sexta-feira, 5 de maio de 2017

União Soviética – A classe dos solitários

Garotão Stalin 

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.
    
NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui, a si mesma, imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
               
----------------------------------
Um estilo de vida cria uma mentalidade à parte. Eu mesmo tiver ocasião de levar, durante alguns dias, essa espécie de vida: estava em Sofia, durante o verão de 1970 eu me encontrava na companhia do Primeiro Vice-Presidente da Academia de Ciências da Rússia e presidente do Soviete Supremo da República Federal da Rússia, M. D. Millionchtchikov, e o Vice-Presidente A. P. Vinogradov. Instalaram-nos num palácio governamental que pertencera à irmã do Czar Boris, depois a Vasil Kolarov, antigo dirigente comunista da Bulgária. O palácio se situava em uma rua tranqüila, nas proximidades do centro da cidade.

Tudo de acordo com o figurino: o muro com uma pesada porta de ferro, o posto da guarda ao lado da entrada e atrás do muro um jardim com bastante sombra. À direita da entrada da casa, dois Tchaikas com placas oficiais. No interior dos veículos, os motoristas de serviço, ar muito digno, esperam. Todo um pessoal de serviço é alocado à disposição dessa casa, mas só falávamos com um, apenas, provavelmente o chefe. Bastava pedir para se ser servido imediatamente do prato, do vinho ou do conhaque desejado. Num pequeno gabinete, ao lado do salão, um telefone: o Vertuchka búlgaro. Uma vez que tudo está bem, deixa-se o local. Um sinal ao motorista e o Tchaika avança: um agente de segurança abre a porta e o carro roda através de Sofia e, se bem que ocupando o meio da rua, é saudado pelos guardas de transito.

Reuniões, banquetes, recepções se sucedem. Depois, o Tchaika reaparece, e se volta para o palácio. Bastam alguns dias para a pessoa se sentir completamente desligada da vida real. Essa sensação rapidamente se tornou insuportável para mim, e fui passear um pouco a pé através da cidade. Mas, é claro que não é impossível se sentir assim. Um homem tão dinâmico e social como M. D. Millionchtchikov, que vivia em Moscou numa moradia individual, e que sempre era recebido nas residências governamentais quando de seus deslocamentos através das Repúblicas da União, ou nos países do Leste, era capaz de ficar senado, durante horas, no jardim, sem ter o menor aborrecimento por esse esplêndido isolamento.
    
Sim, pode-se habituar a isso. Mas, o hábito acaba por embotar a consciência. E se fica sempre completamente afastado da vida normal e da humanidade. Stalin se esforçou para encontrar um paliativo. Mandava projetar filmes soviéticos mostrando – acreditava ele – a vida do povo. No XX Congresso, Kruschev zombou dele: na verdade, ele não dispunha de outras fontes de informação, além de filmes, ainda que se tratasse de filmes de atualidades. Na realidade, nem um nem outro sabia verdadeiramente como vivia o povo que dirigiam. S. Alleluieva se lembra de que Stalin não estava absolutamente a par dos preços correntes na URSS, e que continuava a se referir aos preços do período pré-revolucionário.    
    
A tradição stalinista de um estilo de governo fundado sobre um total desconhecimento das realidades não perdeu nada do seu vigor. O contacto entre os dirigentes da classe nomenklaturista e o povo se limitava às visitas oficiais às republicas da União às regiões, visitas durante as quais funcionários apressados mostravam as vilas “à Potenkim”, isso se os banquetes ou as reuniões deixassem tempo.
    
Cavaram um abismo entre eles mesmos e aquele povo que lhes é submisso, e depois, com o coração cheio de angústia e desprezo, abrigavam-se atrás de seus sete círculos e as do KGB, para agitar, em seguida, o slogan de “ligação com as massas” e tratar de “solitários” aqueles que exprimem publicamente seu descontentamento. Mas, na realidade, não foi a classe dos nomenklaturistas, essa classe de funcionários desclassificados, que se tornou, ela própria, por cauda de sua natureza profunda e seu modo de vida, uma casse de solitários? Pode-se caracterizar de maneira mais marcante uma classe de indivíduos que conseguem viver como estranhos no país que governam?
    
É, no entanto, assim que vivem os nomenklaturistas – classe dominante, exploradora e privilegiada da sociedade soviética.
    
Podemo-nos convencer disso:é inútil querer estabelecer um paralelo com o modo de vida das classes privilegiadas do Ocidente burguês. Não há nada aí que possa surpreender: o essencial, na sociedade capitalista não são os privilégios, mas o dinheiro. Nas sociedades socialistas existentes é exatamente o inverso. São os privilégios que explicam, ao mesmo tempo, a arrogância e a inquietação da Nomenklatura, pois ela tem perfeita consciência das reações que suscita na população soviética esse acréscimo constante de seus privilégios.

Os nomenklaturistas começam a se sentir ameaçados na sua posição dominante, e começam a temer um resultado fatal. Contava-se, a esse respeito, nos anos 70, uma anedota: um colaborador d CC do PCUS recebeu, um dia, a visita de sua mãe, que vivia num kolkoze. Mostraram-lhe o luxo do apartamento e da datcha e serviram-lhe uma boa refeição “Kremliovka”. De repente ela sentiu o desejo de voltar para casa o mais depressa possível.
    
- Aonde vai, mamãe? Perguntou o filho, um tanto acabrunhado. Fique, vamos, é tão bom aqui!
    
- É bom, certamente – respondeu a velha – mas também é perigoso. O que acontecerá se os vermelhos chegarem?

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Nenhum comentário: