terça-feira, 6 de junho de 2017

O Passado de uma Ilusão – François Furet


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“O comunismo desaparecerá antes de haver enfraquecido as esperanças de seus partidários. O Ocidente fará cortejo a seu féretro” 
    
François Furet  foi diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, professor da Universidade de Chicago e presidente da Fundação Saint-Simon. É considerado o historiador da Revolução de 1789. Entre suas obras destacam-se “Marx e a Revolução Francesa”, “Pensando a Revolução Francesa” e “Dicionário Crítico da Revolução Francesa”.   
                   
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O regime soviético saiu sorrateiramente do teatro da História, onde havia feito uma entrada triunfal. Ele constituiu de tal maneira a matéria e o horizonte do século, que seu fim sem glória, depois de uma duração tão breve, forma um surpreendente contraste com o brilho do seu percurso. Não que a languidez doentia de que sofria a URSS não pudesse ser diagnosticada, mas a desagregação mesma estava oculta ao mesmo tempo pela potência internacional do país e pela idéia que lhe servia de bandeira.

A presença soviética nos negócios do mundo atestava a presença soviética na história do mundo. De resto, nada era mais estranho à opinião pública do que a perspectiva de uma crise radical do sistema social instaurado por Lenin e Stalin. A idéia de uma reforma desse sistema achava-se, sim, mais ou menos em toda parte já há um quarto de século, e alimentava, sob formas muito diversas, um revisionismo ativo, mas sempre respeitoso da superioridade de princípios do socialismo sobre o capitalismo. Mesmo os inimigos do socialismo não imaginavam que o regime soviético pudesse desaparecer e que a Revolução de Outubro pudesse ser apagada, menos ainda que essa ruptura pudesse ter como origem iniciativas do partido único no Poder.

Contudo, o universo comunista desfez-se a si mesmo. Isso pode ser visto através de um outro sinal, desta vez mais abaixo na série dos fatos: dele não restam mais do que os homens que, não tendo sido vencidos, passaram de um mundo para o outro, reconvertidos a outro sistema, partidários do mercado e das eleições, ou ainda reciclados no nacionalismo. De sua experiência anterior, porém, não subsiste nem uma idéia.

Os povos que saem do comunismo parecem obcecados pela negação do regime sob o qual viveram, ainda que dele herdem hábitos e costumes. A luta de classes, a ditadura do proletariado, o marxismo-leninismo, desapareceram para darem lugar ao que supostamente teriam substituído a propriedade burguesa, o Estado democrático-liberal, os Direitos Humanos, a liberdade de iniciativa. Nada subsiste dos regimes de Outubro, a não ser aquilo de que eram a negação. 
    
O fim da Revolução Russa, ou o desaparecimento do Império Soviético, descobre uma tábula rasa sem relação com o que haviam deixado o fim da Revolução Francesa ou a queda do Império Napoleônico. Os homens do Termidor festejaram a igualdade e o mundo burguês, Napoleão fôra, realmente, durante todo o tempo, aquele conquistador insaciável, aquele ilusionista da vitória, até à derrota que, finalmente, aniquilou todos os seus ganhos de jogador de sorte. Porém, no dia em que tudo perdeu, ele deixava, na Europa, um longo rastro de lembranças, de idéias e de instituições, de que até mesmo os inimigos se inspiravam para vencê-lo.

Na França, ele fundamentara o Estado para os séculos vindouros. Lenin, pelo contrário, não deixou herança. A Revolução de Outubro fecha sua trajetória sem ser vencida no campo de batalha, mas liquidando, ela mesma, tudo o que se fez em seu próprio nome. No momento em que se desagrega, o Império Soviético oferece o caráter excepcional de ter sido uma superpotência sem ter encarnado uma civilização.

O fato é que ele agrupa ao seu redor, comparsas, clientes e colônias; construiu um arsenal militar e obteve uma política externa de dimensões mundiais. Teve todos os atributos da potencia internacional, que o fizeram ser respeitado pelo adversário, para não falar nos atributos do messianismo ideológico, que o fizeram ser adorado pelos seus partidários.

E, no entanto, sua dissolução rápida não deixa nada de pé: nem princípios, nem códigos, instituições, nem sequer uma história. Como os alemães antes deles, os russos são esse segundo povo europeu incapaz de conferir um sentido ao seu século XX e, com isso, permanece incerto sobre todo o seu passado.   

Assim, nada me parece mais inexato do que batizar com o termo “revolução” a série de acontecimentos que levou, na URSS e no império, ao fim dos regimes comunistas. Se mais ou menos todo mundo o usou, é porque nenhuma outra palavra do nosso vocabulário político parecia convir melhor ao esboroamento de um sistema social. “Revolução” tinha a vantagem de comportar a idéia, familiar à tradição política ocidental, de uma ruptura brutal com o regime passado.

