quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Cresce no Japão a crise política que poderá tirá-lo do rumo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

Ao final do primeiro semestre deste ano, parece-me que os mercados mundiais passaram a respirar um pouco mais aliviados, principalmente após as eleições realizadas na França pois, de certa forma, diminuiu o temor de um rompimento na região do euro com a ascensão de “eurocéticos” após o Brexit em meados de 2016.

Entretanto, os riscos políticos seguem aflorados ao redor do mundo, sinalizando possibilidades concretas de impactos na economia global. Uma das crises, dentre outras existentes, que vem encorpando há algum tempo, tem sua origem no Japão, a terceira economia do mundo, podendo ocasionar uma mudança relevante na sua política econômica.

O Japão se encontra numa condição bastante vulnerável diante do ambiente econômico internacional em função de ser largamente dependente de exportações. Sua fragilidade nos últimos anos é um ponto a se destacar, uma vez que a economia japonesa conheceu períodos de recessão em função da desaceleração da economia mundial e das catástrofes naturais que atingiram em cheio o arquipélago. Em 2016, seu crescimento econômico continuou fraco (0,5%), estimulado pelo comércio externo e o consumo interno.

Provavelmente esse cenário poderá melhorar um pouco ao longo desse exercício. O Japão tinha uma participação no PIB (Produto Interno Bruto) global de 7,8%, em 1980,tendo subido para 9% em 1991. Mas com a longa estagnação da economia japonesa, a participação do país caiu para 4,3% em 2017 e deve ficar em 3,7% em 2022. O Japão deve perder uma fatia de 4,1% do PIB mundial em 42 anos.

Além disso, o risco de deflação ainda permanece, já que o país nos últimos dois anos registrou taxas positivas, contudo muito próximas de zero. A dívida pública continua elevadíssima (acima de 240% do PIB), sendo ela recordista nesse quesito entre todos os países. A justificativa para este descalabro macroeconômico se deve à sua política fiscal expansionista dos últimos anos, especialmente depois da crise financeira global de 2008/2009, além dos altos custos de reconstrução após o terremoto e o tsunami de março de 2011.

A grande questão é que o país está imerso em um longo período de estagnação econômica, que alterna períodos de baixíssimo crescimento com deflação, sem encontrar, na realidade, uma saída. São duas décadas de frustração e diversas tentativas para revitalizar sua economia.

A gestão do atual primeiro ministro, iniciada ao final de 2012, está marcada por elevadas suspeitas de nepotismo como também a concessões de grandes favores, provocando enormes reações populares, sendo que as pesquisas divulgadas recentemente denotam que sua aprovação é inferior a 30%. O baque na sua popularidade foi extenso, deixando o povo japonês decepcionado e intransigente quanto á sua efetiva liderança e, também, com relação às questões que envolveram a ex-ministra da Defesa.

Ao final de julho passado, ela renunciou ao cargo em meio a documentos que atestam sua colaboração para dissimular os registros que mostravam o imenso perigo enfrentado pelas forças de paz japonesa no Sudão do Sul. Rapidamente, foi feita a substituição ministerial, na tentativa de acobertar sua vergonhosa popularidade, colocando-se na pasta uma nova ministra que já teve a oportunidade de ocupar anteriormente esta função.

Existe uma dúvida crescente se o premier ainda estará ocupando o cargo até as próximas eleições legislativas. Caso venha a deixá-lo antes do pleito, uma das questões que preocupam intensamente os investidores é seu plano keynesiano, comumente conhecido como Abenomics (a política econômica de Abe) que, sem a sua liderança, continuará conservando integralmente sua estratégia política de gerar crescimento nos lucros das empresas, dos salários e do consumo e pôr termo ao ciclo deflacionário que afeta significativamente a economia japonesa.

Os três pilares do Abenomics, também apelidado de “Plano das três flechas” são: a política fiscal, a flexibilização monetária e as reformas estruturais. Com relação aos dois primeiros pontos, eles vêm sendo conduzidos, mas quanto às reformas, elas ainda estão sendo encaminhadas. Acontece que da maneira como a imagem do primeiro ministro vem se enfraquecendo, as inevitáveis reformas passam para o segundo plano, pois seu objetivo maior é centrar esforços a fim de recompor sua reputação eminentemente abalada. Qualquer semelhança com outras nações, notadamente o Brasil é, simplesmente, mera coincidência.

Evidentemente o escândalo tornou-se uma forte ameaça para o Abenomics porque o seu índice de aprovação já vinha declinando mesmo antes de pequenas reestruturações ocorridas. Pelo visto, somente conseguindo ele uma alta taxa de aprovação dos japoneses poderá iniciar a retomada das imprescindíveis reformas estruturais.

Alguns analistas admitem que a probabilidade da queda do chefe de governo é relativamente pequena, mas, de certa forma, existe uma aparente possibilidade de ele não estar no cargo em setembro de 2019, quando se encerra seu mandato. Para outros, se ele for realmente embora, o Abenomics certamente deverá acompanhá-lo. É igualmente provável que isso venha a comprometer as políticas monetárias não convencionais do Banco do Japão (BOJ – Banco Central) a exemplo do poderoso “QuantitativeEasing” (QE), adotado em larga escala (criação de dinheiro novo para injetar na economia e estimular a atividade econômica).

Nesse aspecto, é plausível que o próximo presidente do BOJ, cujo mandato também termina em 2019, seja substituído por um profissional que talvez não seja favorável a continuar insistindo nas políticas de “taxa-zero” que visam controlar a deflação e venha a ampliar o consumo realizado pelas famílias, considerando que, até o momento, os esforços para tirar o país da estagnação não apresentaram os resultados esperados. Por outro lado, existe a hipótese de que o atual ministro do Exterior venha a substituí-lo, quando então poderá adotar mudanças no Abenomics, mas sem provocar uma ruptura na concepção do plano.

São pontos negativos o envelhecimento da população, os políticos que persistem nos mesmos erros, aumentando os gastos, os impostos, deixando o lugar cada vez mais difícil para se empreender e as leis trabalhistas difíceis de seguir. As tensões políticas, sobretudo com a China e a Coréia do Sul e outros emergentes são também fontes de preocupação que o Japão terá que levar em consideração nos próximos anos.

A humanidade tem experimentado sérios conflitos e vultosas crises não só políticas, econômicas, sociais e muitas outras de igual importância, as quais se diferenciam apenas pelo motivo, gravidade, localização, intensidade e época. Considero a pior delas a “Crise de Ideias”, pois ela, para mim, é a “mãe” de todas.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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