quarta-feira, 5 de julho de 2017

Foi-se o Martelo (4)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

As piadas sobre o comunismo são o mais estranho, engraçado e talvez até o mais significativo dos legados daqueles oitenta anos de experimentação política, na Rússia e no Leste Europeu. Ben Lewis, em seu livro “Foi-se o Martelo”, conta o que realmente aconteceu nesse período por meio das piadas e das histórias das pessoas que as contavam – muitas delas acabaram no Gulag, embora outras tenham desfrutado de altos cargos ou se tornaram estrelas do teatro e do cinema.
    
Culturalmente significativa, esta é a história de um sistema político que deixou, além das piadas, muitas perguntas sem respostas.
    
O comunismo foi uma teoria para a criação de uma utopia nacional, colocada em prática por algumas das maiores figuras históricas do século XX e imposta às populações em grande e pequena escala. Produziu a maior luta ideológica do século XX. Existem dezenas de livros sobre o assunto. Mesmo assim, dá-se pouca atenção a um de seus produtos 
                            
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​Ceauscescu, Reagan e Gorbachev viajam juntos num cruzeiro de luxo, acompanhados por seus guarda-costas. Um dia, navegando por águas infestadas de tubarões, Reagan decide mostrar as habilidades e a coragem da sua guarda. Ele tira o relógio e joga na água. “Vá pegar, John!”, ele ordena. Como uma bala, o fuzileiro naval mergulhou na água e recuperou o relógio. Os espectadores, no navio, ficaram encantados: “Que coragem!” Gorbachev, então, arremessa seu relógio na água e manda o guarda-costas pegá-lo. O agente da KGB demonstra devoção não menos incontestável. “Que coragem!”, exclama multidão. Então, Ceauscescu, para não ficar atrás, joga seu relógio na água. “Vá buscá-lo, Mihai!”. Mas o guarda não se move e diz: “De jeito nenhum.” E a multidão se surpreende ainda mais, explodindo em aplausos. “Que coragem!”
    
- Duas velhinhas famintas conversam em uma aldeia. Uma delas vê uma lesma. “Olhe, rápido”, diz uma delas. “Temos algo para comer, uma lesma.” A outra tenta pegar a lesma, mas não consegue. “Foi rápida demais para mim”, diz ela, decepcionada.
    
- Em Moscou: Você reparou que todo posto de gasolina tem agora um médico e um policial trabalhando? O médico dá os primeiros socorros aos que desmaiam quando vêem os preços, e o policial interroga aos que enchem o tanque, para saber de onde tiraram o dinheiro.
    
- O helicóptero de Ceauscescu pousa em Maramures, uma aldeia remota no extremo noroeste do país. Ele se reúne com os moradores mais velhos da aldeia e fala sobre as últimas iniciativas do governo para reverter a baixa taxa de natalidade da Romênia, Na conhecida linguagem floreada do regime, Ceauscescu diz: “Elena (a mulher dele), a mãe de todos os romenos, quer que seus filhos sejam dela. Ela quer construir a Nação com vocês”. Os moradores ouvem. Ao terminar, Ceauscescu quer saber se alguém tem alguma pergunta. Um velhinho diz: “Entendemos perfeitamente e estamos prontos a servir nosso país, mas queria saber se nós teremos que ir a Bucareste ou ela vem até aqui”.
    
- Num bonde romeno, um cavalheiro, elegantemente vestido, grita: “Não me empurre. Sou o gerente do açougue!”. Um dos passageiros diz ao amigo: “Na verdade ele é um famoso professor universitário, mas sofre de delírios de grandeza”.
     
-  “Você sabia que o padrão de vida na Romênia duplicou depois da primavera? Antes, a gente estava com fome com frio. Agora a gente está só com fome”.
    
- Os governos britânico, norte-americano e alemão oriental concordaram em lançar uma missão conjunta para resgatar o Titanic do fundo do mar. Essa cooperação inédita se tornou possível porque cada país tem um interesse diferente no navio naufragado: os britânicos querem examinar o casco para determinar a causa exata do desastre; os norte-americanos estão atrás do tesouro que afundou com a embarcação; e o governo alemão-oriental quer saber mais sobre a orquestra que continuou tocando enquanto o Titanic afundava.
    
- A catástrofe na usina atômica de Chernobyl, em abril de 1986, quando a União Soviética espalhou radiação nuclear sobre si mesma e sobre os vizinhos, desempenhou um imenso papel de impulso para as reformas e para os protestos. 135.000 pessoas foram evacuadas dos arredores da usina, em um mês. Apareceram montes de piadas de Chrenobyl, como descobriu um trio de sociólogos – um polonês, um tcheco e um húngaro – em trabalhos de campo, naquele ano. Qual o cartaz mais recente nos hospitais de Kiev? “Pacientes de radioterapia, favor sairem ao ar livre”. Quantos russos são necessários para trocar uma lâmpada? Nenum. eles já brilham sozinhos.
    
- O que os trabalhadores estavam comemorando na Parada de Primeiro de Maio, em Budapeste? A amizade radiante entre a Hungria e a União Soviética.
    
