quarta-feira, 5 de abril de 2017

Proletariado - Definição


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Discute-se, com paixão, a definição exata do conceito de classe, talvez o mais corrente da linguagem política. Não vamos aqui entrar nessa discussão que, em certo sentido, não chega a conclusão alguma. Nada comprova a existência, antecipadamente circunscrita, de uma realidade única que deva ser batizada como classe. A discussão se torna menos necessária na medida em que ninguém ignora quem são, em uma sociedade moderna, aqueles que todos concordam em chamar de proletários: os assalariados que trabalham com as próprias mãos em fábricas.
    
Porque a definição de classe operária tantas vezes é considerada difícil? Definição nenhuma delimita claramente uma categoria. A partir de qual escalão da hierarquia o trabalhador qualificado deixa de pertencer ao proletariado? O trabalhador braçal dos serviços públicos é um proletário, apesar de ter o salário pago pelo Estado e não por um empreendedor privado? Os assalariados do comércio que manipulam objetos fabricados por outros, pertencem ao mesmo grupo dos assalariados da indústria? Não estamos interessados em responder dogmaticamente a essas perguntas: os diversos critérios não concordam uns com os outros.

Dependendo de considerarmos a natureza da profissão, o estilo de vida, ou o modo e o montante da remuneração, certos trabalhadores serão ou não incluídos na categoria de proletários. O mecânico de oficina, assalariado e manual, não tem a mesma situação nem a mesma visão da sociedade que o empregado de uma cadeia de montagem das fábricas Renault. Não existe uma essência do proletariado na qual alguns assalariados se incluem, e sim uma categoria, com centro definido, mas margens indistintas.
    

Essa dificuldade de delimitação não teria, por si só, suscitado tanta controvérsia. A doutrina marxista dá ao proletariado uma missão única: a de mudar a História, dizem uns, ou de levar a humanidade à sua realização, dizem outros. Como milhões de operários de fábrica, espalhados em milhares de empresas, podem desempenhar tal feito? Donde a necessidade de uma segunda investigação, não das fronteiras, mas da unidade do proletariado.
    
Não é difícil constatar, entre os trabalhadores manuais da indústria, alguns traços comuns, materiais e psicológicos: salários, repartição das despesas, estilo de vida, atitude com relação à profissão ou ao patrão, sentimentos dos valores, etc. Esse traço de união, objetivamente perceptível, é parcial.

Os proletários franceses, por exemplo, em alguns aspectos, diferem dos proletários ingleses e se parecem com os seus compatriotas. Os proletários que vivem em vilarejos ou cidades pequenas talvez tenham mais semelhança com os seus vizinhos do que com os colegas das cidades grandes. Ou seja, a homogeneidade da categoria proletária, com toda evidência, é imperfeita, mesmo que provavelmente seja mais nítida do que em outras categorias.
    
Essas observações banais explicam por que, entre o proletariado que a sociologia estuda e o proletariado que tem a missão de mudar a História, inevitavelmente subsiste um hiato. Para preencher esse hiato, o método em moda atualmente consiste em retomar as fórmulas marxistas: “O proletariado é revolucionário ou não é proletariado”. “É recusando a sua alienação que o proletário se torna proletário”.

“O que faz a unidade do proletariado é a sua relação com as outras classes da sociedade, quer dizer, a sua luta”. A partir do momento em que é definido por uma vontade geral, o proletariado ganha uma unidade subjetiva. Pouco importa o numero de proletários, em carne e osso, a participar dessa vontade: a minoria combatente encarna legitimamente o proletariado inteiro.
    
O uso que se faz dessa palavra provoca novos equívocos. O operário da indústria é apenas um exemplo, entre outros, desse gênero de pessoas, numerosas em períodos de desagregação, que sente um estranhamento com relação existente, se rebela contra a ordem estabelecida e é vulnerável ao apelo de profetas. No mundo antigo foram os escravos e os deportados que ouviram a voz dos apóstolos. Entre os trabalhadores dos subúrbios industriais, a prédica marxista ganhou seguidores aos milhões. Os não integrados são proletários, como são proletários os povos semibárbaros aliados na periferia da zona de civilização. 
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O texto acima foi transcrito do livro O Ópio dos Intelectuais, escrito por Raymond Aron e publicado em 1955 – antes, portanto,  da invasão da Hungria pelos tanques soviéticos -. Raymond Aron (1905-1983) foi um filósofo, professor e ideólogo francês. É autor de As Etapas do Pensamento Sociológico e O Marxismo de Marx, entre outros livros.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Isso é só para ela ter no curriculum a presidência do partido, como mulher. E do mesmo jeito, vai ser a primeira a ir para Curitiba.

JomaBastos disse...

Excelente tema!
Na sociedade moderna e atual em que vivemos quem são os proletários? São todos aqueles cidadãos, quer trabalhem para o privado, para o estado ou por conta própria (microempresários), que vivem com uma remuneração que poderá ser insuficiente para suprir todas as suas necessidades básicas.
A partir de quando um cidadão deixa de pertencer ao proletariado? Um cidadão deixa de pertencer ao proletariado a partir do momento em que a sua remuneração dê para suprir sem qualquer aperto suas necessidades básicas e ter uma vida socioeconomicamente normalizada.
O objetivo de partidos comunistas ou esquerdas radicais, é o de não dar oportunidades ao proletariado para que este possa se desenvolver profissionalmente, quer seja através de educação acadêmica, profissional ou de aprimorar seu potencial e capacidades, com a finalidade de fazer desta "classe" socioeconômica seus "soldados" revolucionários marxistas.
É isto vem acontecendo no Brasil?!