domingo, 14 de maio de 2017

O Princípio da Reciprocidade Ideológica


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por José Padilha

Inicialmente concebido para explicar os sistemas de dádivas e de contradádivas nas sociedades primitivas, o conceito de reciprocidade se generalizou nas ciências sociais até alcançar o status de princípio estruturante das relações humanas, sendo aplicável não somente às relações materiais de troca nas sociedades primitivas, mas também a várias relações institucionais nas sociedades agrícolas e industriais.

A reciprocidade explicaria assim diversos fenômenos: o escambo, a lógica dos ciclos de vingança, o mercado, a moral e até mesmo a justiça.
De forma simplificada, pode-se dizer que na base do conceito de reciprocidade está a ideia de que indivíduos e grupos sociais tendem a internalizar valores, comportamentos e normas que os levam a buscar algum tipo de equilíbrio com os demais membros da sua sociedade. Sempre que este equilíbrio é rompido, eles se sentem compelidos a restaurá-lo. A balança como símbolo da Justiça ilustra bem esta ideia.

Pois bem, opera nos meios intelectuais do Brasil um estranho princípio de reciprocidade: o princípio da reciprocidade ideológica. Explico: a Lava-Jato revelou que existe, no âmago da democracia brasileira, um mecanismo que transfere recursos da sociedade civil para quadrilhas formadas por fornecedores do Estado e partidos políticos. Esta revelação gerou uma forte demanda para que os operadores do mecanismo sofram penas compatíveis com os danos que causaram.

Todavia e estranhamente, gerou também, sobretudo dentro da classe dos formadores de opinião, um clamor pela manutenção de um certo “equilíbrio ideológico” no âmbito das punições destes políticos e de seus partidos. O Lula vai para a cadeia? Então o Aécio tem que ir também. O PT foi punido? Tem que punir o PSDB. (Como o PMDB não tem ideologia, seus políticos ficam à margem deste debate.)

Não me pergunte por que opera no Brasil tal princípio. Não sei dizer. Apenas constato a sua existência e a enorme confusão que tem criado dentre nossos formadores de opinião.

É evidente que Lula, Dilma e o PT desviaram grande volume de recursos públicos em conluio com lideranças do PMDB. Nenhuma pessoa razoável consegue negar isto face as evidências disponíveis. Aplicada a lei, deveriam ser presos. No entanto, exige do princípio da reciprocidade ideológica que líderes do PSDB sejam presos também.

E como ainda não está claro que isto acontecerá no âmbito da Lava-Jato, os pensadores de esquerda se veem premidos a postular mirabolantes teorias conspiratórias para negar que Lula e o PT sejam corruptos, acusando a mídia, os procuradores e os juízes da Lava-Jato de tortura e de perseguição. Alguns chegam até a relativizar a corrupção, argumentando que, se todos são corruptos, melhor ficar com os que têm consciência social, como se uma coisa não excluísse a outra.

O que explica este estranho fenômeno? O princípio da reciprocidade ideológica, é claro.

De fato, acho que este princípio está tão arraigado no Brasil que estou convencido de que até os ministros do STF o levam em consideração. Eles não querem que Lula seja preso sem que possam oferecer a cabeça de algum cardeal da direita como modesta compensação.

Se eu estiver correto, a julgar pelo depoimento de Lula e pelas delações de Mônica Moura e de João Santana, o STF deve estar se preparando para condenar algum político importante do PSDB no âmbito dos processos apresentados pela PGR antes do que se imagina. Candidatos é que não faltam.

Seria uma ótima notícia. O PSDB sofreria um baque e Lula poderia ser preso sem que o princípio da reciprocidade ideológica fosse contrariado. Dois passos necessários, embora não suficientes, para a renovação da política em nosso país.


José Padilha é Cineasta. Produz a série “O Mecanismo” – em breve, no Netflix. Artigo originalmente publicado em O Globo em 14 de maio de 2017.

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