- Eric Honecker sabia que seu governo estava em perigo. Embora seja cínico a respeito de religião, no desespero, ele chama os bispos para um encontro de emergência. “Tenho problemas enormes”, confidencia. “A economia está ido para o brejo. Gorbachev está abandonando o comunismo e eu perdi a confiança em meu próprio povo. O que fazer?” Os bispos cochicham entre si por alguns momentos e um deles diz: “Bem, cada vez que Jesus tinha um grande problema, ele operava um milagre”. “O que?” gagueja Honecker. “Eu preciso andar sobre as águas ou algo assim?” Os bispos cochicham mais uma vez, e um deles diz: ”Seria uma boa idéia”. Então, o grande dia é anunciado, e milhares de alemães orientais reúnem-se em volta de um lago, nos arredores de Berlim para ver seu líder andar sobre as águas. Depois de uma grande fanfarra, Honecker dá um passo, depois outro e mais outro. Sob silêncio absoluto, Honecker realmente anda sobre as águas. Depois que ele dá dez passos, um alemão oriental diz a outro: ”Está vendo? Eu não disse que ele não sabia nadar?”
    
- Stalin, Kruschev, Brejnev e Gorbachev estão em um trem. De repente o trem para. Stalin abre a janela, furioso. “Porque paramos? Fuzilem o condutor”, ele berra. Kruschev o interrompe: “Não. Reabilitem o condutor”. Brejnev vai até à janela e fecha as cortinas “Tenho uma idéia melhor. Vamos ligar o gramofone, balançar de um lado para o outro e fingir que o trem está andando”. Finalmente, Gorbahev fala: “Camaradas, vamos todos sair e empurrar”.
    
- Há uma fila enorme para comprar vodka, em Moscou, de dois a três quilômetros, e os homens estão raivosos, culpando Gorbachev. Um deles diz: “Vou ao Kremlin, matar Gorbachev”, e sai. Uma hora depois ele volta. A fila andou um pouco, mas ainda está longe de chegar ao balcão. Os outros perguntam: “Matou Gorbachev?” “Não. A fila está maior do que esta”.
    
- Putin vai a um restaurante com os líderes das duas casas do Parlamento. O garçom chega e pergunta o que ele quer. “Quero carne”, “E os legumes?” “Eles também querem carne”.
    
- Conhece aquela do plano do Vladimir Putin para a economia russa? O objetivo é tornar as pessoas ricas e felizes. A lista das pessoas vem em anexo.
    
- Putin está em seu gabinete, com a cabeça entre as mãos, quando o fantasma de Stalin aparece. Putin conta os problemas ao fantasma, reclamando da incompetência de seus subordinados no Kremlin. “Isso é fácil de solucionar”, diz Stalin. “Fuzile todos os maus funcionários e pinte as paredes do Kremlin de azul”, “Porque azul?” pergunta Putin. “Ah! Eu sabia que você só estranharia a segunda parte”. 
    
- O Trabant, junto com o Lada russo, foi o carro mais famoso do comunismo. A produção em massa começou em 1957 e, em poucos anos, 600 estavam sendo fabricados por semana. Havia centenas de piadas sobre o Trabant: O que ocupa as últimas seis páginas do manual do proprietário do Trabant? Os horários de ônibus e de trens.
    
- Um burro para do lado de um Trabant. Ele se vira para o carro e diz: “O que você é?” “Sou um carro”, diz o Trabant, “E você?” O burro ri: “Eu sou um cavalo”.
    
- “Quantos operários são necessários para construir um Trabant?” perguntei. Houve uma pausa. Os projetistas não sabiam a resposta. Prossegui: ”Dois. Um para dobrar e outro para colar”.
    
- Eu me apresentei a um casal de jovens de 22 anos, cercado por veículos do tipo dos que faziam patrulha na fronteira na Alemanha Oriental, imaculadamente restaurados. No meio deles, flutuava uma bandeira da Alemanha Oriental, presa num mastro alto, contra um céu azul. Os jovens vestiam o uniforme de guardas de fronteira, como os que matavam, a tiros, os alemães orientais que tentavam fugir da RDA. Então, eu assestei meu estoque de piadas: “Porque um Trabant tem rodas? Para não precisar ser carregado”.  “Já ouviu aquela do Trabant que não saía do lugar quando os sinais ficavam verdes? É porque grudou num chiclete”. Eu sorri com provocação. “Como se quadriplica o valor de um Trabant?” cutuquei. “Pondo uma banana no banco de trás”. “Mais uma e leva uma porrada”, disse um dos jovens. Eu tinha, de novo, desencadeado a brutalidade por trás do flerte com o comunismo. Procurei a saída...
    
- Qual  a diferença entre um conto de fadas soviético e um conto de fadas ocidental? O ocidental começa com “Era uma vez...”. O soviético começa com “Será uma vez...”.
    
- Um velho, com uma grande barba cerrada bate à porta do céu. Pedro Petrovich o recebe e pergunta com firmeza: “Quem foi seu pai?” “Um industrial”. “E sua mãe?” “Filha de um comerciante”. “E sua mulher?” “Uma aristocrata”. “E o que você fez durante toda a sua vida?” “Viajei e escrevi livros”. “Dinastia burguesa”, observa Pedro. “Vai ser difícil, mas me diga qual é o seu nome”. “Karl Marx”.
    
- É verdade que quando chegarmos ao comunismo não haverá mais piadas políticas?” Sim, exceto esta.
    
- Penso nos montes de tiras de papel picotado que os manifestantes encontraram quando invadiram os quartéis-generais da Stasi, em 1989. A polícia secreta da Alemanha Oriental tentou moer todos os arquivos, enquanto o Muro era derrubado. Não tinham picadores de papel em número suficiente e enviaram agentes para a Alemanha Ocidental a fim de comprar todas as máquinas que encontrassem. Foi a última escassez de produto da Alemanha Oriental. “De qualquer jeito, eu não posso te contar o resto da piada, pois o final foi retalhado pela Stasi”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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