domingo, 9 de julho de 2017

Carlos Lacerda e a Doutrina Udenista


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi transcrito do livro “GUIA BIBLIOGRÁFICO DA NOA DIREITA”, escrito por LUCAS BERLANZA, com prefácio de RODRIGO CONSTANTINO, editado pela Resistência Cultural.

Palavras do Autor: “O conceito com que trabalho em meu livro de estréia é exatamente esse que ele formula. A Nova Direita é todo mundo: liberais e conservadores, monarquistas e republicanos, misesianos, hayekianos e burkeanos. É uma expressão TEMPORAL, fazendo referência a um marco histórico no Brasil Contemporâneo em eu uma movimentação de maior densidade se efetivou em torno dessas idéias que andaram profundamente ausentes do grande debate público. É uma expressão interessante para nos dar o senso do lugar histórico que estamos tentando ocupar”.
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No interregno democrático – combalido por uma estrutura herdada de mais de uma década de ditadura personalista – entre o Estado Novo e o regime militar iniciado em 1964, o Brasil passou, depois do governo “emergencial” de Dutra, pelas mãos de um mineiro boa-praça e querido por boa parcela do povo, mas com uma política econômica desenvolvimentista que gerou bastante dor de cabeça;um lunático” que imos uma agenda “moralista” piegas – ao mesmo tempo em que condenava um guerrilheiro comunista assassino -, não soube governar com o Congresso, renunciou na esperança de retornar com amplos poderes e se frustrou miseravelmente; e um esquerdista inábil que tomou medidas desesperadas, cometeu graves erros de cálculo, mergulhou o país de vez no desastre e sinalizou perigosamente par alas radicais, terminando por ser deposto por uma articulação civil-militar.

Fica nítido que, desde aquela época – desde, alias, o golpe que derrubou a elite política monárquica – adotamos as opções mais lamentáveis. Entretanto, tínhamos escolha. Uma voz valente não se acovardava diante da adversidade e fazia virulenta oposição a esse estado de coisas. O deputado, vereador e governador do Estado da Guanabara, jornalista – dono da Tribuna da Imprensa – e intelectual CARLOS FREDERICO WERNECK DE LACERDA, detentor da oratória mais impressionante da política brasileira, aturdia os adversários sem descanso.
    
LACERDA era o principal expoente da União Democrática Nacional (UDN), o partido que congregava um pensamento mais genuinamente liberal-conservador no Brasil, muito embora essa não tenha sido sua regra. Houve desde socialistas no Partido, quando ele começou como uma espécie de “frente ampla” contra as legendas de herança varguista, até a ala “bossa nova”, que procurava levar o Partido na direção da esquerda. Além disso, também havia a influência de oligarquias pouco afeitas ao liberalismo econômico. Nada disso evitou que as idéias de matrizes, liberais e conservadoras, de LACERDA e seus apoiadores, que construíram um movimento de força popular – sobretudo no Rio de Janeiro –, prevalecessem na memória geral como identificadas com a tocha acesa da UDN, vinculada ao seu lema, extraído das palavras de Thomas Jefferson: ’o preço da liberdade é a eterna vigilância”. O Brasil teve em Lacerda uma oportunidade de, ao menos, promover uma mudança de tônica em seus rumos, oportunidade que se viu perdida, embora acreditemos firmemente que ainda sirva de experiência positiva aos brasileiros de hoje.  
    
Na hora de se definir, LACERDA chegou a expressar admiração por Konrad Adenauer e pelos democratas cristãos europeus, preferia evitar rótulos, como “direita” e “esquerda”, nebulosos hoje, mais ainda naquela época. Dizia que “o submundo tosco das idéias e refinadamente intuitivo dos caudilhos não conhece direita e nem esquerda, senão como rótulos”. Sua idéia era defender uma concepção política que preservasse a ordem “como único meio de preservar a liberdade”. Diante do populismo e do estatismo sistemáticos no cenário brasileiro. Lacerda defendia a necessidade de uma “liberdade fundamental – que é a de construir cada qual a sua vida em harmonia com a sociedade, mas não sob a tirania do Estado. O Estado deve ser sempre contido. No caso brasileiro, deve ser ainda mais, temido; porque ainda por cima, ele é incapaz, por falta de pessoal em condições de dirigi-lo”. Do comunismo, que abraçou na juventude, dizia ser uma ditadura “pior que as outras, mais difícil de derrubar”, encerrada em seu totalitarismo e em seus apelos emocionais.
    
