quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lula – A bolsa ou a vida


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

O Índice da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) segue correndo atrás do prejuízo, dentro de uma robusta tendência principal de alta, quando os investidores tiveram a oportunidade de comemorar com maior segurança a mudança nas perspectivas para o país a partir do início do ano passado. Na última semana, o antigo topo histórico alcançado de 2008 foi enfim ultrapassado, somente em valores nominais.

Naquela época, o Brasil esteve numa euforia contagiante - tinha acabado de alcançar o seu “investment-grade” ou grau de investimento, uma nota atribuída aos países por agências de classificação de risco e que indicam, grosso modo, a capacidade que os países têm de pagar suas dívidas internas e externas. Tudo era festa, havia autossuficiência em Petróleo, crédito farto e um operário no poder.

Segundo a Economática, apesar da forte alta em termos nominais, o mercado ainda está um pouco longe de seu pico, em termos reais. Se for considerado em conta o valor em dólares do índice, o Ibovespa está hoje em 24.042 pontos, praticamente a metade dos 44.616 pontos do recorde histórico, atingido em 19 de maio de 2008. Ou seja, mesmo com a alta atual, o Ibovespa ainda se encontra na verdade 46% abaixo do seu pico.

Como em 2008 o dólar estava em torno de R$ 1,60, falta justamente uma alta por volta de 85% para se chegar na máxima histórica, em dólar. Isso quer dizer que, em dólar, a bolsa tem reais condições de subir muito ainda, já que os investidores estrangeiros estão enxergando a máxima histórica ainda muito distante, mas o dólar também pode cair e acelerar o ajuste.

Se for considerada a variação da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o recorde do Ibovespa de maio de 2008 equivaleria naturalmente a 127.960 pontos, e o índice, hoje, estaria ainda 42% abaixo do recorde. Logo, em termos reais, o Ibovespa ainda teria muito espaço para subir antes de atingir o pico histórico de 2008, o que não significa que ele vai continuar subindo.

A ruptura da máxima histórica da Bolsa brasileira realmente não surpreende muito se a analisarmos dentro de um amplo contexto a nível global. Na realidade, é bem provável que estávamos atrasados (e ainda estamos). Parece-me que o mercado brasileiro estava com uma dívida de “upside” (potencial de valorização de uma ação em determinado período e sua cotação atual), tanto na comparação com locais desenvolvidos quanto no confronto com as praças emergentes.

Quem se movimenta guiado por sinais cartesianos nunca vai entender o que embala o ânimo dos investidores na Bolsa de Valores. Mas a regra é muito simples: estabilidade de indicadores macroeconômicos e governo com credenciais para seguir em frente na sua gestão estão precipuamente ligados e promovem lucratividade. Especialmente esse segundo fator, que pesa consideravelmente.

A grande questão é que existem justificativas plausíveis que influenciaram as altas verificadas ultimamente na Bovespa: a liquidez internacional ainda se encontra intensa, especialmente em função das taxas baixas de juros praticadas notadamente nos EUA. Isto é, o ambiente externo segue oportuno para quem tem um maior apetite ao risco e para o fluxo de capital internacional em países como o Brasil; há persistência na queda contínua da Selic (taxa básica de juros), reduzindo de alguma forma a atratividade por investimentos em renda fixa e aumentando a busca por ativos de maior risco como o mercado acionário; há sinais de uma próspera recuperação em nossa economia, restabelecendo a perspectiva em relação ao resultado das empresas de capital aberto; há melhora no prêmio de risco do Brasil, refletindo uma razoável perspectiva de votação de reformas indispensáveis pelo governo Temer; o dólar está se enfraquecendo, reduzindo o custo de importação de insumos, o que favorece uma margem melhor de lucros das empresas; “A esperança é a última que morre” quanto ao avanço da agenda de reformas do governo no Congresso e, por fim, a recuperação do preço de commodities como petróleo e minério de ferro no mercado internacional, impulsionando sobretudo, as ações de empresas como Petrobras e Vale.

A grande preocupação dos investidores nacionais e estrangeiros está nas eleições presidências de 2018 que, sem dúvida, representam um ponto crucial de risco, porém, logicamente, sem desprezar as nossas contas públicas que permanecem como uma grande obsessão em virtude da indecorosa política nacional.

Em especial, a probabilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal nome da esquerda brasileira, conseguir efetivar sua candidatura, indo ao segundo turno e saindo vitorioso, tornar-se-á um risco mais do que iminente aos olhos dos investidores, o que impõe, hoje, certo limite aos preços das ações.

Se, não me engano, o prazo para registro das candidaturas às eleições expira em agosto de 2018 e, até lá, ainda não se pode ter a certeza se o Tribunal Regional Federal- TRF de Porto Alegre (4ª Região) vai conservar ou reverter a primeira condenaçãode nove anos e meio anunciada para Lula pelo juiz Sérgio Mouro, o que levaria o líder petista à condição de inelegível, deixando-o literalmente alijado, pelo menos da próxima corrida presidencial.

