quarta-feira, 10 de maio de 2017

PCUS – As lutas ideológicas e Políticas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “A Luta de Classes na União Soviética”, escrito porCharles Betelheim, editora Paz e Terra. Charles Bettelheim (20 de Novembro de 1913 - 20 de Julho de 2006) foi um economista e historiador francês. Fundador do CEMI ("Centre pour l'Étude des Modes d'Industrialisation" - Centro para o Estudo de Modos de Industrialização) na Sorbonne;foi também consultor econômico em governos de vários países em desenvolvimento durante a descolonização. Foi muito influente na Nova Esquerda Francesa, e é considerado "um dos mais notáveis marxistas do mundo capitalista" (Le Monde4 de Abril de 1972) em França, mas também em EspanhaItáliaAmérica Latina e Índia.
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“Melhor lutar por algo do que viver para nada” (Winston Churchil)

Entre fevereiro e outubro de 1917, duas linhas se afirmam dentro do Partido Bolchevique. Primeiramente, antes de Lenin voltar do exílio, surge uma linha de apoio ao governo provisório. Enquanto Lenin formula a palavra de ordem de
 luta revolucionária contra a burguesia e de repúdio à participação na guerra sob suas ordens, uma parte dos dirigentes bolcheviques presta apoio condicional ao governo provisório.
    
Essa linha “defensivista” é apoiada, a partir de 14 de março de 1917, pelo Pravda, órgão cuja direção acabara de ser entregue a Kamenev e Stalin.
    
No Pravda do dia seguinte, 15 de março, Kamenev  sustenta posição ainda mais claramente “defensivista”. A 16, Stalin propõe fazer pressão sobre o governo provisório “a fim de que ele se declare a favor da abertura imediata das conversações de paz”, o que significa adotar o ponto de vista menchevique  de “empurrar a burguesia para trás”, em lugar da posição bolchevique que consistia em colocar-se adiante das massas, à sua frente.
    
Sete anos mais tarde, em discurso pronunciado no Pleno do grupo comunista da Comissão Central dos Sindicatos, Stalin recorda esse período, reconhecendo seus erros, e tenta justificar-se, mostrando não ter sido o único a adotar essas posições. Assim declara:
    
“O Partido na sua maioria adota, no que se refere ao problema da paz, uma política de pressão dos Sovietes sobre o governo provisório e não toma imediatamente a decisão de passar da antiga palavra de ordem da ditadura do proletariado e do campesinato, à nova palavra de ordem do todo o Poder aos Sovietes”.
    
A chegada de Lenin, a 3 de abril de 1917, permite que a linha revolucionária, por ele defendida, triunfe pouco a pouco, mas não sem encontrar resistência. Logo após Lenin publicar “As Teses de Abril”, que se colocam na perspectiva da revolução proletária, Kamenev afirma: “No que toca ao conjunto do plano de Lenin, parece-nos inaceitável, pois ele parte do princípio de que a revolução burguesa está terminada, e conta com a transformação imediata dessa revolução numa revolução socialista”.
    
Kamenev vê-se rapidamente isolado, pois Stalin e Zinoviev aderem às teses de Lenin. A vitória da linha revolucionária não é, porém, ainda completa. Assim, em setembro de 1917, a maioria do Comitê Central a favor da participação dos bolcheviques numa “conferência democrática” constituída fora dos Sovietes, enquanto Lenin havia lançado a palavra de ordem de “todo o Poder aos Sovietes”. Só a ameaça de Lenin demitir-se do Comitê  Central leva o Comitê a reconsiderar a sua decisão.
    
Pouco depois, Lenin pede ao Comitê Central que prepare a insurreição, sendo apoiado por uma maioria de 10 votos contra 2 :os de Zinoviev e Kamenev, que publicamente fazem campanha contra a linha revolucionária de Lenin. Na época, Stalin, que 7 anos mais tarde apresentará essas divergências como “nuances de opinião”, formula o seguinte julgamento: “Aqui, estamos diante de duas linhas. Uma delas tende para a vitória da revolução e apóia-se na Europa. A outra, não acredita na revolução e destina-se apenas a desempenhar o papel de oposição”.
    
Kamenev e Zinoviev não foram, porém, excluídos do Partido, como desejava Lenin, por uma maioria de 5 votos contra três, e o Comitê Central decide, simplesmente – a 20 de outubro – aceitar sua demissão que, na pratica, não foi efetivada. Logo após outubro, Kamenev e Zinoviev voltam ao Comitê Central e a eles são confiadas importantes responsabilidades políticas.
    
Depois de outubro, a luta entre as duas linhas prossegue naturalmente, porém mudam os problemas concretos para os quais se volta, como a História demonstrou.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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