A obra “O Poder das Idéias” (1963) reúne textos que sintetizam as idéias que LACERDA adotou em sua fase madura. Católico e influenciado pelas idéias de Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima, bem como pelo norte-americano Fulton Sheen – as idéias de LACERDA possuíam alguns traços que seriam rejeitados por liberais mais estritos. Contudo, associando as virtudes em seu pensamento com o brilho estupendo de sua personalidade e seu talento, ele foi uma preciosidade a ser estudada e melhor conhecida pelos que, hoje, procuram defender, de maneira a alcançar a consciência do brasileiro, os valores da ordem liberal.
    
Um dos seus propósitos era dar ao seu Partido um cabedal doutrinário que o fizesse de fato representar uma corrente de idéias. Em resumo, a UDN seria destinada a “preservar e sustentar, levando-os à prática, certos valores e princípios que se costuma resumir, chamando-os princípios da civilização cristã, como tal denominada a liderança da cultura, do estilo de vida, pensamento e comportamento que recebemos da cultura judaico-greco-latina através de nossos formadores, a religião cristã e a colonização portuguesa”.

A partir desse legado, o udenista deveria entender que “as divergências os conflitos de interesses, que existem e sempre existirão, podem e devem ser resolvidos pelo entendimento e não pela força, pela compreensão e não pela intolerância”. Em relação à Pátria deve se ser patriota e não nacionalista, pois o nacionalismo é “a ideologia que visa colocar a Nação acima de tudo, uma noção totalitária”, enquanto o patriotismo “não é fanático, é lúcido”. Apeando-se aos ideais liberais-democráticos, ele defendia que o fato de estes ainda não terem sido capazes de “assegurar a todos os homens os meios materiais e culturais para sequer saber o que vem a ser a dignidade da sua condição humana” não nos deve levar a nada diferente de um “esforço de propagação da liberdade e difusão dos meios de bem usá-la”.

Não devemos “negá-la aos que já a alcançaram e, a pretexto d que nem todos conseguiram obtê-la, negá-la a todos, fazendo do Estado, da Nação, do Partido ou da Classe o mito de uma nova idolatria”. Ou, ainda, ter ciência de que, “a pretexto de que é necessário dar pão aos que não o têm ainda, não se pode suprimir a liberdade dos que já ganham o pão, e não querem perder a sua liberdade”, mesmo porque, “todo o governo que suprime a liberdade em nome do pão, acaba por não devolver a liberdade que tomou, e não distribuir o pão que prometeu”. Tudo isso com base na convicção em que “não existe liberdade política sem liberdade econômica, assim como não existe liberdade econômica sem liberdade de conhecer, compreender e concorrer’.

Começando por combater a ditadura getulista, o fascismo e o integralismo, em nome do comunismo, LACERDA depois combateu o populismo e o próprio comunismo em nome da democracia liberal e de uma concepção da sociedade que dava ênfase a uma forte base moral e a uma retração necessária do Estado com vistas à eficiência e à valorização da livre iniciativa. Bandeiras que, ainda mais quando defendidas com a paixão e a contundência com que ele o fazia, necessariamente atraem amores e ódios em intensidades semelhantes.

No momento em que novos ares se desenham no “mercado político-ideológico” brasileiro e os cidadãos, em suas reflexões, procuram por alternativas mais sólidas, CARLOS LACERDA está entre a constelação de homens públicos do passado que podem oferecer aos brasileiros um referencial de esperança.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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