quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Grande Fome de Mão - II


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o epílogo do livro título deste artigo. Foi escrito por FRANK DIKÖTTER. Nascido na Holanda em 1961, formado em História e Russo pela Universidade de Genebra. É professor catedrático de Humanidades da Universidade de Hong-Kong.
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O momento decisivo ocorreu em janeiro de 1962, quando sete mil quarós chegaram de todas as partes para participar da maior conferência de trabalho jamais realizada no vasto e moderno Salão do Povo, em Pequim. Lai Shaoqi, o chefe de Estado, divulgou o relatório oficial para uma audiência apinhada e falou por três horas, sem parar. Ele não confrontou Mao diretamente, o que teria sido impensável, mas repetiu abertamente tudo o que dissera a portas fechadas para um pequeno grupo de lideres seniors, seis meses antes. Em Hunan, explicou, os agricultores creditavam que as “dificuldades” eram 30% devidas a calamidades naturais e 70%a desastres provocados pelo homem.

O próprio uso dos termos “desastres provocados pela mão do homem” (renhuo) foi uma bomba e arrancou aclamações da audiência. Enquanto Liu prosseguia e rejeitava a expressão “nove dedos para um”, a frase favorita de Mao para enfatizar as conquistas sobre os reveses,a tensão se torna palpável. “Em geral, nossos sucessos têm sido primários; as falhas e os erros são secundários, ocupam a segunda posição. Eu me pergunto se podemos dizer, genericamente falando, que a razão das conquistas em relação aos recuos é de sete para três, embora em cada região seja diferente.

Um dedo para nove dedos não se aplica em todos os lugares. Há apenas um pequeno número de regiões onde os erros são iguais a um dedo e os sucessos iguais a nove dedos.” Mao interrompeu Liu, visivelmente aborrecido. “Não é de forma alguma um número pequeno de regiões, por exemplo, em Hubei, apenas 20% das regiões reduziram a produção, e em Jiangsu, 30% de todas as regiões aumentaram a produção, ano após ano!” Mas Liu não se deixou intimidar e continuou. “Em geral, não podemos dizer que seja meramente um dedo, mas antes três, e, em alguns lugares, é até mais: por exemplo, na região de Xinyang ou na região de Tianshui. E quem foi responsável por esse desastre? Liu pôs abertamente a culpa na liderança central.
    
De fato, Liu tentou apaziguar o presidente ao defender a linha geral do Partido, adiando o veredicto sobre as comunas para cinco, ou talvez dez anos mais tarde. Mas Mao se enfureceu mesmo assim. “Ele fala sobre desastres naturais contra desastres feitos pelo homem. Esse tipo de conversa é um desastre em si”, confidenciou para seu médico.
    
Lin Piao, o general que havia acorrido em defesa do presidente na Conferência de Lushan, em 1959, elogiou novamente o grande Salto Adiante e o aclamou como uma realização sem precedentes quando comparado a qualquer outro período da história do país. Com entusiasmo exagerado recitou:

“Os pensamentos do presidente Mao estão sempre corretos (...) A superioridade do presidente Mao tem muitos aspectos, não apenas um, e eu sei, por experiência, que a qualidade mais destacada do presidente Mao é o realismo. O que ele diz é muito mais realista que o que outros dizem. Ele está sempre muito próximo do alvo. Ele nunca está fora de contacto com a realidade (...) Sinto profundamente que, quando no passado, nosso trabalho foi bem feito, foi precisamente quando implementamos de modo completo e não interferimos com o pensamento do presidente Mao. Toda vez que as idéias do presidente Mao não foram suficientemente respeitadas ou sofreram interferências, houve problemas. Isso é essencialmente o que mostra a história do nosso Partido nas últimas décadas.
    
Chu En-lai fez o que sempre fazia melhor. Tentou absolver o presidente Mao ao absorver grande parte da culpa pelo que dera errado e assumir responsabilidade pessoal pelas requisições excessivas de grãos, pelos números inflados de produção, pela retirada dos grãos das províncias e pelas exportações crescentes de alimentos. “Isso é erro meu”, declarou, e foi adiante para asseverar que ‘as falhas e os erros dos últimos anos ocorreram precisamente  quando infringimos a linha geral e as preciosas instruções do presidente Mao. Chu En-lai tentou construir uma ponte no vazio que se abriu entre Mao e Liu, mas não adiantou.
     
Nunca saberemos quando Mao decidiu livrar-se de Liu e pôr em movimento a Revolução Cultural que destruiria as vidas de todos que se opuseram a ele durante o Grande Salto Adiante.Mas um bom palpite é que ele começou a tramar a eliminação da sua cada vez mais ameaçadora nêmese assim que percebeu que todo o seu legado e sua posição na História estavam em perigo. 
    
O momento definidor pode ter sido uma tarde de verão em julho de 1962, quando Mao boiava em sua piscina. Ele tinha sido chamado com urgência de volta a Pequim por Liu e estava de mau humor. O filho de Liu recorda que seu pai se aproximou apressadamente do presidente e foi solicitado a explicar o porquê da pressa. Liu começou a relatar que Chen Yun e Tian Jiayng, dois dos críticos mais francos do Grande Salto Adiante, queriam apresentar formalmente seus pontos de vista sobre a distribuição de terras. Mao logo explodiu em uma torrente de denúncias. Mas Liu não desistiu.
Falou apressadamente: ‘Tantas pessoas morreram de fome!”. Depois, deixou escapar: “A História julgará você e eu, até canibalismo irá para os livros”.
    
Mao foi tomado por uma grande fúria. ‘As três Bandeiras Vermelhas foram derrubadas, agora a terra está sendo dividida novamente”, gritou. “O que você fez para resistir a isso? O que vai acontecer depois que morrer?”
    
Os dois homens se acalmaram e Mao concordou em que uma política econômica de ajustamento deveria continuar. Mas o presidente agora estava convencido de que havia encontrado o seu Kruschev, o servo que denunciara o patrão, Stalin. Liu, concluiu Mao, era obviamente o homem que publicaria um discurso secreto e denunciaria todos os seus crimes. Mao esperava o momento propício, mas o trabalho paciente para lançar uma Revolução Cultural que dividiria o Partido e o país já havia começado.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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