terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Grande Fome de Mão - I


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

 O texto abaixo é o prefácio do livro título deste artigo. Foi escrito por FRANK DIKÖTTER. Nascido na Holanda em 1961, formado em História e Russo pela Universidade de Genebra. É professor catedrático de Humanidades da Universidade de Hong-Kong.

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Entre 1958 e 1962, a China desceu ao inferno. Mao Tsé-Tung, presidente do Partido Comunista Chinês, jogou o seu país em um delírio com Grande Salto Adiante, uma tentativa de alcançar e superar a Grã-Bretanha em menos e quinze anos. Ao liberar o maior ativo da China, uma força de trabalho que se contava em centenas de milhões, Mao sonhou que poderia catapultar seu país para a dianteira dos competidores... em vez de seguir o modelo de desenvolvimento soviético,que se inclinava acentuadamente para a indústria, a China “caminharia sobre duas pernas”.

As massas camponesas foram mobilizadas para transformar a agricultura e a indústria ao mesmo tempo, convertendo uma economia retrógada numa sociedade comunista moderna, com abundância para todos. Na perseguição de um paraíso utópico, tudo foi coletivizado, e os aldeões foram arrebanhados em comunas gigantescas, que proclamavam o advento do comunismo. As pessoas do campo foram roubadas de seu trabalho, de seus lares, de suas terras, de seus pertences e de seus meios de subsistência.

A comida, distribuída às colheradas nos refeitórios coletivos segundo o merecimento, transformou-se em arma para forçar as pessoas a seguir todos os ditames do Partido. As campanhas de irrigação forçaram até a metade dos camponeses a trabalhar durante semanas a fio em projetos de reservatórios e água gigantescos, freqüentemente distantes de casa, sem alimento e descanso adequados. A experiência terminou na maior catástrofe que o país jamais conheceu, destruindo dezenas de milhões de vidas.

À diferença de desastres comparáveis, como, por exemplo, os que aconteceram sob Pol Pot, Adolf Hitler ou Joseph Stalin, as verdadeiras dimensões do que aconteceu durante o Grande Salto Adiante continuam pouco conhecidas, isso porque durante muito tempo o aceso aos arquivos do Partido foi proibido a todos, exceto aos historiadores confiáveis, respaldados por credenciais do Partido. Mas uma nova Lei do Arquivo abriu, recentemente, grande quantidade de material para historiadores profissionais, mudando o modo de estudar a era maoísta.

Este livro se baseia em bem mais de mil documentos, coletado durante vários anos em diversos arquivos do Partido, do Ministério das Relações Exteriores, em Pequim, e de grandes coleções provinciais em Hebei, Shandong, Gansu, Hubei, Hunan, Zhejiang, Sichuan, Guizhou, Yunnan e Guangdong, e em coleções menores, porém igualmente valiosas, em cidades e condados por toda a China.

O material inclui relatórios secretos do Departamento de Segurança Pública; minutas detalhadas de encontros da cúpula do Partido; versões sem censura de discursos de importantes lideranças; pesquisas das condições de trabalho no campo; investigações de casos de assassinatos em massa; confissões de líderes responsáveis pela morte de milhões de péssoas; inquéritos coligidos por equipes especiais enviadas para descobrir a extensão da catástrofe nos últimos estágios do Grande Salto Adiante; relatórios gerais da resistência camponesa durante a campanha de coletivização; pesquisas secretas de opinião; cartas escritas por gente comum e muito mais.

O eu surge desse massivo e detalhado dossiê transforma o nosso entendimento do Grande Salto Adiante. Quando se traa do número geral de mortos, por exemplo, os pesquisadores tiveram, até agora, de inferir das estatísticas oficiais de população, incluindo números dos censos de 1953, 1964 e 1982. Suas estimativas vão de 15 a 32 milhões de mortos. Mas os relatórios de segurança pública compilados na época, em como os volumosos relatórios secretos cotejados pelos comitês do Partido nos últimos meses do Grande Salto Adiante mostram como esses cálculos são corretos e apontam para uma catástrofe de magnitude muito maior: este livro mostra que pelo menos 45 milhões de pessoas morreram desnecessariamente entre 1958 e 1962.

O termo “Fome” ou até mesmo “Grande Fome”, é freqüentemente usados para descrever esses 4 a 5 anos da era maoísta, mas o terno não consegue captar as muitas formas pelas quais as pessoas morreram sob a coletivização radical. O uso displicente do termo “fome” também deu suporte à versão amplamente disseminada de que essas mortes eram conseqüência não intencional de programas econômicos mal feitos e mal executados. Assassinatos em massa não são usualmente associados a Mao e ao Grande Salto Adiante, e a China continua a se beneficiar de uma comparação mais favorável com a devastação comumente associada ao Camboja e à União Soviética.

Mas, como demonstram as novas provas apresentadas nesse livro, coerção, terror e violência sistemática foram a base do Grande Salto Adiante. Graças aos relatórios freqüentemente meticulosos compilados pelo próprio Partido, podemos inferir que entre 1958 e 1962, em estimativa aproximada, 6% a 8% das vítimas foram torturadas até à morte ou sumariamente mortas – ascendendo, no mínimo, a 2,5 milhões de pessoas. Outras vítimas foram deliberadamente privadas de comida e morreram de inanição. Muitas outras desapareceram porque eram velhas, fracas ou doentes demais para trabalhar – e, portanto, incapazes de ganhar seu sustento.

