sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Anatomia de uma campanha de Desinformação


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET.

O comunismo não é uma ideologia na qual se acredita, mas uma conspiração criminosa na qual se toma parte 

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A guerra entre o comunismo e a Igreja Católica é quase tão velha quanto o próprio comunismo. Em 1846, dois anos antes de Karl Marx publicar o seu MANIFESTO COMUNISTA, o Papa Pio IX se referiu àquela “doutrina infame assim chamada de comunismo, que é absolutamente contrária à Lei Natural” e que “destruiria completamente os direitos, a propriedade, e as posses de todos os homens”. Depois da II Guerra Mundial, na medida em que a União Soviética espalhava sua doutrina comunista por novos territórios, a batalha se tornou mais feroz.
    
No dia 3 de junho de 1945, a rádio Moscou declarou oficialmente que o líder da Igreja Católica, o Papa Pio XII, fora o “Papa de Hitler”, insinuando assim de maneira mendaz que ele fora um aliado nazista durante a II Guerra Mundial. Foi a primeira descarga de tiros de uma operação calculada da SMERSH (*) para manchar, aos olhos do mundo, a reputação do Papa reinante.
     
A insinuação da Rádio Moscou caiu no nada. Logo no dia anterior, 2 de junho de 1945, uma alocução ao Colégio dos Cardeais, transmitida pela Rádio do Vaticano, Pio XII falou do “espectro satânico do nazismo” e notou que seu antecessor, Pio XI, o chamou do realmente era: “a arrogante apostasia diante de Jesus Cristo, a negação de Sua doutrina e de Sua obra de redenção, o culto da violência, a idolatria da raça e do sangue,  destruição da liberdade e dignidade humana”. Quanto aos seus próprios esforços, Pio XII explicou:
    
“Continuando o trabalho do nosso antecessor, durante a guerra Nós nunca deixamos de nos opor à doutrina nazista e de praticar as leis inabaláveis de humanidade e fé cristã. Esse Nós foi o modo mais apropriado, podemos dizer que até o mais eficiente, de proclamar diante do mundo os princípios imutáveis da lei moral,em meio a tanto erro e violência, para confirmar as mentes e os corações dos católicos alemães nos mais altos ideais da Verdade e da Justiça. Tampouco isso foi em vão. De fato sabemos que Nossas transmissões de rádio, especialmente a do Natal de 1942, eram, a despeito de todas as proibições e obstáculos, estudadas em conferências diocesanas e expostas ao povo”.
    
Pio XII também se referiu à morte de cerca de 2 mil padres católicos em Dachau. O pontífice do período de guerra não se mostrou diferente em sua abordagem dos nazistas, sem distinguir se as vítimas eram padres católicos ou camponeses judeus.
    
A edição, em junho de 1944, de um boletim lançado pelo “Grupo da Brigada de Judeus” (VIII Exército dos EUA) trazia um editorial de primeira página que punha inteiramente abaixo a insinuação da Rádio Moscou: “Para glória eterna do povo de Roma da Igreja Católica Romana, podemos declarar que a sina dos judeus foi amenizada por suas ofertas verdadeiramente cristãs de assistência e abrigo. O jornal da Federação Israelita de Trabalho, o DAVAR, trazia declaração de um oficial de brigada judaica, dada logo após a liberação de Roma:
    
“Quando entramos em Roma, os sobreviventes judeus nos disseram, com voz cheia de profunda gratidão e respeito: ‘Se nós fomos resgatados, se os judeus ainda estão vivos em Roma, venha conosco e agradeça ao Papa no Vaticano. Pois no próprio Vaticano, em igrejas, mosteiros e em casas particulares os judeus foram escondidos por ordem pessoal do Papa’.”   
    
Outro acontecimento, de poucas semanas antes, fez da Rádio Moscou algo inteiramente ridículo. No dia 13 de fevereiro d 1945, o Rabino chefe de Roma e sua esposa – Israel e Emma Zolli – converteram-se ao catolicismo numa cerimônia amplamente divulgada. Zolli adotou o nome cristão de Eugênio, em homenagem ao homem que, de acordo com ele, tanto fizera para proteger os judeus durante a guerra: o Papa Pio XII, nascido Eugênio Pacelli. Em seu livro de memórias de 1945, Zolli explicou:
    
“Nenhum outro herói na História comandou um tal exército, um exército d padres que trabalha que trabalha nas cidades e pequenos interiores para prover pão para os perseguidos e passaportes para os fugitivos. Freiras vão a tabernas para dar hospitalidade a mulheres refugiadas. Superiores de conventos saem à noite para encontrar soldados alemães que procuram por vítimas... Pio XII é seguido por todos aqueles que possuem aquele fervor da caridade que não teme morte alguma”.
    
Pode ser difícil para alguém que não estava lá, no coração da perseguição fascista aos judeus, compreender porque o Rabino Zolli adotou o nome de Pio XII, contudo, tinha há pouco testemunhado como milhares e milhares de vidas da sua própria Congregação, pessoas que ele conhecia e amava, tinham sido salvas por Pio XII, e Zolli decidiu prestar as honras a seu modo. Ele escreveu que a sua conversão foi baseada em uma verdadeira revelação religiosa, mas que escolheu o nome cristão de Eugênio e o Papa como seu padrinho, como forma de agradecê-lo por seus esforços para proteger os judeus durante a guerra.
        
(*) SMERSH (acrônimo de SMERt' SHpionam, Russo: СМЕРть Шпионам, Português: Morte aos Espiões) foi o nome do departamento de contra-espionagem do GRU (Diretório Principal de Inteligência) da União Soviética. A organização foi criada a mando do ditador Josef Stalin e estava sob o seu controle direto. Seus principais objetivos eram: (I) Proteger o Exército Vermelho de partisanssabotadores e espiões, (II) investigar e prender conspiradoresrebeldes, traidores, desertores, espiões e criminosos, (III) auxiliar o comando geral em operações estratégicas, (IV) coordenar a deportação de grupos étnicos.

As unidades do SMERSH também foram acusadas de matar militares do próprio Exército Vermelho que fugiam das tropas alemãs. Ao ser capturado pelo inimigo, o militar soviético era considerado traidor, e caso conseguisse fugir corria o risco de ser morto ou enviado para um campo de trabalho forçado.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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