terça-feira, 23 de maio de 2017

Carlos Lacerda – o maior homem do meu tempo

Carlos Frederico Werneck de Lacerda

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Dizia Lacerda: “Ao pensar na política, eu sentia o que o toureiro sente quando encara o touro. É o que fascina e aterroriza, a força que usará contra você. Fui a terceira geração de uma família de políticos, e a vida nas touradas é fogo”

Em seu governo, no Estado da Guanabara (fundida com o Estado do Rio de Janeiro), em uma determinada manhã, Carlos Lacerda dirigiu-se a uma das favelas que estava trabalhando para remover, a Favela do Cantagalo, situada em uma avenida às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era um conjunto deprimente. Barracos de madeira, aglomerados uns ao lado dos outros, morro acima, construídos precariamente, sem nenhuma segurança, nem higiene.
    
A água de lavar e de beber era tirada de uma ou duas bicas instaladas na parte baixa, e conduzidas para os barracos, em latas, equilibradas no alto da cabeça pelas mulheres, que escalavam penosamente a encosta, ziguezagueando por íngremes caminhos.
    
O lixo era arrasado morro abaixo pelas chuvas, ou carregado em sacos despejados às margens da Lagoa.
    
Já estavam quase prontos os apartamentos construídos pelo governo do Estado, para alojar os favelados do Cantagalo. A despeito das favelas, havia resistência, pois as novas habitações destinadas aos moradores ficavam distantes dos locais de trabalho da maioria.
    
À mesa, almoçando, Lacerda, olhar brilhante, contava:
    
- Hoje fui lá, e falei com as mulheres.  A maioria também trabalha por perto, mas elas querem se mudar. Querem muito. Não agüentam mais ver os filhos crescerem em meio à imundície, pegando doenças, respirando fedor. Tenho certeza de que elas irão convencer os maridos.
    
A mudança, afinal, foi feita em clima consensual e ordeiro. Nos lugares onde estavam as favelas, foram construídos parques arborizados.
    
Em outra favela, perto do estádio do Maracanã, foi construída, ainda no governo Carlos Lacerda, uma Universidade, a então Universidade do Estado da Guanabara, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
    
Depois que as mudanças da favela do Cantagalo, e de outra, nas mesmas condições, no morro do Pasmado, foram completadas, os barracos desocupados foram queimados.
    
Por isso, Lacerda chegou a ser chamado de Nero por seus inimigos, e circulou o boato de que pertences dos moradores e, possivelmente algumas pessoas tivessem sido carbonizados.
     
O certo é que o governador Carlos Lacera deixou à Cidade-Estado um legado precioso e duradouro. Nunca houve, no Brasil, qualquer governo municipal, estadual, ou mesmo federal, melhor ou igual ao do Estado da Guanabara, nos cinco anos em que foi governado por Carlos Lacerda.  
   
Seu governo não se resumiu a isso. Os dois Carlos – Carlos Lacerda e seu Secretário de Educação, Carlos Flexa Ribeiro –, compreenderam a importância fundamental da educação e, durante seu período de governo, construíram escolas públicas, quase uma por semana, admitiram professores, criaram sistemas de controle da obrigatoriedade escolar, de tal sorte que, quando deixaram seus cargos, o Estado da Guanabara era o Estado do Brasil com o melhor índice de escolaridade, à frente de todos os demais.
    
Uma outra medida deve ser citada: os Cartórios eram, à época, verdadeiros feudos, com que os governantes obsequiavam seus amigos, garantindo-lhes, para o resto da vida, uma forma segura de renda, com pouco trabalho. Inclusive, recordo que o presidente Juscelino deu um cartório de presente a uma sua sobrinha. Lacerda estatizou os Cartórios. Simples assim...
    
Em seu livro de recordações – A Casa do meu Avô -, incluiu, à última hora, uma dedicatória para seu irmão, então recentemente falecido. Dizia:
    
Ao meu irmão Maurício
Que se livrou da melancolia
Pela bondade irônica; e da amargura
Pela tolerância generosa; da solidão,
 
Pela capacidade singular que assinalou sua vida
Aquela marca que imprimiu
Na vida das pessoas a que se dedicou
Com infatigável vigilância crítica
Mas incessante vontade de amar e compreender
 

A sua força exemplar no sofrimento
A elegância com que procurava nos enganar
Sobre a certeza do seu fim tão próximo
A tímida ternura que disfarçou
Sua permanente doação

A esse homem que empurrou com suas próprias mãos
Estreitos horizontes e devassou mil lembranças
Na rara combinação de rígidos deveres
A cujos apelos atendeu
E uma amável inclinação pelo prazer
A que felizmente se rendeu,
Realizando assim o impossível equilíbrio
  
A esse homem quase sem biografia
O entanto dotado de tão grande vida,
A tantos que o amaram assim tomada
Na sua hora mais feliz

Quanto mais perto do fim chegamos, ele e eu,
 
Mais próximos estamos um do outro
Pelos encontros e descobrimentos
Da nossa infância, tantas vezes separada

O domínio das palavras, tantas vezes utilizado para discursos políticos candentes, era também um meio de vivenciar, ocultando e revelando, a um só tempo, a imensa afetividade e a melancolia que habitavam o fundo de sua alma.

Do texto, lido em retrospecto, duas frases ficaram marcadas: a referência à “incessante vontade de amar e compreender”, traço definidor agudamente descrito, da personalidade generosa de seu irmão, depois registrado no epitáfio, gravado na lápide de seu túmulo: “amou e compreendeu”.

E outra, que não se consegue ler de outra forma que não como uma misteriosa e lúgubre premonição – “quanto mais perto do fim chegamos ele e eu”.

Sim, porque lhe restavam, naquele momento, sem qualquer indicação objetiva visível, não mais que seis meses de vida. Nasceu no Rio de Janeiro, mas foi registrado em Vassouras, em 30 de abril de 1914. Faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1977 (63 anos).
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Com dados extraídos do livro “Meu Tio Carlos Lacerda”, de autoria de Gabriel Lacerda, advogado aposentado, professor na Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas. Este é seu vigésimo livro.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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