terça-feira, 22 de agosto de 2017

Brasileiros: a grande vítima


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Hélio Duque

É preciso dizer esta verdade: o Brasil está fiscalmente quebrado. Os gastos do setor público são superiores ao que se arrecada, gerando “déficit primário” de 2,2% do PIB (Produto Interno Bruto). A redução das receitas, entre 2011 e 2015, oriundas da equivocada política econômica, anulou o superávit primário médio que vinha sendo de 2,4%. A dívida bruta em relação ao PIB, como decorrência da nova matriz econômica, produziu o desastre em que estamos mergulhados.

Investimento em infraestrutura, saúde, segurança, educação e afins  foram as principais vítimas. Sem reformas estruturais que limite os gastos públicos, disciplinar o poder do corporativismo estatal, a situação fiscal será caótica. Em 2017, o déficit primário previsto é de R$ 159 bilhões. Para 2018, o cenário não é diferente.
                  
Ante essa realidade, quem acompanha o noticiário veiculado pela mídia eletrônica, a ação dos parlamentares e dos analistas políticos, essas questões são tangenciadas. A falta de rudimentares conhecimentos da economia da maioria dos políticos e de muitos analistas na área jornalística, não enxergam a gravidade do momento em que está mergulhada a economia brasileira.

No Congresso prevalece a falta de racionalidade no enfrentamento realista, com propostas consistentes, seja à direita ou à esquerda, despidas de ranços populistas. Em áreas do jornalismo político televisivo contenta-se em relatar episódios isolados envolvendo os personagens públicos em tramas e fofocas, atribuindo a fontes dos bastidores.

O jornalismo político, divorciado da realidade econômica, e a grande maioria dos homens públicos não informam a sociedade com rigor da crise fiscal gravíssima. O governo Michel Temer, enquanto vice-presidente, foi partícipe juntamente com o seu partido, do desastre fiscal e econômico construído ao longo do governo Dilma Rousseff. Ao chegar à presidência despertou para a gravidade da crise, em autêntica “mea culpa”, mudou a política econômica.
                  
Desaprovado popularmente tem na sua equipe econômica a sustentação no enfrentamento do incesto produzido, em anos recentes, pelo contubérnio dos setores públicos e privado. Enfraquecendo o Estado, privilegiando grupos privados delinquentes, retratados na corrupção ampla e geral que a “Operação Lava Jato” vem, há três anos, demonstrando documentalmente.

Reconstruir os pilares da economia brasileira é missão que durará muitos anos. Infelizmente com o combate feroz dos porta vozes cínicos dos autores e responsáveis, com presença no Congresso e em setores de um jornalismo militante, buscando atribuir virtudes a um tempo passado de governabilidade, onde a tragédia política, econômica e social foi construída com aplauso, infelizmente, de amplas áreas da própria sociedade.
                  
Felizmente o Brasil é maior do que o pessimismo que estamos vivendo. A degeneração ética e moral, a tragédia econômica, a perda de confiança nas instituições políticas, é reflexo da maior recessão econômica da sua história. Pesquisa do Ibope, realizada recentemente, apontava que 15% dos brasileiros não confiam em membros da própria família. Cerca de 33% não confia no círculo de amizades e 45% dos pesquisados acreditam que quem nasce no Brasil não merece confiança. Quando se trata das instituições, Congresso Nacional, governo, partidos políticos a desaprovação fica acima dos 80%.
                  
Ante um cenário dessa gravidade, é preciso buscar com competência um novo caminho para o futuro, enfrentando a “velha política”, restaurando com disciplina espartana as instituições do Estado, em todos os níveis, buscando novas lideranças capazes de apontar um futuro para o Brasil. Para isso a sociedade brasileira precisa despertar do torpor alienado Onde ela (a sociedade) é a grande vítima.

Em 2018, ocorrerá uma oportunidade que não pode ser perdida, com debates estéreis. Deve se buscar quem venha a formular um projeto nacional, onde não prevaleça o “nós” e “eles”, mas os verdadeiros interesses da nação. Consciente do fato de não existir salvadores da Pátria.                  


Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira. 

Um comentário:

Martim Berto Fuchs disse...

A Revolução Francesa aconteceu, porque a Coroa - leia-se Luiz XVI - não conseguiu consertar as finanças do Estado. E não conseguiu por que ? Porque o corporativismo não permitiu, corporativismo representado pelos funcionalismo público e pelos artesãos, principalmente aqueles que atendiam a nobreza. Isto lembra alguma coisa ?
E ainda tem quem defenda a Monarquia para consertar o Brasil.