quinta-feira, 6 de julho de 2017

Foi-se o Martelo (Conclusão)

Stalin garotão 

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

As piadas sobre o comunismo são o mais estranho, engraçado e talvez até o mais significativo dos legados daqueles oitenta anos de experimentação política, na Rússia e no Leste Europeu. Ben Lewis, em seu livro “Foi-se o Martelo”, conta o que realmente aconteceu nesse período por meio das piadas e das histórias das pessoas que as contavam – muitas delas acabaram no Gulag, embora outras tenham desfrutado de altos cargos ou se tornaram estrelas do teatro e do cinema.
    
Culturalmente significativa, esta é a história de um sistema político que deixou, além das piadas, muitas perguntas sem respostas.
    
O comunismo foi uma teoria para a criação de uma utopia nacional, colocada em prática por algumas das maiores figuras históricas do século XX e imposta às populações em grande e pequena escala. Produziu a maior luta ideológica do século XX. Existem dezenas de livros sobre o assunto. Mesmo assim, dá-se pouca atenção a um de seus produtos 
                           
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As piadas de comunistas não foram a única armade resistência usada pelos cidadãos soviéticos para depor o comunismo. Essa era a fantasia dos exilados soviéticos, dos guerreiros frios e de alguns governantes e jornais do Ocidente. Mas também não foram a expressão da opinião pública anódina e historicamente irrelevante que alguns historiadores e humorólogos descrevem.
    
Havia dois tipos de humor durante o comunismo. As anedotas não oficiais, clandestinas, populares e anônimas que tinham o objetivo de descrever as falhas e crimes do comunismo, enquanto o humor oficial, manifesto nas revistas satíricas, filmes e shows de cabaré, tentavam usar a sátira para ganhar pessoas para a causa. Cada tipo de humor tinha quintas-colunas, agentes duplos e simples incrédulos em suas fileiras. Muitas das pessoas que contavam as piadas, apoiavam o comunismo; elas as usavam para suavizar os problemas, não para maldizer o sistema. Por outro lado, no campo oposto, muitos dos satiristas empregados pelo Esado, queriam usar a crítica para provocar mudanças na economia e na política do sistema soviético.
    
Apesar da composição incerta dos dois lados, uma guerra foi trava entre esses dois tipos de humor durante toda a história do comunismo. Os contadores de piadas vieram a vencer, mas não sem experimentar grandes golpes e derrotas. Primeiramente, nos anos 1920, o comunismo produziu um prolífico humor satírico, na forma de ensaios e histórias publicadas. A “era de ouro” da sátira soviética terminou com o fechamento das revistas e jornais de humor. Como conseqüência do bloqueio dos meios de comunicação impressos, uma cultura oral da sátira se desenvolveu: as piadas do comunismo. Sob Stalin, as dificuldades extraordinárias da vida diária, o confinamento de pessoas em cidades e em campos de trabalhos forçados, assim como a injustiça e a brutalidade do Estado, aos quais o cidadão era impotente para resistir geraram ma produção volumosa de piadas de humor negro. Ao mesmo tempo, o Estado desenvolveu um senso de humor oficial e “positivo”, cujo objetivo era o de conquistar corações e mentes e erradicar as deficiências do comunismo, como a burocracia precária e os trabalhadores indolentes.
    
As piadas do comunismo passaram a um segundo plano durante a Segunda Guerra Mundial, substituídas pelas piadas sobre o nazismo e as anti-semitas. As anedotas criadas pelo nazismo ou contra o nazismo na Segunda Guerra confirmam que a cultura das piadas no comunismo era especial. Diferentemente das primeiras, elas confrontavam o sistema e a ideologia do Estado, como um todo.
    
Nos anos 1950, uma cultura humorística desenvolveu-se nos países satélites soviéticos e era muito similar àquela já estabelecida na Rússia, embora acrescida de um novo gênero de piadas sobre a potência ocupante. As pessoas inventavam as piadas do comunismo, contaram-nas freqüentemente foram presas por isso. Os países satélites criaram os próprios órgãos de humor oficial.
    
Então, que humor estava “ganhando” nesse período inicial do pós-guerra? A resposta é diferente na União Soviética e em seus satélites. Na URSS, as motivações documentadas para as greves, confrontos e protestos sob Kruschev entre 1953 e 1962 sugerem que os opositores do governo acreditavam amplamente na linha de propaganda estatal – eles culpavam os burocratas, os falsos leninistas, ou Kruschev por suas mazelas, mas não Stalin ou o comunismo em si. Na União Soviética, portanto, o “humor positivo” estava funcionando. Mas nos países satélites, os levantes em Berlim em 1953 e na Hungria em 1956 sugerem o oposto, embora não saibamos até onde a oposição disseminada contra a presença soviética tenha sido motivada por objeções à ocupação e não por ideologia.
    
No final dos anos 1950, o Estado tinha deixado de prender os piadistas. A nova política fazia parte do “degelo”. Depois da morte de Stalin, as pessoas que ocupavam os altos cargos não tinham mais vontade de manter o mesmo grau de repressão contra os contadores de piadas. Eles concluíram que as piadas não representavam ameaça à sobrevivência do Estado comunista. Mas esse Estado conseguiria manter a vitória aparente sem usar a força?
    
Nos anos 1960, as piadas sobre comunismo tiveram sua idade de ouro. Surgiram em maior número do que em qualquer outro tempo. Um exilado soviético publicou um livro com 380 piadas de comunistas, em Munique, em 1951. Na Checoslováquia, em 1972, um livro com 1.001 piadas foi publicado. O Estado tentou continuar a competir com o humor oficial, mas agora nas próprias revistas e grupos de cabaré sancionados oficialmente, os produtores de humor estatal tentavam alargar os limites predeterminados. É uma questão a ser debatida o grau de sucesso desses rebeldes em tentar aumentar o número de temas que eles podiam atacar ou que efeito tinham nos leitores das revistas seus textos criptograficamente críticos.
    
O humor não oficial, enquanto isso, cresceu cada vez mais: um ponto alto ocorreu em oposição à invasão da República Checa.Mas esse acontecimento também evidenciou os limites do alcance do humor: não podia fazer nada contra tanques. Finalmente, em 1970, em resposta ao dilúvio de propaganda em torno do centenário do nascimento de Lenin, os cidadãos soviéticos começaram a contar grandes quantidades de piadas sobre o líder, pela primeira vez: o núcleo sacrossanto do comunismo havia sido penetrado. As piadas sobre Lenin, com seu conteúdo de desprezo, mostram como, já em 1970, os contadores de piadas soviéticos haviam se voltado contra o pai da Revolução e sua ideologia.
    
Disso se pode presumir que a próxima fase seria a contra-revolução. Os temas das piadas finalmente demonstraram hostilidade conta o fundador do sistema e, portanto, contra o sistema em si. Era de se esperar que as pessoas dessem seqüência às piadas com atividade prática. Mas não foi isso que aconteceu nos anos 1970. Ao contrário, começou uma er de apatia. A oposição desapareceu, exceto em pequenos grupos de dissidentes. Depois de 1964, não houve mais greves ou protestos na União Soviética e, nos anos 1970 não ocorreu nenhuma nos países-satélites, exceto na Polônia. O Estado raramente se preocupava em mandar para a prisão pessoas acusadas de “propaganda anti-soviética” nesse período. Inventavam-se menos piadas e elas não tinham nem metade da graça daqelas das eras precedentes.

A pequena oposição, na forma de algumas poucas dezenas de dissidentes, não conferia às piadas nenhum significado. Mas o humor oficial, nesse período, se mostrou impotente de m outro modo: não estava corrigindo as deficiências do comunismo – o alcoolismo, uma força de trabalho desmotivada, o desempenho econômico medíocre, e uma burocracia sufocante. No fim dos anos 1970, o humor parecia irrelevante para a história do comunismo.
    
Mas nos anos 1980 as piadas fizeram um retorno. Não que houvesse um monte de piadas novas. Mas elas estavam sendo contadas em novos lugares – lugares oficiais, públicos, com a TV, em entrevistas coletivas e encontros de cúpula. Com isso, as pessoas no interior dos regimes comunistas, incluindo seus lideres, admitiam que o comunismo estava dando “risivelmente” errado. As piadas “derrubaram” o comunismo, no sentido de que eram intrínsecas às críticas do regime, num momento compartilhado pelos líderes e os cidadãos e que causou a queda.
    
Os bons tempos voltarão algum dia? Para isso, seria preciso que o próprio comunismo retornasse, ou emergisse um novo sistema político que compartilhasse com ele certos critérios fundamentais. Diferentemente de outras ideologias, comumente reconhecidas, como o imperialismo, o capitalismo, o fascismo e o fundamentalismo, o comunismo era meramente “engraçado”, graças a uma combinação única de fatores. A ineficiência de suas teorias, a mentira de sua propaganda e a ubiqüidade da censura foram todos importantes.

A crueldade dos métodos interagiu com o senso de humor as pessoas submetidas a eles. A concentração de todo poder político e econômico nas mãos do Estado, e as tentativas do Estado de direcionar as atividades artísticas – isso tudo significava que qualquer piada que fosse crítica da vida numa sociedade comunista, era, de fato, sobre o comunismo.

Todas essas coisas criaram o humor inato e inalienável do comunismo, sua maior conquista cultural.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...


.

acp

Lida na Seleções do Reader's Digest nos anos 1970:

Um dono de livraria de Moscou foi preso e enviado à Sibéria. Ele colocara na vitrina da loja quatro livros de grande sucesso, escritos por próceres comunas, aprovados pelo partido. O problema estava na ordem em que ele os exibira:
QUEREMOS VIVER
Longe de Moscou
À SOMBRA DOS ARRANHA-CÉUS
Sob uma Bandeira Estrangeira

acp

.

Anônimo disse...



acp

Lida na Seleções do Reader's Digest nos anos 1970:

Um dono de livraria de Moscou foi preso e enviado à Sibéria. Ele colocara na vitrina da loja quatro livros de grande sucesso, escritos por próceres comunas, aprovados pelo partido. O problema estava

na ordem em que ele os exibira:
QUEREMOS VIVER
Longe de Moscou
À SOMBRA DOS ARRANHA-CÉUS
Sob uma Bandeira Estrangeira

acp

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