terça-feira, 16 de maio de 2017

O Novo julgamento de Carlos – o Chacal


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Carlos, 'O Chacal' está preso na França desde 1994.
De volta ao banco dos réus, ele se negou a dizer que seu nome real é Ilich Ramírez Sánchez. Mas isso fez pouca diferença, afinal a alcunha "Carlos, o Chacal" é bem mais ressonante e conhecida mundo afora.

Desde segunda-feira, o homem que chegou a ser o criminoso mais procurado do mundo enfrenta seu terceiro julgamento. Ele ficou famoso nos anos 1970 e 1980 como autor de uma seqüência de atentados que causou pânico na França e em outras partes da Europa.

As ações ocorreram em nome da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), uma organização militar de orientação marxista. E tornaram Ramírez um de seus militantes mais temidos.

Por causa desses ataques, ele cumpre pena de prisão perpétua no presídio de Poissy, na periferia de Paris.

Ele ganhou tanta notoriedade que a imprensa o apelidou com o nome do terrorista fictício do romance O Dia do Chacal (1971), de Frederick Forsyth.
Mas afinal, como esse venezuelano de 67 anos acabou lutando pela causa palestina e por que ele se proclama "revolucionário profissional"?
Ramírez nasceu em 1949, em Caracas, capital venezuelana. Seu pai era um advogado rico que simpatizava com a ideologia marxista e militava no Partido Comunista da Venezuela.

Isso explica a origem de seu nome e o de seus dois irmãos - Lenin e Vladimir, em homenagem a Vladimir Ilich Uliánov, conhecido como Lenin.
Os irmãos Ramírez estudaram em Londres. Em 1968, Lenin e Ilich viajaram para Moscou, onde passaram pela Universidade Patrice Lumumba, conhecida como "jóia do ensino" da antiga União Soviética, que atraía jovens comunistas do mundo inteiro.

Lá começou sua simpatia pela causa palestina.

Em 1970, Ilich foi expulso da universidade e decidiu participar de um treinamento militar na Jordânia, em um acampamento da FPLP.
Pelo que conta em sua biografia, foi ali que o líder do braço armado da FPLP, Wadih Haddad, deu-lhe o nome de guerra "Carlos".

Da Jordânia, voltou à capital inglesa para morar com a mãe e irmãos. Ali, passou a se dedicar a tarefas de Inteligência da FPLP.

O alvo de seu primeiro ataque foi o empresário britânico Joseph Sieff, uma conhecida figura da comunidade judaica, dono da cadeia de lojas Marks & Spencer e líder da Federação Sionista da Grã-Bretanha.

Em 30 de dezembro de 1973, Ramírez chegou armado à casa de Sieff, localizada em St. John's Wood, bairro rico de Londres. Quando Manuel Perloira, um jovem mordomo português respondeu à campainha, Ramírez apontou a arma e ordenou a ele que o levasse a Sieff.

Após encontrar o empresário no banho, deu um tiro em seu rosto com uma pistola semi-automática soviética Tukarev. E fugiu em seguida, pois a pistola parou de funcionar.

O ataque deixou Sieff inconsciente, mas não o matou.
Em 1974, Ramírez mudou-se para Paris - sua família voltou de Londres para a Venezuela no ano seguinte. E foi na França que ele cometeu a maior parte dos atentados que o fizeram um dos fugitivos mais procurados do mundo, e que tornaram conhecido o codinome "O Chacal".

Como líder de uma célula armada da FPLP, ele participou de ataques com carros-bomba contra redações de vários jornais de Paris.
O atentado mais notório veio em 1974: a tomada da Embaixada da França em Haia, na Holanda, em que o embaixador e mais dez pessoas foram mantidos reféns por cinco dias.

Carlos foi preso em 1994 no Sudão.