Contudo, esse Antigo Regime nascera, ele próprio, da Revolução de 1917 e continuava a reivindicá-la, de sorte que sua liquidação poderia igualmente aparentar-se a uma contra-revolução: não trazia ela de volta aquele mundo-burguês detestado por Lenin e por Stalin? Principalmente, suas modalidades não tiveram grande coisa em comum com uma reviravolta ou com uma fundação. Revolução e contra-revolução evocam aventuras da vontade, ao passo que o encadeamento das circunstâncias preside ao fim do comunismo. E o que se segue já quase não dá espaço à ação deliberada.

Nas ruínas da União Soviética, não aparecem nem líderes prontos para assumirem a função dos que partem, nem verdadeiros partidos, nem uma nova sociedade, nem uma nova economia. Só se vê uma humanidade atomizada e uniformizada, e isto a tal ponto, é bem verdade, que as classes sociais ali desapareceram: até o campesinato, pelo menos na URSS, foi destruído pelo Estado. Os povos da União Soviética tampouco conservam força suficiente para expulsar a Nomenklatura dividida, ou mesmo para ter um peso grande no curso dos acontecimentos.

Assim, o comunismo termina numa espécie de nada. Não abre caminho, como tantas mentes ao mesmo tempo desejaram e previram, desde Kruschev, a um melhor comunismo, que apagasse os vícios do antigo, conservando as suas virtudes.  Um comunismo que Dubcek poderá encarnar por alguns meses na primavera de 1968, mas não Havel, depois do outono de 1989.

Gorbachev fez ressurgir a ambigüidade desse comunismo, em Moscou, depois da libertação de Sakharov, mas Yeltsin dissipou-o, logo em seguida, depois do putsch de agosto de 1991: nada mais é visível nos destroços dos regimes comunistas além do repertório familiar da democracia liberal. A partir daí, muda até o sentido do comunismo, aos olhos daqueles mesmos que foram seus partidários. Em vez de ser uma exploração do futuro, a experiência soviética constituiu uma das grandes reações antiliberais e antidemocráticas da história européia no século XX, sendo a outra, evidentemente, a do fascismo, sob suas diferentes formas.

Assim, ela revela um dos seus traços distintivos: ter sido inseparável de uma ilusão fundamental, cujo teor pareceu por muito tempo validar, antes de dissolvê-lo. Não quero simplesmente dizer com isso que seus atores ou seus partidários não sabiam a história que estavam fazendo e alcançaram objetivos diferentes dos que haviam fixado – o que é o caso geral.

Quero, antes, dizer que o comunismo teve a ambição de ser conforme ao desenvolvimento necessário da Razão Histórica e que a instauração da ditadura do proletariado, com isso, se revestiu de um caráter científico: ilusão de natureza diferente daquela que pode nascer de um cálculo de fins e de meios, e até de uma outra crença no caráter justo de uma causa, uma vez que oferece ao homem, perdido na História, além do sentido de sua vida, os benefícios da certeza. Ela não foi algo como um erro de julgamento, que podemos, com o auxílio da experiência, balizar, medir, corrigir, mas sim, de preferência, um investimento psicológico que pode ser comparado ao de uma fé religiosa, embora seu objeto fosse histórico.

A ilusão não acompanha a história comunista: é constituída dela; ao mesmo tempo independente de seu curso, enquanto prévia à experiência, e, no entanto, submetida às suas vicissitudes uma vez que a verdade da profecia se mantém dentro dos limites do seu desenrolar-se. Ela tem sua base na imaginação política do homem moderno  e, contudo está sujeita ao remanejamento constante que as circunstâncias lhe impõem, como condição de sua sobrevivência.

Ela faz da História seu alimento cotidiano, integrando continuamente à crença tudo o que ocorre. Assim se explica ela só tenha podido desaparecer pelo desaparecimento daquilo de que nutria a sua substância: crença na salvação pela História, ela só  podia ceder a um desmentido radical da História, que tirasse sua razão de ser ao trabalho de remendagem inscrito em sua natureza.

É esse trabalho que forma o assunto deste livro. Não a história do comunismo, e muito menos ainda da URSS, propriamente ditas, e sim a história da ilusão do comunismo, por todo o tempo em que a URSS lhe deu consistência e vida. Se quisermos pintar suas figuras sucessivas ao longo do século, não seremos forçosamente levados a considerá-la apenas como os produtos de um gênero ultrapassado pelo movimento da democracia liberal. Confesso não ver as razões de substituir uma filosofia da História por outra.

A utopia de um homem novo é anterior ao comunismo soviético e sobreviverá a ele sob outras formas – livre, por exemplo, do messianismo operário. Ao menos o historiador da idéia comunista neste século tem hoje certeza de estar diante de um ciclo encerrado da imaginação política moderna, inaugurado pela Revolução de Outubro, fechado pela dissolução da União Soviética. Além de glorificar-se do que era, o mundo comunista sempre se glorificou do que queria e, por conseguinte, do que queria tornar-se. A questão só foi resolvida pelo seu desaparecimento. Ele hoje se encerra inteiro em seu passado.   