Tenho a impressão de que qualquer notícia que venha a demonstrar um eventual impedimento da sua candidatura no próximo ano aumentará consideravelmente a sede dos investidores. Lembro-me de que na véspera do último feriado (Independência do Brasil), o depoimento de Antônio Palocci, ex-ministro de Lula e Dilma ao juiz Sérgio Moro, levou imediatamente o mercado acionário próximo ao êxtase. Pallocci, naquele momento, referiu-se ao famigerado “pacto de sangue” estabelecido entre a empreiteira Odebrecht e o PT, ressaltando, dentre outras benesses recebidas, um “pacotaço” de propina”, no qual estavam inclusos R$ 300 milhões para contemplar o ex-presidente Lula e a sua seita criminosa.

Em 2014, vivenciamos a desesperada polarização entre o PT e PSDB e na corrida eleitoral municipal de 2016 surgiu, então, a figura do “não político”, uma tendência que vem se configurando no mundo e emergiu como um contraponto, diante dos graves escândalos de corrupção que se seguem e deixam o país totalmente abalado e repleto de incertezas.  Agravada a situação crítica da trajetória da dívida pública em meio à recessão, a reforma da Previdência virou assunto cotidiano, patrocinado por um eleitorado bem mais propício a nomes de centro-direita. 

Ainda estamos praticamente a um ano do primeiro turno da eleição ao Planalto, mas parece-me que economistas, financistas, juntamente com empresários, já discutem dois candidatos que podem conduzir um governo mais “friendly” (amigo do mercado): o atual prefeito de São Paulo, João Doria, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Qualquer notícia envolvendo essas possíveis candidaturas pode afetar positivamente as principais cotações das ações na Bolsa, embora se reconheça que as reformas estruturais propostas pela atual gestão contemplam uma importante agenda de País, não isolada da figura do presidente.

O noticiário econômico já começou a divulgar, após sucessivas altas, as primeiras previsões dos analistas para o Ibovespa. Inicialmente, fechando este ano com 82 mil pontos e, a princípio, 95 mil ao final de 2018. Na certeza de que Lula, o PT e a denominada esquerda populista ficarão sem chances de chegada, é possível que os 95 mil pontos possam ser atingidos ainda neste exercício e no próximo ano, quando chegaríamos a 110 mil pontos.

É importante ressaltar que a Bolsa ainda não embute nos seus preços a probabilidade de o candidato vitorioso do próximo pleito manter a atual política econômica como imagina agora o mercado financeiro. Precifica tão somente a equipe econômica de Temer, que aí está se empenhando muito na busca de imediatas soluções e, certamente, ajudará bastante quando ele transferir a faixa presidencial ao seu sucessor.

O desempenho do mercado poderá inclusive se estabilizar por um período até que os candidatos sejam realmente definidos. A partir daí, a meu ver, a intensidade da sua volatilidade com relação ao crescimento do Ibovespa será regulada pelos boatos, fatos e resultados das pesquisas durante o período pré-eleitoral até que o próximo mandatário em 2019 assuma efetivamente os destinos da Nação e, mesmo antes de sua posse, comprove sua total disposição em acelerar o processo reformista de ajuste fiscal e de privatizações iniciado por este governo de transição.

Na realidade, ainda falta um pouco mais de um ano para as eleições presidenciais e reviravoltas podem surgir inesperadamente, ainda mais no país das cuecas e malas cheias de dinheiro público, carregadas pelos políticos inescrupulosos, mas o relógio econômico passou a marcar o tempo que falta a favor daqueles que repudiam o perigoso e ultrapassado modelo “populista-desenvolvimentista” com que já tivemos a oportunidade de conviver na extinta era petista, que não deixou os brasileiros nem um pouco saudosos.

De modo geral, no Brasil e no mundo, o descrédito com a política pode ser plenamente vencido com a criação de mecanismos que venham a fomentar um diálogo inteiramente sincero com a sociedade. A ampliação dos canais de participação institucional deveria ser uma ação a ser perseguida por políticos em conjunto com os partidos, buscando assim revigorar os reais instrumentos institucionais democráticos.

Se não obtivermos uma profunda mudança nas atitudes dos políticos, partidos e da comunidade como um todo, será inevitável um grande distanciamento da verdadeira política, colocando-se em perigo não somente os resultados que venhamos a ter do pleito em 2018, mas também para o sistema político que passará à vigorar pós-2018.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

Um comentário:

jomabastos disse...

Todos os mais de 140 políticos formalmente suspeitos de corrupção que estão presentemente no legislativo e excecutivo, têm que ser interditados e se possível julgados antes das eleições de 2018, para que não tenhamos potenciais criminosos candidatos concorrendo para elas nesse pleito.