domingo, 21 de maio de 2017

Esquerda, Revolução Proletariado...


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Esquerda, Revolução, Proletariado, esses conceitos em moda são réplicas tardias dos grandes mitos que outrora animaram o otimismo político: progresso, razão, povo.

A esquerda, que engloba todos os partidos situados de um lado do hemiciclo e supostamente têm objetivos constantes e uma vocação eterna, existe desde que o futuro valha mais do que o presente e a direção do devir das sociedades seja, de uma vez por todas, fixada.O mito da esquerda pressupõe o do progresso, do qual ele guarda a visão histórica sem demonstrar a mesma confiança: a esquerda jamais deixa de ter à sua frente, barrando o caminho, a direita, nunca vencida e nem convertida.
    
Essa luta, de resultado incerto, o mito da revolução vê como fatalidade. Só pela força se pode quebrar a resistência dos interesses ou das classes hostis aos “amanhãs que cantam” (essa expressão entrou para o uso corrente como “promessa de dias melhores”). Tudo indica que revolução e razão são diametralmente opostas: esta evoca o diálogo, aquela a violência. Pode-se discutir e acabar por convencer o outro ou desistir de convencer e apelar para as armas. Mas a violência foi e continua a ser o último recurso de certa impaciência racionalista. Os que conhecem a forma que deveriam ter as instituições se irritam com a cegueira de seus semelhantes, perdem esperança na palavra e esquecem que os mesmos obstáculos que hoje a natureza dos indivíduos e das coletividades levanta, surgirão amanhã, encurralando os  revolucionários, já senhores do Poder, à alternativa entre o compromisso ou o despotismo. 
    
A missão, atribuída ao proletariado, demonstra menos fé do que virtude, outrora atribuída ao povo. Acreditar no povo era acreditar na humanidade. Acreditar no proletariado é acreditar nos eleitos pela infelicidade. A condição inumana estabeleceria a salvação de todos. Povo e proletariado simbolizam a verdade dos simples, mas o povo permanece, por direito, universal – concebe-se, no limite, que até os privilegiados sejam incluídos nessa comunhão -, e o proletariado é uma classe, entre as demais, que triunfa liquidando outras classes, e só se confundirá com o conjunto social após lutas sangrentas. Quem fala em nome do proletariado reencontra, através dos séculos, os escravos lutando contra os senhores, e não espera mais o advento progressivo de uma ordem natural, mas cona com a suprema revolta para eliminar a escravidão.
    
Essas três noções exigem uma interpretação sensata. A esquerda é o partido que não se resigna à injustiça e mantém, contra as justificativas do Poder, os direitos da consciência. Uma revolução é um acontecimento lírico ou fascinante – sobretudo na lembrança -, freqüentemente inevitável, e seria tão deplorável desejá-la por si só quanto sempre condená-la: nada indica que as classes dirigentes tenham aprendido a lição ou que se possa afastar governantes indignos sem violar as leis e ter que apelas para os soldados. O proletariado, no sentido preciso da massa operária, criada pela grande indústria, não recebeu de ninguém, a não ser de um intelectual imaginário da Alemanha, refugiado na Grã-Bretanha na metade do Século XIX, a missão de “mudar a História”, mas representa, no Século XX, nem tanto a classe imensa das vítimas, como a multidão de trabalhadores, que os administradores organizam e os demagogos controlam.
    
Essas noções deixam de ser razoáveis e se tornam míticas em conseqüência de um erro intelectual.
    
Para restabelecer a continuidade da esquerda através dos tempos, ou disfarçar a divisão das esquerdas a cada época, esquecem-se a dialética dos regimes, o desligamento dos valores de um Partido para outro, a retomada, pela direita, dos valores liberais contra a planificação e o centralismo, e a necessidade de se estabelecer, entre objetivos contraditórios, um compromisso ponderado.
    