Mas a história da sua idéia permanece mais ampla do que a de poder, mesmo na época de sua maior expansão geográfica, Uma vez que ele é realmente universal, atingindo populações, territórios e civilizações em que mesmo o cristianismo não penetrara, eu precisaria, para seguir por toda a parte a sua sedução, um saber que não possuo. Limitar-me-ei a estudá-la na Europa, ali, onde ela nasceu, ali, onde tomou o Poder, onde foi tão popular no final da II Guerra Mundial.

Ali, onde ela, enfim, demorou 30 anos para morrer, entre Kruschev e Gorbachev, entre Marx e Engels, seus “inventores”, não imaginaram que ela pudesse ter um futuro próximo, além da Europa, a tal ponto que alguns grandes marxistas, como Kautsky, recusaram a Rússia de Outubro de 1917, como excêntrica demais para um papel de vanguarda.

Uma vez no Poder, Lenin só viu salvação na solidariedade revolucionaria dos velhos proletariados formados mais a Oeste da Europa, a começar pelo alemão. Depois dele, Stalin dirigiu, para seu próprio proveito, toda a dimensão do faro russo para a idéia comunista, mas sem renunciar à idéia que, pelo contrário, ganha vida nova com a vitória antifascista. Em suma, a Europa, mãe do comunismo, é também seu principal teatro. O berço e o coração de sua história.  

Além disso, ela oferece ao observador a vantagem de um exame comparativo. Pois a idéia comunista pode ser ali estudada em dois estágios políticos, conforme ocupe o Poder por intermédio de partidos únicos, ou esteja difusa na opinião pública das democracias liberais, canalizada principalmente pelos partidos comunistas locais, mas também propagada para além deles, sob formas menos militantes. Os dois universos estão em relação constante, embora desigual: o primeiro, secreto e fechado, o segundo, público e aberto.

O interessante é que a idéia comunista vive melhor no segundo, apesar do espetáculo oferecido pelo primeiro. Na URSS, e no que mais tarde será chamado, depois de 1945, o “campo  socialista”, ela forma a ideologia e a linguagem da dominação absoluta. Instrumento de um poder ao mesmo tempo espiritual e temporal, o que ela tem de emancipadora não sobrevive por muito tempo à sua função de subjugação. No Oeste, ela também está submetida, por meio dos partidos irmãos, às coerções estreitas da solidariedade internacional.

Mas como ali ela não é nunca um meio de governo, conserva algo de seu encanto mundial, misturado a uma denegação do caráter assumido, no outro extremo da Europa, pelo Império Soviético. A essa dosagem instável entre o que ela consegue de utópico e o que já tem de histórico, as circunstâncias iriam dar, às custas de sucessivos remanejamentos,  a força de durar até nós. A idéia comunista viveu por mais tempo na idéia do que nos fatos, por mais tempo no Oeste do que no Leste da Europa. Seu percurso imaginário é, assim, mais misterioso do que sua história real.

Eis porque este ensaio procura narrar suas voltas e desvios. Este inventário talvez seja a melhor maneira de trabalhar na elaboração de uma consciência histórica qu seja comum ao Ocidente e ao Oriente da Europa, depois de eles estarem por tanto tempo separados pela realidade e pela ilusão do comunismo.

Uma última palavra, por fim, sobre o autor, uma vez que todo livro de história tem também a sua história. Tenho com o tema de que trato uma relação biográfica. “O Passado de uma Ilusão”, para reencontrá-lo preciso só me voltar para aqueles anos da minha juventude em que fui comunista, entre 1949 e 1956. A questão que tento hoje compreender é, portanto, inseparável de minha existência. Eu vivi, de dentro, a ilusão cujo caminho tento remontar, numa das épocas em que ela estava mais difundida.

Devo lamentá-lo no momento em que escrevo a sua história? Não acredito.  A 40 anos de distância, considero minha cegueira de então sem indulgência, mas sem acrimônia. Sem indulgência, porque, a meu ver a desculpa que muitas vezes se tira das intenções, não serve de remissão para a ignorância e para a presunção. Sem acrimônia, porque aquele compromisso infeliz me instruiu.

Dele saí com um começo de questionamento sobre a paixão revolucionária e vacinado contra o investimento pseudo-religioso na ação política. Estes são problemas que ainda formam a matéria deste livro. Eles me ajudaram a concebê-lo. Espero que este contribua para esclarecê-los.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Flying Dutchman disse...

Onde posso comprar o livro 'O PASSADO DE UMA ILUSÃO'?

Flying Dutchman disse...

Onde posso comprar o Livro 'O PASSADO DE UMA ILUSÃO'?