sexta-feira, 26 de maio de 2017

Revolução, Golpe, Rebelião


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Teoria e Prática da Contra-Rebelião” é o título de um livro que focaliza a estratégia para o combate à Rebelião. Ao abordar esse assunto o autor – DAVID GALULA - pôde valer-se de uma desusada experiência. Nascido na Tunísia em 1919, filho de um cidadão francês, passou a maior parte da sua mocidade em Casablanca e, após seu bacharelato, em 1938, optou por uma carreira no Exército Francês. Após sua graduação, em 1940, na Academia Militar Francesa de Saint-Cyr, lutou no teatro europeu durante a II Guerra. De 1945 a 1948 foi destacado para a China. Em seguida, passou 18 meses na Grécia, como observador militar das Nações Unidas. Os cinco anos restantes eles os passou em Hong-Kong, como Adido Militar. Depois, de 1956 a 1958, serviu na Argélia.
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Esse é um pequeno resumo da vida militar de DAVID GALULA, autor do livro. Foi editado no Brasil em 1966 por Edições GRD, e as “Considerações Iniciais” são de autoria do então Serviço de Informações de Segurança da Aeronáutica, de cuja fundação e organização orgulho-me de ter participado, junto a um Brigadeiro e um Cabo. Observo que as ‘Considerações’ foram escritas durante o período mais agudo da luta armada desencadeada pelos terroristas seguidores da concepção cubana, dofoco guerrilheiro, e chinesa, da guerra popular prolongada. Foram, portanto, palavras que nos remetem ao clima de tensão da época. 

A Revolução, o Golpe e a Rebelião são as três formas de se tomar o Poder pela força. Ser-nos-á útil distinguí-las, umas das outras.
    
A Revolução é, geralmente, um levante explosivo, súbito, curto, espontâneo, sem planejamento (França em 1789, China em 1911, Rússia em 1917, Hungria em 1956). É um acidente, que pode ser explicado depois, mas não previsto, senão para se observar a existência de uma situação revolucionária, Não se pode prever como e exatamente quando ocorrerá a explosão. 
     
Em uma Revolução as massas movem-se, e depois surgem os líderes. Sun-Yat-Sen estava na Inglaterra quando a dinastia Manchu foi derrubada. Lenin na Suíça, quando caíram os Romanov .
    
Um golpe é a ação clandestina de um grupo rebelde para a derrubada da liderança em um país. Devido à sua natureza clandestina, um golpe não envolve e nem pode envolver as massas. Embora os preparativos de um golpe possam ser longos, a ação propriamente dita é breve e súbita. Um golpe é sempre um risco – o golpe contra Hitler em 1944; os golpes no Iraque Cintra o Rei Faisal, em 1958, e contra Kassem, em 1963.
    
Por outro lado a rebelião é uma luta prolongada, levada a efeito metodicamente, paulatinamente, a fim de se alcançar objetivos intermediários específicos que, finalmente, levem à derrubada da ordem vigente – China, 1927-1949; Grécia, 1945-1950; Indochina, 1945-1954; Argélia, 1954-1962 -. A rigor, a Rebelião não é mais previsível que a Revolução. Na verdade, seus inícios são tão vagos que determinar exatamente quando surge é um difícil problema legal, político e histórico. Na China, por exemplo, podemos datá-la de 1927, quando a aliança entre os comunistas e o Kuomintang foi rompida, surgindo o uso da força, ou em 1921, quando foi fundado o Partido Comunista Chinês  para o estabelecimento de um regime comunista no país?
    
Mas, embora imprevisível, de modo geral uma Rebelião desenvolve-se com lentidão, e não é um acidente, pois numa Rebelião, primeiro surgem os líderes, e depois as massas são acionadas. Embora todas as rebeliões relativamente recentes – exceto a da Grécia – tenham-se ligado a uma situação revolucionária, os casos da Tunísia (1952-1955), do Marrocos (1952-1956), de Chipre (1955-1959), de Cuba (1957-1959), e outros, parecem mostrar que a situação revolucionária não precisou não precisou ficar aguda, para que a Rebelião tivesse início.  
    
Uma Rebelião é uma Guerra Civil, porém há uma diferença na forma tomada pela guerra, em cada caso.
    
Uma guerra civil divide uma Nação em dois ou mais grupos que, após um período inicial confuso, vêm-se em controle de parte, tanto do território quanto das forças armadas existentes, que imediatamente passam a desenvolver. A guerra entre esses grupos logo se torna semelhante a uma guerra internacional comum, salvo pelo fato de os beligerantes serem compatriotas – a guerra da secessão norte-americana; a guerra civil espanhola -.
    
Finalmente, ressalte-se que há uma assimetria entre os lados opostos de uma guerra revolucionária. Resulta esse fenômeno da própria natureza da guerra, da desproporção, no início, entre os oponentes, e da diferença, em essência, entre seu ativo e seu passivo.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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