segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Assim foi Auschwitz


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

PRIMO LEVI era um químico italiano de apenas 24 anos quando foi capturado pelas forças fascistas italianas e deportado para o campo de concentração de Auschwitz, a fábrica da morte construída pelo regime nazista para executar judeus, homossexuais, comunistas e ciganos.
    
Em 1945, após sua libertação, militares soviéticos encarregaram Levi e outro prisioneiro, o médico Leonardo De Benedetti, de elaborar um relatório detalhado sobre as inomináveis condições de saúde dos campos. O resultado foi o “Relatório sobre Auschwitz”, um testemunho extraordinário e pioneiro sobre os campos de concentração, e ainda hoje uma peça impressionante a respeito da prática clínica num lugar de desumanização e extermínio. Detalhes escabrosos, escatológicos e aviltantes a respeito do cotidiano dos médicos, enfermeiros e pacientes são apresentados numa prosa sóbria, cristalina e anti-sentimental.
    
Publicado em 1946 numa revista científica, o relato inauguraria o trabalho de PRIMO LEVI como escritor. Nas quatro décadas seguintes, PRIMO LEVI nunca deixaria de contar a experiência em Auschwitz em diversos textos. São relatos, depoimentos, cartas e comentários publicados quase até às vésperas de sua morte, em 1987. Invocam, com o poder do testemunho e a desconcertante claridade de sua prosa, a agonia de milhões de pessoas que experimentaram o inferno em um sistema diabolicamente concebido para espoliar do homem tudo o que ele tem – seu corpo, sua esperança e, por fim, sua própria vida.
    
A seguir um desses textos, intitulado “Aniversário”, escrito por ele em 1955:
    
A dez anos de libertação dos Campos de concentração, é triste e significativo ter de constatar que, pelo menos na Itália, o tema desses locais de extermínio, longe de ter ingressado na história, segue no mais completo esquecimento.
    
É supérfluo, aqui, recordar os números, que essa foi a mais gigantesca carnificina da história, a ponto de reduzir quase a zero, por exemplo, a população judaica de nações inteiras da Europa Oriental. Relembrar que, se a Alemanha nazista tivesse sido capaz de levar seu plano a termo, a técnica experimentada em Auschwitz e em outros locais teria sido aplicada a continentes inteiros.
    
Atualmente, é indelicado falar dos Campos de concentração. Corremos o risco de sermos acusados, na melhor das hipóteses de vitimismo ou de amor gratuito pelo macabro; e na pior, de pura e simples mentira ou, talvez, de ultraje ao pudor.
    
Esse silêncio é justificado? Devemos tolerá-lo, nós, os sobreviventes? Devem tolerá-lo aqueles que, petrificados pelo espanto e pela repugnância, assistiram, entre golpes, blasfêmias e gritos desumanos, às partidas de vagões lacrados e, anos mais tarde, ao regresso de pouquíssimos sobreviventes, alquebrados de corpo e espírito? É justo que se considere cumprido o dever da declaração que fora tida como necessidade e obrigação imediata?
    
Uma única resposta é possível. Não é lícito esquecer. Não é lícito calar. Se calarmos, quem falará? Certamente não os culpados e seus cúmplices. Se não dermos nossos testemunhos, num futuro próximo as ações da barbárie nazista, por sua própria enormidade, poderão ser relegadas às lendas. Portanto, é preciso falar.
   
No entanto, o silêncio predomina. Parte dele é fruto de uma consciência insegura, ou mesmo de uma má consciência; é o silêncio daqueles que, solicitados ou forçados a exprimir um juízo, tentam se desviar a todo custo da discussão, e invocam as armas nucleares, os bombardeios indiscriminados, o processo de Nuremberg, os problemáticos campos de trabalho soviéticos; argumentos não desprovidos de peso em si, mas totalmente irrelevantes para os fins de uma justificativa moral dos crimes fascistas, que constituem, eles próprios, um monumento de ferocidade sem paralelo em toda a história da humanidade.
    
Mas não é descabido mencionar outro aspecto desse silêncio, dessa reticência, dessa evasão. Que se calem na Alemanha, que se calem os fascistas, é natural, e no fundo não nos desagrada. Suas palavras não nos servem para nada, não esperamos risíveis tentativas de justificação da parte deles. Mas o que dizer sobre o silêncio do mundo civilizado, da cultura, nosso próprio silêncio, diante de nossos filhos, dos amigos que regressam de longo exílio em países distantes? Ele não se deve apenas ao cansaço, ao desgaste dos anos, à atitude normal do primum vivere. Não se deve à vileza. Existe em nós uma instância mais profunda, mais digna, que em muitas circunstâncias aconselha-nos a calar sobre os Campos de concentração ou, pelo menos, a atenuar, a censurar suas imagens, ainda tão vivas em nossa memória.
    
É a vergonha. Somos homens; pertencemos à mesma família humana de nossos carrascos. Diante da enormidade de suas culpas, também nos sentimos cidadãos de Sodoma e Gomorra. Não conseguimos ser alheios à acusação de um juiz extraterreno que, na esteira de nosso próprio testemunho, levantaria contra a humanidade toda.
    
Somos filhos dessa Europa onde está Auschwitz, vivemos nesse século em que a ciência se rendeu e gerou o código racial e as câmaras de gás. Quem pode se dizer seguro de estar imune à infecção?
    
E há ainda mais a dizer: coisas dolorosas e duras que, para quem leu Les Armes de La Nuit, não impressionariam. Considerar gloriosa a morte de inumeráveis vítimas dos campos de extermínio é vaidade. Não era gloriosa, era uma morte indefesa e nua, ignominiosa e imunda. Assim como não é gloriosa a escravidão, houve quem soube sofrê-la incólume, exceção a ser considerada com um reverente assombro, mas ela é uma condição essencialmente ignóbil, fonte de degradação quase inevitável e de naufrágio moral.
    
É bom que essas coisas sejam ditas, porque são verdadeiras. Mas que fique bem claro que isso não significa associar vítimas e assassinos. Isso não alivia, pelo contrário centuplica a culpa dos fascistas e dos nazistas. Eles demonstraram para todos os séculos vindouros as reservas de perversidade e de loucura que jazem latentes no homem depois de milênios de vida civilizada, e esta é uma obra demoníaca. Trabalham com tenacidade para criar sua gigantesca máquina geradora de morte e corrupção; um crime que não seria concebível. Construíram seu reino com insolência, por meio do ódio, da violência e da mentira. Seu fracasso é um alerta.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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