domingo, 7 de maio de 2017

URSS – As formas organizadas de parasitismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.
    
NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui, a si mesma, imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.

“Instrui-te como se fosses viver eternamente, e vive como se fosses morrer amanhã” (MAHATMA GANDHI)

------------------------------------------------------------------

Para reforçar, com fatos concretos, sua tese referente ao caráter parasitário da classe capitalista, Lenin evoca em “O Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo”, o aumento do número de rendeiros, quer dizer, de pessoas que vivem de rendas de ações. Tal afirmação faz injúria à inteligência de Lenin. Trata-se, visivelmente, de um julgamento apressado (o livro foi escrito em seis meses) baseado em algumas observações mais ou menos fortuitas, que Lenin pudera fazer na Suíça, de 1914 a 1918.

A aquisição de valores é uma forma de poupança que não poderia ser assimilada ao parasitismo. Uma sociedade, qualquer que ela seja, só pode felicitar-se em ver pessoas pararem de gastar fruto de sua poupança, para melhor investir, e contribuir, assim, para o desenvolvimento da indústria. Isso nada tem a ver com parasitismo.
     
Pode-se demonstrar, por outro lado, que é muito mais categórico no que se refere ao parasitismo da Nomenklatura, na medida em que se torna, agora, de formas organizadas.
    
Uma das formas mais importantes é constituída por esse sistema de “duplo comando”, que funciona a nível do aparelho do Partido e do Estado.
    
A cada ministério ou a cada grupo de ministérios de competências próximas, corresponde uma seção do CC do PCUS. Na escala hierárquica oficial, um chefe de seção do CC se situa em um plano mais alto do que um ministro da União. O conjunto de atividades do ministro se encontra, pois, controlado e dirigido pela seção correspondente da CC. Pode-se indagar se uma das duas instâncias – ministério ou seção do CC – não será inútil.
    
Repete-se, tanto quanto se possa, eu os órgãos do Partido analisam os problemas sob a ótica do Partido, e que os órgãos do Estado analisam os mesmos problemas sob a ótica do Estado: na realidade, o mesmo trabalho é feito duas vezes. O que significa, na prática, que duas pessoas se dedicam a ele, uma na Seção do CC, a outra no Ministério, a começar pelo chefe de Departamento e o Ministro.
    
Na realidade, os responsáveis não fazem, eles mesmos, o trabalho, e chegamos, por esse caminho, à segunda forma de parasitismo organizada no seio da Nomenklatura. Cada nomenklaturista dispõe, com efeito de vários adjuntos. Quanto mais elevado está, na hierarquia, mais adjuntos tem. O presidente do Presidium do Soviete Supremo dispõe de 16 adjuntos; o presidente do Conselho de Ministros, de 12; o Ministro dos Negócios Exteriores, de 10. Até nos Institutos de Pesquisa Científica, o diretor, que é o único nomenklaturista no posto, tem vários adjuntos. Se há apenas um adjunto, ou o instituto é minúsculo ou o seu diretor é um livre-pensador.
    
Lembro-me de uma conversa que tive com um alto funcionário austríaco, quando eu ainda estava em Moscou. Perguntei-lhe: “Quem é o adjunto de Ministro em seu país?”. Meu interlocutor deu de ombros e respondeu-me que tal posto não existia. “Mas quem faz, então, o trabalho do Ministro?”, perguntei-lhe um pouco surpreendido. “O próprio Ministro” retorquiu também surpreso. Nosso espanto se explicava porque pertencíamos a dois mundos diferentes. Era evidente, para mim, que um Ministro não poderia trabalhar sozinho. Que deveria ter alguém para cuidar dos processos.
    
Oficialmente, utiliza-se a seguinte fórmula: o Ministro exerce a “direção geral”. A expressão “direção geral” pertence, do mesmo modo que “direção do Partido”, ao linguajar da Nomenklatura, sendo que a primeira delas é ainda mais difícil de explicar. O significado mais próximo seria “presidência de honra” ou “alto patrocínio”. É preciso compreende que o referido Ministro possui uma moradia principesca, que anda de Tchaika, que participa dos Plenos do CC e das sessões do Soviete Supremo, que ocupa um lugar na tribuna oficial nas diversas solenidades. Assina embaixo dos documentos importantes, que lhes foram preparados, por seus subordinados.

