domingo, 4 de junho de 2017

O processo de supressão dos partidos e da imprensa burguesa e pequeno burguesa na Rússia


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um dos capítulos do livro “A Luta de Classes na União Soviética”, escrito porCharles Betelheim, editora Paz e Terra. Charles Bettelheim (20 de Novembro de 1913 20 de Julho de 2006) foi um economista historiador francês. Fundador do CEMI ("Centre pour l'Étude des Modes d'Industrialisation" - Centro para o Estudo de Modos de Industrialização) na Sorbonne.

Foi também consultor econômico em governos de vários países em desenvolvimento durante a descolonização. Foi muito influente na Nova Esquerda Francesa, e é considerado "um dos mais notáveis marxistas do mundo capitalista" (Le Monde, 4 de Abril de 1972) em França, mas também em EspanhaItáliaAmérica Latina Índia. 

“Os políticos de qualquer parte são sempre os mesmos. Eles prometem construir pontes mesmo onde não há rios” (Kruschev)

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Assim como as atividades contra-revolucionárias ocorridas no segundo semestre de 1918 acarretaram a prisão de vários elementos mencheviques e SR (socialistas revolucionários), da mesma forma as ações subversivas do inverno de 1920-1921 leva o Poder Soviético a reprimi-los, limitando cada vez mais as possibilidades de funcionamento não somente de suas organizações, como também de sua imprensa.    

A esse respeito existe uma diferença considerável entre a prática do Partido Bolchevique, a partir de 1921, e as posições assumidas por Lenin, mesmo no decorrer da guerra civil, Referindo-se, em novembro de 1918, aos mencheviques, que demonstraram renúncia a uma atitude anti-soviética, Lenin declarou: “...não devemos repeli-los, mas, ao contrário, acolhê-los e permitir que trabalhem em comum conosco”. É nessa época que ele considera “no mínimo estúpido e ridículo persistir na mesma tática de repressão e terror contra os democratas pequeno-burgueses, quando o curso dos acontecimentos os obriga a voltarem-se para nós”.    

Sabe-se também que Lenin defendeu, simultaneamente, a interdição da im prensa burguesa (burguesa devido às suas fontes de financiamento e por seu caratê abertamente contra-revolucionário) e a liberdade da imprensa “democrática”, isto é, à imprensa pertencente às organizações formadas pelas massas populares ou publicadas por partidos que aceitavam conduzir a luta política no interior do regime soviético.

Dessa maneira, pouco depois de Outubro, um Projeto de Resolução, redigido por Lenin, declarou que a imprensa não dependente de capital será livre. O Projeto, datado de 4 de novembro de 1917, estipula:

“Por liberdade de imprensa, o governo operário e camponês entende a liberação da imprensa do jugo do capital; a transformação das fábricas de papel, e das gráficas, em propriedades do Estado, a atribuição, a cada grupo de cidadãos, totalizando determinado efetivo (10 mil, por exemplo), de igual direito à utilização de uma quota correspondente dos estoques de papel e da mão de obra necessária aos trabalhos de impressão”.

Esse projeto nunca foi aplicado, a princípio, em razão da grande escassez de papel e, a partir de 1918, devido às condições políticas cada vez mais tensas. Determinadas, sobretudo, pela intensificação a guerra civil. A censura foi introduzida em março de 1918 – mas não se aplicava, então, aos jornais e folhetos mimeografados, ao contrário do que ocorreria posteriormente -  e, a partir de julho, numerosas publicações mencheviques e anarquistas são proibidas.

Até 1921, porém, bastava que essas publicações adotassem outros títulos para que pudessem reaparecer, com seu conteúdo violentamente crítico em relação ao Partido Bolchevique.

Foi, de fato, a partir de 1921 – na situação catastrófica, então reinante, e igualmente após a tentativa do Comitê, criado em 1921, no sentido de entabular negociações diretas com os governos imperialistas – que a repressão contra a imprensa e os partidos “democráticos” se agrava, tornando-se cada vez mais sistemática.

Parece, contudo, que Lenin não visava a interdição dos partidos “democráticos”, os quais, em sua opinião, “são, inevitavelmente, o fruto das relações econômicas pequeno-burguesas” e que chegou, mesmo, a encarar, em 1922, a possibilidade do “retorno a uma certa liberdade da imprensa”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fale sobre a grande fome da década de vinte, que matou mais de vinte milhões de russos.. Molotov confiscou as colheitas dos fazendeiros.. no outro ano ninguém plantou nada e a fome fez o resto...