A experiência histórica do Século XX revela a freqüência e as causas das revoluções na era industrial. O erro consiste em dar à revolução uma lógica que ela não tem, nela enxergar a conclusão de um movimento em conformidade com a razão de esperar benefícios incompatíveis com a essência do acontecimento.  Há casos em que, após a explosão, a sociedade volta à paz e o balanço final é positivo. Mas o meio se mantém, como tal, contrário às finalidades visadas. A violência de uns contra outros é a negação, eventualmente necessária, e sempre evidente, do reconhecimento recíproco, que deve unir os membros de uma coletividade. Ao desenraizar respeitos e tradições, a violência pode destruir o fundamento da paz entre os cidadãos.  
    
O proletariado não pode deixar de reivindicar e obter um lugar nas comunidades do nosso tempo. Ele apareceu, no Século XIX, como burro de carga das sociedades industriais. O progresso econômico fez do proletariado, no Ocidente, o escravo mais livre e bem remunerado da História. O prestígio da infelicidade devia ser transferido para as minorias mais maltratadas do que ele, servidor das máquinas, soldado da Revolução, o proletariado, como tal, nunca é o símbolo, nem o beneficiário e nem o dirigente de um regime, qualquer que seja. É a mistificação para uso dos intelectuais que leva a batizar de proletariado o regime cujos poderes evocam a ideologia marxista.
    
Esses erros têm como origem comum o otimismo, no plano do sonho, e do pessimismo, no plano real.
    
Confia-se em uma esquerda que está sempre a recrutar os mesmos homens, a serviço das mesmas causas. Não se cansa de odiar uma direita eterna, que defende interesses sórdidos ou é incapaz de decifrar os sinais dos tempos futuros. Os dirigentes da esquerda se situam no meio da hierarquia, mobilizam os que estão abaixo para afastar os que estão acima. São semi-privilegiados e representam os não privilegiados, até à vitória, que os tornará privilegiados. Não é uma aula de cinismo que tiramos dessas banalidades, pois nem os regimes políticos nem os sistemas econômicos são equivalentes. Mas o bom senso manda que não se transfigure uma palavra dúbia ou um ajuntamento mal definido, concedendo-lhes uma glória que pertence apenas às idéias. Com tal freqüência implantou-se o despotismo evocando a liberdade que a experiência aconselha que se compare a obra dos partidos mais do que o seu programa, evitando declarações de fé ou condenações sumárias, nesse combate incerto, em que a linguagem disfarça o pensamento, e em que os valores são constantemente traídos.  
    
É um erro esperar de uma catástrofe triunfal a salvação e é um erro perder a esperança na vitória das lutas pacíficas. A violência ajuda a queimar etapas, libera energias, favorece o surgimento de talentos, mas também derruba as tradições que limitavam a autoridade do Estado, e dissemina o gosto e o hábito de buscar soluções por meio da força. É necessário tempo para curar os males deixados por uma Revolução, mesmo quando esta cura os males do regime que foi abolido. Depois do naufrágio do Poder legítimo, um grupo de pessoas, às vezes um só indivíduo, toma a seu encargo o destino comum para que, dizem os seus fiéis, para que a Revolução não morra. É verdade que, na luta de todos contra todos, um chefe deve vencer para restabelecer o principal bem, a segurança. Por que um evento, como a guerra, elimina o diálogo e abre todas as possibilidades, por negar todas as normas, traria, em si, a esperança da humanidade.   
                  ________________________
      
 
O texto acima foi transcrito do livro “O Ópio dos Intelectuais”, escrito por Raymond Aron e publicado em 1955 – antes, portanto,  da invasão da Hungria pelos tanques soviéticos
 - . Raymond Aron (1905-1983) foi um filósofo, professor e ideólogo francês. É autor de As Etapas do Pensamento Sociológico e O Marxismo de Marx, entre outros livros.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Com a progressiva automação, não sobrará proletariado para se insurgir. Com o transumanismo, nem as categorias que substituíram o proletariado na agenda de lutas da esquerda terão voz. A radicalização da esquerda só fez acelerar a pesqusa dos dominadores em direção ao domínio completo.