Toma parte nas reuniões do Conselho de Ministros da URSS, faz uma aparição tímida no Politburo ou no Secretariado do CC, quando se discutem ali problemas de sua competência... ou quando é convidado. Aparece nos banquetes e nas recepções, realiza viagens ao exterior, integrando diversas delegações e empreende - mui raramente – um giro de inspeção, de puro prestígio, pelas diversas empresas do país, que estão sob a tutela de seu Ministério. Mas, sua tarefa essencial consiste em manter relações amigáveis com seu homólogo do CC, isto é, o chefe de Departamento, e com o primeiro adjunto desse chefe, assim como com o Vice-Presidente do Conselho de Ministros que, como se diz, tão elegantemente, tem a “curatela” de seu Ministério.
    
“Ter a cara de alguma coisa” (em russo kirirovat) é uma expressão da linguagem da Nomenklatura, em uso desde meados dos anos 50. A idéia é a de que o “curador” exerce um controle geral sobre o serviço de quem tem a carga. A “curatela” se situa em um nível inferior ao de “direção geral”. É o motivo pelo qual a função correspondente é exercida, não apenas pelo chefe ou seus primeiros adjuntos, mas também pelos adjuntos comuns.
    
Ora, como já vimos, os adjuntos são numerosos. Eles se repartem pelos setores da “curatela”. Os ministros estão sobre a “curatela” dos vice-presidentes do Conselho de Ministros. As administrações principais sob a dos adjuntos do Chefe da Administração Central. As empresas sob a dos adjuntos do Chefe da Administração.
    
Isso se verifica bem na prática: o trabalho começa onde termina a Nomenklatura. Existem, naturalmente, exceções, mas, em regra geral, pode-se dizer que, em todos os lugares em que há Nomenklatura, reina também um espírito militarista, pois só se trabalha de verdade nos serviços que não fazem parte da Nomenklatura.
    
No verão de 1957, colocaram-se à disposição do Instituto de Economia Mundial e de Relações Internacionais da Academia de Ciências, onde eu era um dos pesquisadores, os edifícios de Ministério de Construção das Centrais Elétricas, que acabara de ser suprimido por Kruschev. Esse Ministério se encontrava localizado em um grande imóvel do Kitaiski Projezd, que abriga agora os serviços da Glavlit, a censura do Estado Soviético.

Fomos, por curiosidade visitar as instalações deixadas pelo Ministério: o imenso gabinete do Ministro, com as paredes recobertas de painéis de madeira, característicos do estilo Kremlin, com a sala de repouso contígua, os toaletes, uma vasta entrada, os gabinetes espaçosos dos adjuntos do Ministro, igualmente com lambris, os enormes locais destinados aos escalões hierárquicos menos elevados, os exíguos gabinetes dos funcionários, com seu alinhamento cerrado por mesas de trabalho e cadeiras cambadas.

Depois que nossos olhos se fartaram dessa anatomia de um Ministro soviético, mergulhamos, cheios de curiosidade, na leitura dos registros de entrada e saída dos processos, que tinham ficado sobre as mesas. De acordo com o uso nos serviços soviéticos, os secretários tinham, escrupulosamente, assinalado as observações de seus superiores hierárquicos. A contribuição pessoal do Ministro era muito pouca: ele se contentava em anotar o nome de um de seus adjuntos que deveria encarregar-se do processo correspondente. Esse adjunto enviava, então, o processo ao Diretor da Administração, acrescentando-lhe substancial comentário: “Para estudar e decidir”.

O Diretor da Administração, por seu turno, enviava o processo para seu adjunto. Este o dirigia ao serviço concernente com a menção: ”Para execução”. Como não há nomenklaturistas no escalão seguinte, o trabalho, finalmente, poderia começar. A supressão do Ministério fizer com que esses especialistas da nota breve perdessem seus postos, sem que, entretanto, deixassem de construir Centrais Elétricas no país.
     
Foi por essa época que, de súbito, uma pergunta me ocorreu ao espírito: todos os nomenklaturistas não seriam, no fim das contas, parasitas? Hoje sei responder a essa pergunta.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Nenhum comentário: