do Estado.

A generalização da hierarquia técnico-burocrática significaria a liquidação dessa complexidade: indivíduo algum estaria submetido a outro, e todos estariam submetidos ao Estado. A esquerda se esforça para libertar o indivíduo das servidões imediatas, mas pode acabar levando-o à servidão – distante em teoria, mas onipresente na prática – da administração pública. Vê-se que, quanto maior a extensão da propriedade coberta pelo Estado, menos este pode ser democrático, isto é, objeto de competição pacífica entre grupos relativamente autônomos. No dia em que a sociedade inteira for comparável a uma única empresa gigantesca, não se tornará irresistível para os homens no topo se livrarem da aprovação ou desaprovação das multidões de baixo?
    
Diante do despotismo anônimo do socialismo, o conservadorismo se torna aliado do liberalismo. Caso os freios herdados do passado falhem, nada mais se oporá ao estabelecimento de um Estado total.
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O texto acima foi transcrito do livro O Ópio dos Intelectuais, escrito por Raymond Aron e publicado em 1955 – antes, portanto,  da invasão da Hungria pelos tanques soviéticos - . Raymond Aron (1905-1983) foi um filósofo, professor e ideólogo francês. É autor de As Etapas do Pensamento Sociológico eO Marxismo de Marx, entre outros livros.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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