Apesar de a tomada da Embaixada ter sido realizada pelo Exército Vermelho Japonês, um grupo comunista ligado à FPLP, as autoridades francesas consideraram que Carlos fora o autor intelectual do crime.
Após longas negociações envolvendo os governos da Holanda e da França, os reféns foram trocados pela libertação de um membro do Exército Vermelho Japonês que estava preso na França, além de um montante em dinheiro e um vôo para fora da Holanda.

Poucos meses depois, Ramírez protagonizou uma fuga típica de cinema quando policiais tentaram prendê-lo em sua casa.

O venezuelano, que tinha 26 anos, compartilhava um apartamento com vários estudantes sul-americanos na rua Toulliers, no Quartier Latin, em Paris.

Agentes da Direção de Vigilância do Território (DST, na sigla em francês) chegaram a ele depois de deter e interrogar o libanês Michel Moukharbal, líder do FPLP, que denunciou Ramírez como sendo o verdadeiro chefe do grupo.

Três policiais da DST foram com Moukharbal ao local, onde Ramírez participava de uma festa com amigos. Mas "O Chacal" estava armado, e conseguiu fugir após disparar contra os agentes.

Dois dos policiais e Moukharbal morreram - crimes que eventualmente levaram Ramírez a receber sua primeira sentença de prisão perpétua, anos depois, quando foi preso.

Mas antes que isso ocorresse, o "revolucionário profissional" - como ele mesmo se autodenomina - perpetrou uma longa lista de atentados sangrentos.

Um dos mais conhecidos foi a tomada da sede da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), em Viena, na Áustria, em 1975.
Um grupo liderado por Ramírez tomou 42 pessoas como reféns, incluindo 11 ministros de Petróleo dos países da Opep. Ele os levou de avião por vários países do norte da África, até finalmente liberá-los na Argélia.

Anos depois, já preso na França, Ramírez afirmou que essa operação foi ordenada pelo líder líbio Muammar Khadafi, que queria pressionar a Arábia Saudita e os Estados Unidos, que haviam se aliado em um "jogo sujo" para reduzir o preço do petróleo.

"Taticamente, não acabou como tínhamos planejado, foi um fracasso. Estrategicamente, foi um êxito extraordinário", disse Carlos, por telefone, numa entrevista à agência de notícias Efe em 2015, da prisão.
Nos anos de 1980, ele continuou planejando e executando atentados - e escapando das autoridades, mesmo estando na lista dos mais procurados do mundo.

Com bombas colocadas em carros, trens e estações de trem em Paris e Marselha, esses ataques deixaram 11 mortos e quase 200 feridos entre 1982 e 1983.

Por esses crimes, Carlos recebeu sua segunda sentença de prisão perpétua, em 2011.

Mas ele só foi preso em 1994, vinte anos depois da primeira tentativa frustrada de detê-lo.

Estava no Sudão, onde havia recebido refúgio - desde a queda da União Soviética, no começo dos anos 1990, suas ações estavam concentradas no Oriente Médio.

Carlos foi capturado por uma tropa de elite francesa - segundo ele, com a ajuda da Inteligência dos Estados Unidos -, que o levou ao país europeu, onde permanece preso desde então.

Posteriormente, ele voltou ao banco dos réus para seu terceiro julgamento - desta vez, por causa de um ataque a granada contra um shopping de Paris. Na ocasião, duas pessoas morreram e 34 ficaram feridas.

Como em seu julgamento anterior, Carlos negou, na primeira audiência, as acusações. E o fez por meio de sua advogada, Isabelle Coutant-Peyre, que desde 2011 também é sua mulher.

Segundo a agência francesa de notícias AFP, ele aproveitou a audiência para criticar a "falta de democracia na França" e elogiar a Venezuela, onde haveria "uma verdadeira democracia participativa".

Carlos chegou a pedir sua extradição para a Venezuela, mas, segundo Vladimir, seu irmão mais novo, o país sul-americano nunca fez o pedido.
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O texto acima é de autoria de
 Veronica Smink da BBC Mundo


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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