Pessoas eram mortas seletivamente porque eram ricas, porque faziam cera, porque falavam, porque simplesmente não eram estimadas ou por qualquer outra razão, pelo homem que empunhava a concha no refeitório. Incontáveis pessoas foram mortas indiretamente por negligência, uma vez que os oficiais estavam sob pressão para focar mais os números que as pessoas, para garantir que preenchessem as metas que lhes eram entregues pelos responsáveis pelo planejamento.

Uma visão de abundância prometida não apenas motivou um dos assassinatos em massa mais terríveis da História, como também infligiu danos sem precedentes à agricultura, ao comércio e ao transporte. Panelas, caçarolas e ferramentas eram atiradas em fornalhas de fundo de quintal para aumentar a produção de aço no país, vista como um dos mágicos fazedores do progresso.

Os rebanhos declinaram precipitadamente não apenas porque os animais eram abatidos para o mercado externo, porque também sucumbiam em massa de doenças e fome – apesar dos extravagantes planos de gigantescas fazendas de criação de porcos que traiam carne para todas as mesas. O desperdício aumentou porque produtos em estado bruto e suprimentos eram mal alocados e porque os chefes das fábricas deliberadamente quebravam as regras para aumentar a produção. Como todos cortavam caminho na incansável perseguição de uma produção maior, as fábricas cuspiam bens de qualidade inferior que se acumulavam nos desvios das linhas férreas sem serem recolhidos.

A corrupção se infiltrou em todos os lugares e aspectos da vida chinesa, manchando tudo, do molho de soja às usinas hidroelétricas. O sistema de transporte se deteriorou totalmente até parar por completo, incapaz de atender às demandas criadas por uma economia planificada. Bens no valor de centenas de milhões de yuans se acumulavam em refeitórios, dormitórios e até nas ruas, grande parte do estoque simplesmente apodrecendo ou enferrujando. Teria sido difícil planejar um sistema de maior desperdício, em que os cereais eram deixados sem serem recolhidos à beira de estradas de erra no campo, enquanto as pessoas roubavam raízes ou comiam lama.
    
Este livro também documenta como a tentativa de saltar para dentro do comunismo resultou na maior destruição de propriedade da História humana – superando de longe os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Até 40% de todas as moradias se tornaram entulho, enquanto casas assim eram derrubadas paa cultivar fertilizantes, construir refeitórios, reassentar camponeses, endireitar o trajeto de estradas, abrir espaço para um futuro melhor ou simplesmente para punir seus ocupantes.

A natureza também não escapou da destruição. Nunca saberemos qual foi a perda total de cobertura de florestas durante o Grande Salto Adiante, mas um ataque intenso e prolongado à natureza reclamou até metade das árvores plantadas em algumas províncias. Rios e cursos d’água sofreram também em todo o país, represas e canais construídos por centenas de milhões de fazendeiros a um custo humano e econômico, tornaram-se, na maior parte, inúteis ou até perigosos, resultando em deslizamentos de terra, obstrução de rios, salinização do solo e devastadoras inundações.

Assim, o significado deste livro está de forma alguma restrito à fome. O que relata, freqüentemente com angustiante detalhamento, é o quase colapso de um sistema social e econômico no qual Mao havia apostado seu prestígio. Enquanto a catástrofe se propagava, o líder atacava seus críticos paa manter a posição como indispensável líder do Partido.

Depois que a fome chegou ao fim, no entanto, novas facções apareceram, opondo-se fortemente ao presidente: para ficar no Poder, ele teve de virar o país de cabeça para baixo com a Revolução Cultural. O elemento essencial da história da República Popular da China foi o Grande Salto Adiante. Qualquer tentativa de compreender o que aconteceu na China Comunista deve iniciar por colocá-lo no centro de todo o período maoísta.

De maneira muito mais geral, enquanto o mundo moderno luta para encontrar um equilíbrio entre a liberdade e a regulação, a catástrofe desencadeada na época permanece como um lembrete do quanto é profundamente equivocada a idéia do Estado planejador como antídoto para o caos.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

fabrice disse...

Sr. Historiador:
Releve a minha ousadia, mas faço-lhe uma sugestão que, certamente, vai aumentar a satisfação e o número dos seus leitores. O senhor tem postado textos interessantes, mas desprovidos de cuidados na apresentação, de uma boa edição e de uma necessária correção dos erros de ortografia (ou digitação) e de concordância primários, tornando a leitura enfadonha, no mínimo. Veja alguns exemplos: no post de 22/08/17, “A Grande Fome de Mao – I” já no título está grafado “Mão” (será que todos os leitores do Alerta Total sabem, realmente, quem foi Mao Tsé-Tung?), e a melhor tradução para esse projeto maoísta é “Grande Salto para a Frente”. A seguir, observações sobre alguns parágrafos: 3º § - ...projetos DE reservatórios de água.../ 5º § - ... mil documentos COLETADOS.../ 7º § - O QUE surge...Quando se TRATA do.../...BEM como os volumosos.../ 8º § - O termo “Fome” ou...é frequentemente USADO... mas o TERMO..., etc. Parei aqui.