quarta-feira, 16 de agosto de 2017

“A gente faz as coisas erradas e é solto... Bom demais!”


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ernesto Caruso

O título reproduz as palavras de um condenado com tornozeleira eletrônica, algemado, ao lado do PM, sorrindo, alegre e mostrando com entusiasmo a peça presa à sua perna. O repórter pergunta: “O Brasil vai bem desse jeito?” e ouve: “P’ra mim vai bem... mas, para o cidadão de bem não vai não... eu uso droga, “meto o bicho”... e a polícia ainda vai me levar em casa... esse é o Brasil.”

Acredite se quiser.

O policial-militar que o detém fala ao telefone celular e informa ao interlocutor, como dito, integrante do COPEN (Conselho Penitenciário), que o preso foi autuado pela quebra da medida cautelar e uso de drogas, acrescenta que o delegado alega competir ao COPEN receber o indigitado, já que está com a tornozeleira e que se o COPEN discordar, ele (delegado) também não vai recolhê-lo.

Durante o diálogo, enquanto ouve o interlocutor explicando não poder receber o preso, “que tem que liberar”, comenta em voz baixa, nitidamente desiludido, contrariado, “uma beleza, uma beleza meu irmão... Brasil... eu vou levar ele em casa... polícia desmoralizada... eu sou taxista de vagabundo... vou levar esse cidadão de bem... junto com a sua família... tô de graça, tô morto...”. Para chocar mais e demonstrar a sua indignidade insinua abraçá-lo e diz, “é meu amigo...”.

O desencanto do policial, presente no âmago do lado bom da sociedade, em todas as classes, repercute pelas redes sociais de modo incontrolável, gradualmente sedimentado e produzindo reações explosivas nas palavras chulas e crescentes a indicar o limite entre a razão e a explosão dos sentimentos. Como se expressou o detido sorridente, “P’ra mim vai bem... mas, para o cidadão de bem não vai não” ao responder à pergunta: “O Brasil vai bem desse jeito?”.

No lado marginal da sociedade em qualquer das classes, a descrença do policial na gestão pública, transformada em revolta pela corrupção generalizada, temperada pelo uso e disseminação das drogas e elevada à enésima potência na cabeça do adolescente, deseducado em casa e na escola, às vezes abandonado, produz o quê?

Soldado do crime organizado! E em progressão geométrica. É o que se assiste diariamente. No grau mínimo da revolta, o saque ao caminhão tombado na estrada, na avenida ou levado para a favela, onde o poder público não chega a não ser para as tentativas infrutíferas de neutralizar os bandos que se formam constantemente.

Reação em cadeia (de concreto, insuficiente face à necessidade) se alastra pelo país, inconteste guerrilha urbana, expropriação cópia da luta ideológica, onde os bandos superam em muito o dispositivo policial das cidades do interior onde um dia o cidadão viveu em paz. Paz que não se desfruta nos grandes centros urbanos, desgraçadamente administrados como no Rio de Janeiro desde o início dos anos 1980.

A tônica era de que polícia não sobe os morros e ao invés de transformá-los em bairros, abrindo vias de acesso aos serviços básicos, optou-se por uma “liberação geral”, posse, demagogia, desorganização, gueto; posturas municipais, meio ambiente e ordem só para o asfalto, mais ou menos.

Os barracos de zinco e madeira, celebrizados pelo poeta “Ai, barracão, pendurado no morro e pedindo socorro à cidade a seus pés/Ai barracão tua voz eu escuto...”, se transformaram em alvenaria; os governos não ouviram a voz do morro, nem a do barracão que pedia socorro. Sítio primário que se espalhou como câncer no Brasil, muito mais doente nas décadas iniciais deste século vinte e um.

Cenas como essa do policial descrente se repetem às dezenas, às centenas. Não é só com bandidinho, mas com bandido graúdo. Um prende e solta abominável face ao estupefato e inconformado povo brasileiro. Não se trata só de político, conseqüência das sentenças do juiz Sérgio Moro a prender, e por outros juízes a soltar.

A lei é que não presta, quem a faz é incompetente ou mal intencionado ou, estamos diante do fato consumado, irreversível, do caos total?  A toga está rota, esfarrapada? O agente público é desprezível, relapso e vendido?
Não é crível, nem aceitável que todo o poder público esteja contaminado, mas a desesperança parece ter contaminado a sociedade.

Há que se pensar em barreira que seja forte o suficiente para conter o mar de lama que grassa pelo país e para que não se repitam os malfeitos no caso da barragem Samarco/município de Mariana.



Ernesto Caruso é Coronel de Artilharia e Estado Maior, reformado.

4 comentários:

Anônimo disse...

Cleonice I Ferreira disse:
Senhor Coronel Ernesto Caruso, por que o pobre tem que ficar preso e criminosos que saquearam a Nação podem ficar livres, leves e soltos? Ou a LEI é para ser cumprida por todos ou não é Lei.
Que Lei é essa que quase vale?
Os nossos jovens estão totalmente desamparados pela família e pelo Estado. São triturados diariamente. Não recebem a mínima educação nem da família nem do Estado.
Triste Estado que massacra seus soldados e seus jovens.
Quantas gerações têm que ser destruídas para manter esse sistema perverso e tirânico?
O artista chinês Ai Wang Wang declarou em entrevista que achava o mundo hoje muito perigoso, pois não é possível saber quem é amigo ou inimigo, referindo-se a países.
Afirmava que os muito ricos estavam muito UNIDOS e os pobres muito desunidos.(Os muito ricos:- PAÍSES. Os pobres:- PAÍSES).
Vejamos um retrato do nosso Brasil:
1-Corrupção generalizada.
2- Mais de 50% (cinqüenta por cento) não tem o menor sentimento de patriotismo.
3- As Instituições todas desacreditadas.
O Senhor Coronel não acha isso muito perigoso?
Será que este Estado existirá amanhã? Estou cheia de dúvidas!

Paulo Robson Ferreira disse...

Isso é o que dá se legislar com sentimentalismo. Isso caracteriza o que se chama de baixa inteligência emocional e é um dos maiores problemas da humanidade, há muitos anos. Todos os movimentos sectários que tantos sofrimentos trouxeram à humanidade, exploraram, exatamente isso:o baixo nível de inteligência emocional da população. As esquerdas quando fingem produzir justiça social, o nazismo quando falava em depuração da raça, a inquisição quando dizia higienizar a comunidade católica matando os hereges etc. todos esses movimentos exploraram sempre o sentimentalismo. Uns matam em nome do sentimentalismo, e outros poupam os bandidos qualificando-os de vítimas da sociedade. Tudo como consequência do uso das emoções sem uma participação lúcida da razão. A humanidade está muito atrasada nessa disciplina: Inteligência Emocional.

Anônimo disse...

É possível e bastante lógico, Cleonice I Ferreira, que o Estado, não apenas o brasileiro, mas de todo o continente, só fronteiras geográficas, o Brasil, assim como os outros Territórios da américa latrina, já ultrapassaram o ponto de retorno... O Brasil está competindo com a África, para ver quem ganha... o Brasil está na fente...
A maneira como os militares estão se comportando diante do fim eminente, só prova isso...

Anônimo disse...

A verdade:

-- Não existe nenhum sentimento nessas decisões
-- Tudo é planejado nos mínimos detalhes
-- É uma ação de guerra real em andamento

O resultado é a quebra do Estado.